Carlos Miguel Aidar teve sua chance. Antes da derrota do São Paulo para o CRB, pela Copa do Brasil, foi questionado pela ESPN se estava arrependido por dizer que Kaká tem a cara do São Paulo porque é “bonito, alfabetizado e tem todos os dentes”. O novo presidente do São Paulo poderia ter se retratado, poderia ter dito que se expressou mal.

Mas Carlos Miguel Aidar é um dos cardeais, como são chamados os cartolas do São Paulo. Um homem que aparentemente tem dificuldade em aceitar que erra. Em se retratar. E cardeal Aidar confirmou a frase sobre Kaká – “não há arrependimento algum” – e ainda foi além. Afirmou que Muricy também tem a cara do São Paulo porque “também tem todos os dentes na boca, também tem um sorriso agradável”.

Como observou muito bem o amigo José Antonio Lima, com frases assim, Aidar não apenas mostra que desconhece a torcida de seu time, formada em sua maioria por pobres e moradores das periferias, como afasta o clube dela na mesma medida em que se aproxima do poder.

Não deixa de ser curioso que o cartola veja o São Paulo como um clube de elite, mas, quando precisa que o estádio esteja lotado, baixe o preço do ingresso para R$ 10. Ora, a elite alfabetizada e de belos dentes não poderia pagar caro por entradas para ver a estreia do Pato? Não pode comprar camarotes, cadeiras cobertas?

Carlos Miguel Aidar representa a face mais triste da elite brasileira. O preconceito, a vontade de varrer pobres para baixo do tapete. A elite que coloca pedras embaixo de viadutos para espantar mendigos. É gente assim que está transformando os estádios brasileiros – e o futebol, consequentemente – cada vez mais em locais para quem tem dinheiro, mudando o caráter do esporte do povo.

É gente como o presidente do São Paulo, mas não apenas ele, que está destruindo o nosso futebol.

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Aidar (centro) celebra a eleição para presidente do São Paulo: preconceito e aproximação com a CBF/Globo (Foto: Divulgação)

Aidar (centro) celebra a eleição para presidente do São Paulo: preconceito e aproximação com a CBF/Globo (Foto: Divulgação)

Em agosto passado, fui ao Canindé tentar ajudar o São Paulo a se reabilitar no Campeonato Brasileiro. Lucas Evangelista fez 1 a 0, mas Diogo virou para a Portuguesa: 2 a 1. Na saída, caminhando do estádio até a estação Tietê, travei um diálogo que surpreenderia o novo presidente do São Paulo, Carlos Miguel Aidar.

Após debater qual a melhor posição para Rodrigo Caio jogar, desabafei indignado com a derrota. “Não vou mais ao Morumbi”. O são-paulino ao lado, que estava longe de ter todos os dentes na boca, e portanto não tinha “a cara” do São Paulo como Aidar a imagina, reclamou. “Temos que ir, senão o time vai cair, eu vou no próximo”. Eu disse não estar certo de que aquele elenco merecia apoio e o interlocutor ficou em dúvida. “É, para mim é bem mais fácil vir ao Canindé do que ao Morumbi. Para chegar aqui, levo só uma hora e meia, no Morumbi são duas horas e meia”.

O tal são-paulino era de Guaianases, distrito no extremo da zona leste de São Paulo, bem depois de Itaquera, bairro do estádio do Corinthians chamado por Aidar de “outro mundo” e “outro país”.

Ele, e milhões de outros são-paulinos desdentados e moradores das periferias, como a maioria dos brasileiros e, portanto, dos torcedores de futebol, devem ter se sentido um lixo com as declarações. Aidar não se importou. Não pediu desculpas por reforçar, às custas de são-paulinos, a patética e mentirosa imagem de que o São Paulo seria um clube de elite, algo que, de alguma forma canhestra, é visto de forma positiva pelo dirigente. Na terça-feira 22, Aidar disse que estava “brincando” e afirmou que suas declarações foram mal interpretadas. Não foram, elas são mesmo preconceituosas, mas talvez a moralidade paralela vigente no futebol brasileiro as torne mero folclore.

Enquanto aliena a maior parte da torcida, Aidar promove uma guinada na postura política do São Paulo. Após anos de rusgas com parceria Globo/CBF, o São Paulo se tornou mais um de seus clientes.

Aidar e seu antecessor, Juvenal Juvêncio, são aliados dentro do São Paulo, mas têm posturas diferentes das portas do Morumbi para fora. Enquanto Juvenal é inimigo de Marco Polo Del Nero, o novo presidente da CBF, Aidar é advogado da confederação, uma relação amplamente antiética, cujo objetivo é, como escreveu Felipe Lobo na Trivela, cooptar o São Paulo.

Diante disso, não parece ser o acaso o responsável pela coincidência entre a chegada de um aliado da CBF à presidência do clube paulista e o gordo empréstimo da Globo ao São Paulo.

Como se sabe, a CBF e a Globo têm um importante interesse em comum: a confederação e a emissora trabalham para manter o futebol brasileiro no pútrido estado em que ele se encontra. A formação de uma liga independente e a consequente profissionalização do futebol implicariam perda de poder para a CBF, que ficaria sem o Campeonato Brasileiro, e perda de dinheiro para a Globo, que para continuar a transmitir o torneio precisaria desembolsar ainda mais dinheiro. Um empréstimo como este seria impossível, por exemplo, em 2011, quando o São Paulo liderou o Clube dos 13 (posteriormente implodido por Andrés Sanchez em troca do Itaquerão) na ação movida no Cade que culminou em um “prejuízo” de R$ 2 bilhões para a emissora.

Para o torcedor comum do São Paulo, a saída de Juvenal Juvêncio foi um alívio. Suas declarações desconexas, por vezes delirantes, deixavam claro a falta de rumo do clube. Parecia impossível que algum dirigente tivesse a capacidade de piorar as coisas. Aidar conseguiu.

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Até o limite da honra

figurinhas

Colecionar um álbum de figurinhas exige uma série de rituais. Principalmente se for da Copa do Mundo, que, por si só, já carrega uma enorme expectativa. A primeira compra de pacotinhos, a escolha da melhor banca, a primeira troca com amigos, as trocas com desconhecidos. E por aí vai.

Existem também algumas regras implícitas, mesmo que não oficiais. Uma delas é sempre deixar as figurinhas repetidas em ordem numérica, para facilitar o trabalho do próximo receptor. Pois bem. Uma coisa leva à outra e os compromissos eram muitos. Após o café preto, sempre amargo, surgiu aquela inconfundível vontade de ir ao banheiro. Pareceu-me totalmente apropriado aproveitar aquele momento para colocar as figurinhas em dia, ou melhor, em ordem.

Mas havia algo desviando a concentração. Assim que apoiei as primeiras figurinhas na perna direita (as dos estádios), surgiu o primeiro sinal sonoro. Era a minha mulher. Estávamos tratando de um problema de agenda: uma reunião no colégio da Maria Eduarda, nossa filha. “Antes fosse para trocar figurinhas”, pensei eu, antes de voltar à organização dos cromos.

A cada fileira apoiada sobre a perna, uma réplica no WhatsApp. E assim sucessivamente. O celular aninhado na calça arregaçada até os tornozelos e as figurinhas buscando se equilibrar como torcedores nas arquibancadas de La Bombonera.

Mas a minha mulher mandou um áudio, pois as trocas de mensagens eram muitas. “Vou facilitar”, imagino que tenha pensado. Mal sabia que aquilo provocaria um episódio extremamente infeliz. Reagi instintivamente. Como um zagueiro esabaforido, inclinei-me muito rápido para buscar o aparelho e percebi um vulto na perna esquerda. Pisquei os olhos e elas haviam desaparecido. As figurinhas. Um montinho de 7 figurinhas que certamente repousavam lá alguns segundos atrás.

Ainda olhei para o chão do banheiro, mas já sem qualquer esperança. Nada. Então, tive que confrontar o pior dos pesadelos. Sim, as 7 figurinhas boiavam sobre a água do vaso sanitário. Tristes, melancólicas, suplicantes. Consegui apenas reconhecer um jogador da Argélia, o lateral Marcelo, da Seleção Brasileira, e o goleiro de Camarões. Boiavam como vítimas de uma catástrofe. Sem direito a resgate ou qualquer outro ato digno. Desconvocados à força.

Misturei logo o bolo de figurinhas para estancar aquele drama. Ouvi o áudio da minha mulher, enquanto lançava um último olhar sobre os náufragos. Uma situação tão insólita que me senti na obrigação de dividir com os amigos do Esporte Fino. Entre reações de pura incredulidade, surgiu o José Antonio Lima, que inclusive sugeriu o título desse texto. Ele foi o último a responder sobre o ocorrido. Uma frase rápida, como se falasse consigo mesmo, mas que carregava toda a decepção: “Eu não tenho o goleiro de Camarões”. Foi como enfrentar a perda de alguém querido. Às vésperas da Copa do Mundo.

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Minha primeira lembrança do esporte é a Copa de 1982. Eu tinha 5 anos, mas me lembro um pouco dos jogos contra a Nova Zelândia, contra a União Soviética e (aquele) contra a Itália. E Luciano do Valle era a voz da TV Globo, foi ele quem narrou a Tragédia do Sarriá.

Luciano me “inventou” como jornalista esportivo. Porque, antes disso, me deu a chance de amar o esporte. Narrou corridas de Fórmula 1 em mil novecentos e Nelson Piquet na Brabham e “criou” o vôlei brasileiro – incluindo a ideia e organização de um inacreditável Brasil x União Soviética no Maracanã.

Quando Emerson Fittipaldi foi para os EUA, Luciano “decidiu” que o Brasil ia conhecer a Fórmula Indy. Conheceu, gostou e até hoje a categoria está na TV. Luciano criou o Show do Esporte. Quando a TV por assinatura não existia no Brasil, um canal – a Bandeirantes – passou a transmitir apenas esporte durante todo o domingo. E vimos o Campeonato Italiano com os inesquecíveis duelos de Napoli x Milan e conhecemos Rui Chapéu e Roberto Carlos, reis da sinuca. Foi técnico da seleção brasileira de masters. Criou uma Copa do Mundo dos velhinhos.

Foi narrado por Luciano do Valle o primeiro jogo de futebol americano que vi na vida. Em setembro de 2013, no Bola da Vez, da ESPN, falou sobre a investida no esporte. Celebrava 50 anos de carreira.

Nos últimos anos, é preciso ser honesto, nos divertimos bastante com as gafes de Luciano. Quando estava na Record, em 2003, se enrolou durante um jogo da segunda divisão do Campeonato Brasileiro que até hoje o Esporte Fino usa no Twitter como um bordão. “Ah, como é gostoooooosa a Série B! Quer dizer, menos para os torcedores dos times que estão na Série B”. Costumava trocar nomes de pilotos na Indy, se enrolava para falar Ryan Hunter-Reay. Chamou Justin Wilson de George Wilson.

Luciano morreu hoje, aos 70 66 anos, enquanto viajava para narrar Atlético-MG x Corinthians, abertura do Campeonato Brasileiro. Com ele tenho uma dívida que jamais poderei pagar. E tenho certeza que ele jamais pensaria em cobrar. Como eu, muitos outros teriam de pagar. E não há dinheiro que pague o que Luciano fez por mim.

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Wanderlei Silva deu um tiro no próprio pé

Desde o último domingo, o assunto da semana no mundo do MMA (ao menos aqui no Brasil) foi a briga entre Wanderlei Silva e Chael Sonnen no reality show The Ultimate Fighter Brasil. E olha que já teve um evento na quarta-feira, com 13 lutas, e neste sábado tem outro, com Fabrício Werdum enfrentando Travis Browne pela chance de disputar o cinturão dos pesados.

O Esporte Fino tinha avisado que a rivalidade entre o brasileiro e o norte-americano era a maior aposta do programa para recuperar audiência e ganhar novos espectadores. Desde o início da temporada, a edição alertava que haveria um grande desentendimento entre os treinadores, e Dana White garantia que a rivalidade entre eles era verdadeira – até exagerando ao chamá-la de “provavelmente, a maior da história do UFC, e até do esporte”.

Porém, o que se viu (confira no vídeo acima) não foi apenas uma discussão no meio da academia do TUF: os dois lutadores se atacaram com violência, no chão, contrariando o respeito que o MMA adquiriu nos últimos anos, e praticamente se envolvendo em uma briga de rua, com direito até ao treinador assistente de Wanderlei, André Dida, atacando Sonnen pelas costas e exibindo sua camisa como prêmio.

Quem saiu como perdedor moral foi Wanderlei Silva. Pelas imagens, é possível ver que Sonnen tem sua parcela de culpa, por ter dado o primeiro empurrão, mas foi também quem mais tentou evitar a briga, enquanto Wand ficou atiçando o adversário. Depois que a briga foi separada, um dos envolvidos pediu calma e disse ao brasileiro que aquilo não valia a pena. “Claro que vale. Vale, vale, vale…”, garantiu. A atitude foi reprovada por muitos fãs brasileiros e vários decidiram que agora vão torcer pelo norte-americano.

Apesar de ter um histórico de provocações e xingamentos a brasileiros, Sonnen na verdade é um marketeiro profissional, que interpreta um personagem para vender (e muito bem) suas lutas. Não é difícil encontrar exemplos que mostram o outro lado dele (você pode conhecer dez deles aqui), que já ficou aparente na 17ª temporada do TUF nos Estados Unidos, e que pode atrair os brasileiros com o TUF Brasil 3, especialmente depois do episódio com Wanderlei Silva.

Durante a semana, Dana White chamou a briga de “uma exibição nojenta do que não deveria ocorrer”, e ainda revelou que foi ela que causou o adiamento do combate entre os dois, originalmente marcado para 31 de maio, em São Paulo, e transferido para 5 de julho. Wanderlei machucou as costas, ao ser derrubado no concreto, e a mão, por ter socado Sonnen.

O brasileiro já pediu desculpas pela má impressão causada pela briga, garantiu que não é a favor da violência e prometeu um vídeo explicando o contexto que o levou a agir daquela forma. Porém, tudo indica que o dano já está feito.

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“Sem saber que era impossível, foi lá e fez”.

Desafiou a lógica e construiu, linha por linha, uma das mais belas histórias que este País já viu.

Após vencer uma pneumonia dupla aos 10 anos, deu as primeiras braçadas nas águas ainda límpidas do Tietê. Na falta de piscinas, aprendeu a nadar do jeito mais insólito possível: presa à margem do rio por um anzol fincado no maiô e uma vara de pescar, empunhada pelo pai e instrutor.

Aos 17 anos, tornou-se, em 1932, a primeira sul-americana a disputar os Jogos Olímpicos. Com a inexperiência de quem até então só havia disputado competições no Tietê, além de um interestadual, enfrentou as melhores do mundo de igual para igual.

Quatro anos depois, a caminho de Berlim, realizou sua preparação no convés, amarrada a um tanque que não permitia mais de duas braçadas. No início da década de 1940, quando vivia seu auge, viu a Segunda Guerra Mundial provocar o cancelamento das Olimpíadas e afastar o sonho da medalha.

Deixou seu nome nos livros, sagrando-se a única sul-americana a bater recordes mundiais na natação.

Também fez história ao ser a primeira mulher a nadar borboleta, que aprendeu despretensiosamente, folheando uma revista alemã.

Em terras brasileiras, foi idolatrada, copiada e achincalhada. Foi excomungada por um bispo, que não aceitava os trajes de banho usados em competição.

Nadou até os 92 anos.

Em 16 de abril de 2007, há exatos 7 anos, a morte de Maria Lenk encerrou uma das histórias mais improváveis e belas da história do esporte brasileiro.

Deixou a vida, deixou saudade e deixou legado, essa palavra que anda tão mal tratada, no momento em que o esporte nacional mais precisa dela.

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A CBF e a Lenda do Pégaso*

Crédito: Rafael Ribeiro / CBF

Crédito: Rafael Ribeiro / CBF

Era uma vez, vejam vocês, um campeonato feio
Que não sabia o que era, um tal de Brasileiro
A CBF vivia, vivia a sonhar em ser o que não era
Frustrando, frustrando a plateia, até que surgiu o Icasa

Sonhava ser uma Premier League porque ela é linda e todo mundo gosta
E naquela de pretensão queria ser um Espanholão
E quando estava feliz, feliz, com a decisão do juiz
E vejam, então, que vergonha quando surgiu a liminar da Segundona

E com a vontade intacta sonhava em enterrar a pobre Lusa
E num instante leviano queria agora ser um Campeonato Italiano
E foi aquele, aquele ti-ti-ti quando a notícia chegou à Granja Comary
Por isso lhe puxaram o tapete e caiu até o advogado

Sonhava com a arena de ouro, a da empreiteira, e ficava triste
Tão triste assim que percebeu que o título ficou com o humilde de Itu
E quando queria causar tumulto então revirava as atas do morto
E até hoje ainda se discute se a Taça das Bolinhas virou abutre

E quando já estava querendo aquela paz dos marajás
Apelou para os tribunais, do STJD, que não falha jamais.
E ao sentir a falta de apoio à seleção canarinho
A CBF decidiu entregar o trono ao astuto Del Nero.

Aí então Deus chegou e disse: cancele o campeonato
Cancele antes mesmo da Copa e assuma tantas falhas
Deus disse ainda: acabou o angu, e o campeonato feio
Virou um cavalo voador, sobrou outra vez para o torcedor

Pégaso, Pégaso, Pégaso, Pégaso, Pégaso, Pégaso…

“Paródia da música “Lenda do Pégaso”, de Morais Moreira e Jorge Mautner.

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Você vai virar fã de beisebol

MLB 14 The Show: o realismo do jogo atrai até quem não é fã de beisebal (Crédito:  Divulgação)

MLB 14 The Show: o realismo do jogo atrai até quem não é fã de beisebal (Crédito: Divulgação)

Dá para entender a rejeição de muita gente aqui no Brasil pelo beisebol. O jogo tem um ritmo próprio, não é dos mais fáceis de entender, não são muitas as partidas exibidas na TV fechada. É difícil para um fã de um esporte relativamente simples, como o futebol, compreender o que é uma imaginária zona de strike e por que diabos um time precisa jogar 162 partidas antes de chegar aos playoffs. Eu mesmo só passei a gostar de beisebol de verdade depois de ver um jogo em Boston, mas tudo bem, beisebol não é para todo mundo.

Peraí, a frase precisa de um ajuste. Beisebol de verdade, com luva e taco na mão, não é para todo mundo. No videogame, beisebol é para qualquer um, para todo mundo, sim. Especialmente se você tiver nas mãos (ou no HD) uma cópia de MLB 14 The Show, a última edição do melhor game da modalidade, cortesia de SCE Studios. É um jogão, altamente personalizável, que qualquer um pode passar horas e horas jogando. Sim, qualquer um. Ninguém precisa saber de cara o que são RBIs, ERAs e sacrifice flys. Aprende-se com o tempo (e minha experiência com games de beisebol é quase zero, por isso imagino que sirva de parâmetro para muitos).

Ao ligar o Playstation, MLB 14 The Show assusta na quantidade de opções. Você pode usar pelo menos cinco ajustes prontos (analógicos ou não) diferentes para controlar o jogo, tanto rebatendo quanto arremessando. O mesmo vale para a trilha sonora. O game não é nenhum FIFA na quantidade de músicas, mas você pode fazer sua playlist e copiá-la para o HD do Playstation, que o game carrega e coloca suas canções. Melhor do que isso: se você tiver um microfone com entrada USB, pode gravar na hora gritos para torcedores. Até turma do FIFA pode aproveitar aquele “ei, juiz, vai…” que circula em uns fóruns da vida. Mas não para por aí. O game tem um editor próprio, onde você pode marcar trechos específicos que quer ouvir. Seu rebatedor está entrando em campo e você acha bacana a intro de Sweet Child O’ Mine? Põe lá. Prefere a poesia de “Vem Ni Mim Dodge Ram”? Vá lá e corte o trecho em que a letra diz “quem não tem dinheiro é primo primeiro de um cachorro”. Tudo é questão de gosto.

Road To The Show

“The Show” é como os “boleiros” do beisebol se referem à Major League Baseball (MLB), a principal liga de beisebol mundial. Logo, Road To The Show, ou RTTS, é o “modo carreira” do game. E que modo fantástico! A criação do atleta já é, por si só, um processo gratificante. As opções são tantas, desde o formato da bochecha até a cor da sola da chuteira, que o usuário pode levar mais de uma hora para criar seu personagem. E isso inclui mais de mil nomes pronunciados pelos narradores – o que me levou a batizar meu jogador de Alejandro Cosentino – um obeso que joga na primeira base -, o que faz todo sentido do mundo dada a influência latino-americana na MLB de hoje.

A carreira começa com três exibições. Você tem esses três jogos para impressionar os olheiros antes de entrar no draft.  Era minha primeira vez com o controle, e Alejandro Cosentino fez uma boa apresentação só no segundo jogo. O resultado? Fui escolhido pelo Houston Astros na quinta rodada do draft e mandado para o minúsculo Corpus Christi Hooks, da AA, espécie de terceira divisão do beisebol profissional. Quem não ficar satisfeito com o draft tem a opção de voltar para a faculdade por um período de um a quatro anos. Você não joga a liga universitária, mas adquire pontos de treinamento e evolui em certas características. Depois, volta às as exibições e tenta outro draft.

Mas se Michael Jordan andou de ônibus com o Birmingham Barons, quem sou eu para dizer não ao Corpus Christi Hooks? Assinei com o time e, falando em MJ, mal cheguei, já perdi meu número 23, que pertencia a um dos pitchers. Ganhei e abracei o 26. Com ele, fiz um home run logo na segunda partida da temporada, diante do Tulsa Drillers (importante: todos esses times existem e estão licenciados!). Fui eleito o melhor do jogo e ganhei status de promessa. Logo descobri que não seria fácil assim. Sofri uma lesão no tornozelo na primeira semana (quem mandou ser gordo?) e fiquei um mês longe dos campos. Demorei a recuperar ritmo no retorno, mas já me estabeleci como titular e mantenho uma média de rebatidas acima de .300. Está ótimo. O game atualiza meu status sempre e, por enquanto, sou visto como “future big leaguer”. Está bom o bastante.

Alejandro Cosentino:  a promessa do Corpus Christi Hooks (Crédito Divulgação)

Alejandro Cosentino: a promessa do Corpus Christi Hooks (Crédito Divulgação)

Ainda não terminei a temporada, mas já pude ver muito do que o recém-lancado (chegou às lojas em 1º de abril) MLB 14 The Show tem a oferecer. Gráficos fantásticos – de jogadores e dos muitos estádios -, som personalizável ao extremo, ótima narração (tem closed caption para quem gosta) e controles bem resolvidos. No fim das contas, é um excelente retrato do beisebol e, claro, da Major League. Mesmo para quem não gosta de ver pela TV, vale experimentar e correr o risco de ficar algumas dezenas de horas sem conseguir desligar o console.

Intervalo do sétimo inning (para você ler enquanto ouve Sweet Caroline):

- Vale registrar: MLB 14 The Show é um dos games de esporte – talvez o melhor – a usar o recurso 3D. É claro que o campo de beisebol naturalmente ajuda na noção de profundidade, mas é bom ver que o recurso é bem utilizado. E a coisa é tão bem afinada que o game ainda permite ao usuário escolher a intensidade do efeito 3D.

- Sim, é necessário ter uma TV 3D e óculos especiais para jogar em 3D. E não, ninguém é obrigado a jogar em 3D. Aliás, você pode simplesmente ativar o 3D em um dos muitos menus de MLB 14 The Show e nunca mais mexer lá. O game vai reconhecer o formato da sua TV e se adaptar de acordo com a sua preferência.

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O Galo conquista o segundo título estadual de sua história (Crédito da imagem: Facebook Ituano Futebol Clube)

O Galo conquista o segundo título estadual de sua história (Crédito da imagem: Facebook Ituano Futebol Clube)

“Os Deuses do Futebol estão lá em cima e saberão conduzir bem o comportamento de cada um quando a bola rolar no futuro. Vamos esperar o que eles farão”. A declaração irônica de Mano Menezes não era endereçada ao Ituano, e sim ao São Paulo, que supostamente teria facilitado a vitória do clube do interior para prejudicar o Corinthians na fase de classificação.

Eu acredito no Jesus do Futebol. Foi justamente o tema do meu primeiro texto aqui no Esporte Fino. E se houve alguma intervenção divina nesse domingo, ficou claro o destinatário. O Ituano fez um ótimo Campeonato Paulista. Ficou em segundo na fase de classificação no grupo mais difícil. Para ser uma ideia, o último colocado desse grupo, o XV de Piracicaba, fez 19 pontos, a mesma marca que garantiu a Penapolense entre os classificados do grupo A.

As vitórias contra Botafogo e Palmeiras fora de casa não mostraram brilho, mas um empenho absurdo de um elenco que marca demais e ficou 5 partidas sem tomar um gol – da rodada 14 até os 45 minutos do primeiro tempo da finalíssima, quando Cícero converteu a penalidade. Jogou as duas partidas da final contra o Santos de igual para igual. Ou melhor, levemente superior ao adversário. Um ou outro nervosismo, mas sem adotar a postura de azarão.

O título do Ituano não representa a força do interior nem a decadência dos clubes da capital. Foi apenas um Campeonato Paulista e não serve para carimbar qualquer novo cenário. Mas a façanha é enorme, entrando para uma minúscula lista formada por Inter de Limeira (1986), Bragantino (1990) e São Caetano (2004). Só esses conseguiram levantar a taça estadual no lugar dos ditos grandes. O título de 2002, do mesmo Ituano, conta para a história do clube, mas foi conquistado sem a presença de Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Santos.

Grandioso. E não cabe a discussão sobre regulamento. Se todos os clubes aceitam e assinam as invencionices da Federação Paulista de Futebol, a reclamação do técnico Oswaldo de Oliveira ao final da partida soa, sim, como choro de mau perdedor. Acha injusto? Então reclame com o seu presidente, que sempre está mais preocupado com as cotas de TV do que com a qualidade do torneio que disputa.

Seis mil pessoas invadiram o estádio Novelli Júnior para receber os campeões paulistas. As emissoras de TV flagraram a euforia dos torcedores. Provavelmente, jamais imaginaram que esse dia fosse possível. A câmera foca então em um senhor aparentando uns 70 anos. Ele veste uma faixa “ITUANO CAMPEÃO” e não disfarça os olhos marejados.  Para aquele senhor, não existe argumento que justifique o fim dos estaduais. Ainda mais depois do dia 13 de abril de 2014, quando os Deuses do Futebol decidiram puxar o “erre” e permitir que um novo campeão arrebentasse a porteira.

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A segunda edição do podcast Esporte Fino, uma parceria do blog com a Central3 está no ar. Bruno Winckler, Fabio Chiorino e Rodrigo Borges falam com o jornalista Marcelo Laguna, especialista em esportes olímpicos, sobre a intervenção do Comitê Olímpico Internacional na organização das Olimpíadas do Rio. Também estão na pauta a boa campanha dos times de Liverpool e o esporte de Seattle na era Kurt Cobain. A apresentação é de Paulo Jr.

O podcast Esporte Fino vai ao ar ao vivo todas as quintas-feiras, às 21h. Você pode participar mandando perguntas e comentários pelo Twitter @BlogEsporteFino ou @Centraltres.

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