O Instituto Desejo Azul é uma ONG criada por conselheiros do Grêmio para ajudar crianças que sofrem com doenças graves. Tem como inspiração o Make-A-Wisk, fundação norte-americana presente em 36 países. O instituto ganhou corpo com a presença de torcedores e voluntários e passou a realizar desejos de pequenos gremistas em hospitais e centros clínicos do Rio Grande do Sul.

Aí surgiu uma baita sacada. Em parceria com o Grêmio Libertador, um dos blogs de maior audiência entre os torcedores do clube, foi lançada a campanha Leve um carrinho do Dinho no peito. Uma maneira bem-humorada de angariar mais recursos para o Desejo Azul e, de quebra, homenagear um dos jogadores de maior identificação com os gremistas.

O vídeo da campanha você confere abaixo. Uma aula de como usar o futebol para se atingir algo grandioso além das quatro linhas.

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Depois de longos quatro meses, os inchados e enfadonhos campeonatos estaduais terminaram no último final de semana e causaram alívio para boa parte dos torcedores. O Brasileirão vai começar, a Copa do Brasil terá os times da Libertadores a partir de agosto, tem reta final de Libertadores para Fluminense e Atlético-MG, enfim… grandes torneios para grandes clubes.

Campeonato Paulista 2013 Santos x Corinthians

Porém, por mais penoso que seja lembrar, o ano vai terminar e lá em janeiro teremos o reinício desses estaduais cada vez menos rentáveis esportiva e tecnicamente (ainda que alguns rendam bons valores aos clubes de camisa mais pesada). Já que terminar com os Estaduais não está em pauta em nenhuma federação ou na CBF, a solução para torná-los menos desgastantes e mais atrativos é mudar a fórmula de disputa ao menos dos estados com mais times na Série A.

Não é o caso de diminuir o valor das conquistas de clubes como Santa Cruz e Paysandu, populares na essência e que talvez tenham nesses torneios sua única e verdadeira chance de celebrar um título no ano, mas para clubes de Série A ou que disputam a Libertadores, as longas rodadas sem propósito algum só diminuem seu apetite por esse título.

Faço aqui, então, algumas propostas.

Para o Gaúcho e o Carioca, que englobam seis grandes clubes, uma saída é tornar a disputa que hoje é feita em dois turnos em um só. O torneio ficaria mais dinâmico. Poderia começar mais tarde, dando aos clubes as condições ideais de pré-temporada e tornando o campeonato mais dinâmico. A tradição da Taça Guanabara e da Taça Rio, perdoem-me os mais saudosistas, não têm mais espaço neste calendário de hoje.

Para o Campeonato Paulista a proposta é dividir os 20 clubes em dois grupos com jogos apenas de ida e classificação dos quatro primeiros para as semifinais. Seriam nove rodadas mais quatro datas para os mata-matas. Os dois últimos de cada grupo seriam rebaixados. A Federação Paulista não quer diminuir o número de clubes, então esta seria uma das saídas. Há ao menos um consenso de que a fórmula atual deve ser mudada para 2014. O calendário do ano que vem será ainda mais curto por conta da Copa do Mundo, mas um bom regulamento pode motivar sua manutenção para os anos seguintes.

O Campeonato Mineiro é atualmente o mais condizente com o que pede um calendário justo para grandes e pequenos. Tem apenas 12 clubes, 11 datas no primeiro turno e mais quatro jogos de semifinais e finais. Começa mais tarde que os demais e não desgasta tanto Cruzeiro e Atlético-MG. Campeonatos de Paraná, Santa Catarina, Bahia, Ceará, Pernambuco e Goiás, estados com mais representantes nas principais divisões do país poderiam seguir o exemplo.

E os pequenos? É falsa a afirmação de que os Estaduais são a salvação dos times menores. Eles não tem contratos rentáveis de patrocínio, têm arrecadação de bilheteria inferior aos gastos e ainda que consigam jogar o torneio regional, passam, na sua maioria, 2/3 do ano sem compromissos. Os pequenos têm sido cada vez mais usados como time-ponte de empresários que usam do torneio para valorizar atletas.

O Mogi Mirim, por exemplo, fez ótima campanha no Paulistão, foi semifinalista, mas já perdeu mais da metade do time titular e seu técnico. Vai iniciar a Série C, para a qual foi promovido em 2012, sem um bom time. Diminui assim a chance de acesso à Série B, torneio bem mais valioso e de mais exposição que um Paulistão.

Este texto não é definitivo, não pretende ser a solução para os “charmosos” estaduais, mas mostra que para mudá-los e torná-los melhores basta pensar e ter boa vontade. Infelizmente, aqueles que deveriam estar envolvidos nesse processo dispensam desse expediente e insistem em fazer os Estaduais ficarem cada vez mais parecidos com o filme lembrado pelo José Antonio Lima neste texto.

Foto: Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians

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Caiu o pano da carreira de Ronaldo Angelim. O zagueiro não tem mais força e condição física para atuar e pediu para antecipar o fim do contrato com o Fortaleza. Contusões recentes nos adutores das coxas e uma difícil recuperação pela frente anteciparam o que seria realidade no fim da temporada. Poderia ter continuado, mas preferiu se preservar e preservar o clube, atitude que não surpreende quem o conhece.

Ídolo de Fortaleza e Flamengo (difícil ser assim reconhecido por duas torcidas enormes) o jogador teve uma carreira sólida, paciente, vencedora. Tecnicamente sempre foi muito bom e certamente está entre os melhores que o futebol cearense e nordestino produziu.

Não me cabe aqui fazer um resumo de sua trajetória. Isso todo mundo sabe, viu ou torceu. Mas faço questão de destacar que foi ótimo ter comentado muito de seus jogos, de seus gols decisivos, participado de entrevistas com ele e conhecido um pouco de um atleta muito diferente do que se percebe no vaidoso ambiente futebolístico, nos bastidores da bola.

Claro, não há alguém perfeito, longe disso. E Ronaldo Angelim nunca quis ser. Mas não é difícil identificar o caráter, a genuína humildade e a sabedoria de um cara que chorou muito nesta segunda-feira na sala de imprensa do Fortaleza. Chorou como se menino fosse, agradecendo ao seu clube de coração e dizendo ser um privilégio, ainda que distante da maneira ideal, poder encerrar ali no tricolor a sua carreira.

Foram lágrimas honestas de alguém que está deixando pra trás o que mais gosta de fazer, mas que o fez durante todos esses anos deixando a marca da liderança silenciosa, do exemplo pelas atitudes, da dedicação perene. E é isso que vale na vida, afinal.

O privilégio, portanto, foi nosso.

Texto originalmente publicado no site Tribuna do Ceará

 

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Adeus, Neymar

neymar

Chegou a hora, Neymar. Deixar pra trás o passado como você deixa os adversários. Drible os jornalistas que não conseguem mais te perguntar outra coisa que não seja sobre a sua transferência ao Barcelona. Ao Real Madrid. Ao Chelsea. Ao infinito. É quase um cacoete, Neymar. As pessoas esperam mais o  “agora vou embora” do que o seu próximo gol. Então deixe tudo. Os zagueiros do Penapolense, as namoradinhas globais, os microfones apontados como arma. Outros patrocinadores virão, Neymar. Outros barbeadores elétricos, outros talcos para os pés, outras montadoras de carros milionários que você ganhará a cada temporada em solo europeu. Dinheiro não é mais problema. Você deve ir em busca agora da redenção do povo brasileiro. Sim, Neymar. Porque o brasileiro hoje virou a cara para você. Esperam que faça gols de placas sucessivos, que seja o salvador da pátria, o líder dessa seleção brasileira pusilânime. Se marca um golaço contra o XV de Piracicaba, as pessoas enxergam como obrigação. Se perde uma final de campeonato, “viu, eu falei, ele nunca foi tudo isso”. Chega, Neymar. Não é mais necessário provar que você é um ótimo jogador. Esqueça o calendário estúpido, as 72 rodadas de campeonato estadual, os gramados estraçalhados das primeiras rodadas da Copa do Brasil. As pessoas simplesmente não percebem o valor que tem um jogador desse nível atuando por aqui. Lembro, ano passado, você cercado por torcedores-mirins do Grêmio. O retrato fiel de uma idolatria desprovida de rivalidades. Um reflexo natural de um país carente de ídolos esportivos. Mas você não deixa de cobrar esse carinho, Neymar. Quer ser amado por todos e criticado por ninguém. Essa sua ânsia exibicionista também não ajuda. A cada simulação de pênalti ou a cada retoque no moicano, você dá força aos inimigos. As pessoas simplesmente esperam que você jogue bola em um nível cada vez mais inatingível. E isso não é justo. O seu técnico agora espera que você resolva todas as partidas sozinho. Não existe mais o coletivo. É você, Neymar. Você ganha muito mais para isso, Neymar. Vença por nós, Neymar. E naturalmente você está involuindo. O futebol não é um tabuleiro de xadrez. Você precisa de um elenco forte, que também facilite as coisas. Não adianta esbravejar contra o lateral direito que não acerta um passe de 2 metros. Ele foi contratado pelo seu clube que, para mantê-lo por aqui, talvez precise justamente aceitar o lateral direito que não acerta um passe de 2 metros no elenco. O último domingo foi melancólico. Ficou nítido para todos que você não queria, e sim precisava ganhar esse título. Um ato final antes da despedida. Para não deixar dúvidas sobre a sua importância para o Santos. Para ninguém acusá-lo de abandonar o barco na derrota. Você gritou com os companheiros, com os adversários, com o juiz, com a sua própria canela marcada pelas chuteiras do zagueiro intelectual. Você gritou com você mesmo, Neymar. Ao sair de campo, lá surgiram mais um repórter e a pergunta óbvia. E você mentiu, Neymar. Disse que estava feliz onde estava. Não é verdade. Você disfarça bem, mas o seu olhar ao deixar o gramado revelou aquilo que se esconde por trás da opulência do penteado. O mundo te espera. Muito além dos canais da praia de Santos. Mordendo os seus calcanhares como o adversário mais implacável já enfrentado. Chegou a hora. Adeus, Neymar. Adeus.

 

Crédito imagem:  Facebook do Santos F. C.

 

 

 

 

 

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Com o fim dos principais estaduais do país, hora da Série A ser a competição nacional protagonista. Em 2013 será disputada a décima primeira edição da competição no regulamento de pontos corridos. Desde então, apenas uma vez o campeão não foi um time do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Tal façanha tem o Cruzeiro como responsável, em 2003, justamente o primeiro ano da regra nova, já não tão mais nova assim. Depois disso, seis títulos paulistas e três cariocas.

O domínio do eixo não ocorreu por causa dos pontos corridos. Engana-se quem pensa assim. Ele apenas ficou mais evidente em função da sequência atual, já que a soberania é quase total no período. Regredindo dez anos (1993 a 2002) foram oito títulos divididos entre Rio de Janeiro e São Paulo. Regredindo mais dez (1983 a 1992) percebemos mais sete ou oito títulos, depende se você considerar o Sport ou o Flamengo como vencedor em 1987. Então, numa conta rápida, são 24 ou 25 títulos de equipes do Rio de Janeiro ou de São Paulo nos 30 anos mais recentes da primeira divisão do futebol brasileiro, fruto do poder econômico da região que, infelizmente, tende a aumentar.

A edição de 2013 da Série A será uma ótima oportunidade para que um clube quebre essa hegemonia Rio-SP. Dos nove clubes que disputam a competição, cinco estão bem distantes do título: Ponte Preta, Portuguesa, Santos, Flamengo e Vasco. O São Paulo, apesar da folha salarial altíssima, hoje é zebra. Falta alma e ser menos macunaíma, além de um elenco melhor. Parece pronto para a disputa do oitavo lugar. O Botafogo, campeão carioca com folga e muito mérito, é um mistério. O Fluminense, campeão em duas das três mais recentes edições, está entre os postulantes ao título em função do ótimo elenco, mas favorito destacado realmente só o Corinthians, em função de ter um time titular forte, entrosado, reposição numerosa e equilibrada no elenco e comissão técnica competente. Além disso, está fora da Libertadores, atenção única ao Brasileirão, portanto.

Diante deste cenário, aparece o concorrente direto e mais forte. É o Atlético-MG, principal favorito ao título nacional. Antes de começar o campeonato, até mais do que o Corinthians. O motivo é um só: a equipe está jogando bem demais. Mas não é bem de vez em quando. É bem sempre e muitas vezes dando espetáculo porque a fase técnica dos jogadores é especial. Aliado a isso, a composição tática de Cuca deu certo no 4-2-3-1. Jô centralizado; Bernard e Tardelli pelos lados, velozes e trocando de posição; Ronaldinho pelo meio com liberdade e talento; Pierre protegendo a zaga ao lado de Leandro Donizete, bem na saída de bola; Rever e Leonardo Silva precisos e Victor seguro. Restrições aos laterais apenas e, ainda assim, poucas, em função do nível na posição no Brasil ser o pior em muitos anos.

Os outros concorrentes, Cruzeiro, Grêmio e Inter, possuem elencos bons, mas precisam superar dúvidas pertinentes. O interessante futebol do Cruzeiro em Minas vai funcionar contra equipes mais fortes? Quem será o comandante técnico do Grêmio? Dunga está pronto para guiar o Inter e um elenco pouco mudado em relação ao decepcionante Brasileirão 2012? Já os outros sete participantes, Atlético-PR, Bahia, Coritiba, Criciúma, Goiás, Náutico e Vitória, não guardam chances reais de título.

É relevante lembrar que a Série A terá um calendário com muitos problemas e bem mais apertado, com muitas semanas com partidas no meio de semana. A Copa das Confederações vai desfalcar times, interromper o campeonato por quase um mês, de nove de junho a sete de julho. Além disso, já se sabe, o São Paulo vai ter jogos adiados para participar de amistosos na Europa e um jogo oficial, a Copa Suruga, dia 7 de agosto, contra o Kashima Antlers, no Japão.

Outra lembrança fundamental: favoritismo não é sinônimo de sucesso garantido, é apenas sinal de caminho aberto.

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A transformação do Esporte Fino em parceiro da CartaCapital trouxe um volume grande de comentaristas ao blog. Assim, aproveitamos a oportunidade para deixar claro qual é a nossa política de comentários. As regras estão abaixo:

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A decisão do Campeonato Paulista, neste fim de semana, começará a responder uma pergunta importante para o futebol brasileiro: o Corinthians de Tite entrou na fase final de um ciclo vencedor ou a eliminação precoce na Libertadores foi apenas um tropeço normal, que servirá de alerta para o time do Parque São Jorge se manter competitivo, jogando cada vez mais próximo do seu potencial?

Fim do ciclo, para o alvinegro, não significa só se distanciar dos títulos, mas descontinuar o trabalho em curso, que tem como DNA a identidade idealizada e fabricada pelo seu treinador. Desde o título do Campeonato Brasileiro, em 2011, o grupo de Tite tem a mesma cara. Racional, calculista e seguro nas suas atuações. Pouco a ver, portanto, com o estereótipo corintiano, de time mais raçudo do que técnico, mais ligado à emoção do que à razão, mais sofredor do que vencedor. Preservar essa nova identidade, que demora a ser construída e foi central nas conquistas recentes, é o primeiro passo para prolongar o ciclo de vitórias.

Só mesmo com bola de cristal para prever o futuro, mas os secadores, como eu, que não se animem demais com a eliminação recente: todos os alicerces estão montados para que Adenor e companhia preservem o trabalho e continuem por tempo razoável no topo ou perto dele.

O primeiro passo pode ser dado já neste domingo. Confirmar o título Paulista contra o Santos, jogo no qual o clube do Parque São Jorge tem boa dose de favoritismo, será uma forma de restaurar a aura vencedora, renovar o ânimo para o restante da temporada e dirimir os questionamentos naturais na fase pós derrota. Não que o estadual seja uma competição prioritária, mas dar a volta olímpica em cima de um grande rival sempre lava a alma e traz bons ventos. Um bom começo.

Além disso, mesmo que falhe de novo e não seja campeão no domingo, o time entra no Brasileiro com boas perspectivas. Primeiro, pelo estágio maduro da equipe. Tem um elenco consistente, com um esquema de jogo bem definido e, ao contrário do ano passado, terá foco total na competição. Enquanto Atlético-MG e Fluminense devem perder algum tempo de preparação priorizando a Libertadores, os comandados de Tite disputarão o campeonato nacional com preparação adequada desde o início. É claro que outros clubes (como Inter, Grêmio, São Paulo e Cruzeiro) terão a mesma prerrogativa, mas todos esses ainda se encontram um andar abaixo do alvinegro no nível de maturidade da equipe.

Vale lembrar ainda que há uma marca neste Corinthians, que será fundamental nesta tentativa de retomada: a tranquilidade para trabalhar, vinda tanto da diretoria quanto das arquibancadas. Os dirigentes dificilmente vão esquecer a feliz decisão de manter Tite após a traumática eliminação contra o Tolima, em 2011, fato que é quase um marco zero das conquistas de 2012. Isso significa frieza para não desmontar o que vem quase sempre dando certo. E a torcida, aliviada com a “libertação” que veio com os títulos internacionais do ano passado, se mostra muito mais resiliente diante de situações críticas.

O Corinthians teve sua aura vencedora violada na ultima quarta-feira, mas deve continuar a ser uma pedreira no segundo semestre. A derrota aconteceu um pouco por detalhes normais do futebol e um pouco porque o time perdeu o apetite de 2012. Agora, no entanto, o apetite deve ser maior e os detalhes devem influir menos, porque o Brasileirão não tem mata-mata. Num campeonato de pontos corridos, mantendo esse time já maduro e jogando com foco total, tudo leva a crer que o alvinegro vai brigar pelo título do Brasileirão e selar sua volta à Libertadores, mais forte ainda. Para preocupação dos seus eternos rivais, inclusive deste blogueiro.

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Foto: André Uzêda / Twitter

Foto: André Uzêda / Twitter

Um amigo costuma definir sua relação com o time para o qual torce de forma melancólica. Ele diz ser apenas um fã de uma entidade privada, sobre a qual não tem nenhum controle. Assim, afirma, não é possível se importar tanto com os destinos do clube. Felizmente, nem todos os brasileiros compartilham essa visão conformista. Em Salvador, na noite de quarta-feira 15, a torcida do Bahia deixou claro que o fã de futebol no Brasil não precisa ter a característica adorada pelos dirigentes: a passividade que o transforma em massa de manobra.

Ontem à noite, o Bahia tinha um jogo importante pela frente. O tricolor baiano recebia o Luverdense (MT), pela segunda fase da Copa do Brasil e precisava vencer por três gols de diferença para avançar (ganhou por um e acabou eliminado). Sem o apoio da torcida, seria muito difícil. Mesmo assim, os torcedores tricolores resolveram fazer o possível, em nome do clube. Largaram o time do Bahia sozinho diante da equipe mato-grossense – apenas cerca de mil pessoas compareceram à Arena Fonte Nova, incluindo torcedores do Luverdense e do Bahia que receberam ingressos gratuitos. A arquibancada vazia era um recado ao presidente do clube, Marcelo Guimarães Filho: ninguém aguenta mais você.

Acusações contra MGF

MGF, ou Marcelinho, tem 37 anos e pertence a uma dinastia de dirigentes especializada em afundar o Bahia, clube mais tradicional do Nordeste. Sob o comando de Marcelo Guimarães (o pai), o Bahia, campeão brasileiro em 1988, foi parar na terceira divisão do futebol nacional. No comando desde 2008, o filho é acusado pela torcida de usar o clube em benefício próprio.

As denúncias contra MGF se acumulam. Na mais grave delas, enviada à Procuradoria-Geral da República, o presidente do Bahia é acusado de estelionato, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Segundo os autores da notícia-crime, Guimarães montou um esquema para se beneficiar das transações realizadas pelo time principal do Bahia e em suas categorias de base. Ele nega, mas a mesma denúncia deve ser investigada também pela Assembleia Legislativa da Bahia, em uma CPI do Futebol.

A notícia-crime contra MGF foi remetida à procuradoria-geral (que ainda não se manifestou) pois hoje ele desfruta de foro privilegiado. Suplente de deputado federal pelo PMDB, MGF chegou à Câmara em fevereiro, substituindo o João Carlos Bacelar (PR-BA). Segundo o também deputado federal Sandro Mabel (PMDB-GO), MGF só foi à Câmara para ajudar a alçar Eduardo Cunha (PMDB-RJ) à liderança da bancada peemedebista.

Enquanto sofre denúncias e o Bahia é humilhado em campo, MGF trata o torcedor com total descaso. Em janeiro, Guimarães mandou um torcedor “tomar no c…” após este questionar a estranha venda do meia Gabriel para o Flamengo. Em entrevistas, Guimarães costuma desdenhar das preocupações dos torcedores e “garantir” a retomada das vitórias (apesar de todos os fatos indicarem o contrário). A última “boa nova” foi revelada pela Folha de S.Paulo na quarta-feira 15. O Torcedor Oficial do Bahia, programa de fidelidade do clube, foi vendido para as construtoras OAS e Odebrecht, administradoras da Arena Fonte Nova. Os sócios ficaram sabendo da negociação pela imprensa.

A situação vivida pelo Bahia não é exatamente novidade no futebol brasileiro. Talvez todos os grandes times do país tiveram, ou têm, dirigentes incompetentes, que sequestram o clube e contam com um sistema antidemocrático para se perpetuar no poder. A inovação que vem da Bahia é a possibilidade de o torcedor agir para reivindicar aquilo que é seu, o clube de futebol, mesmo sem ter poder de voto. Ao se mobilizar, a torcida do Bahia defende seu patrimônio e ajuda a tentar resgatar o clube do limbo. É um exemplo para o resto do país.

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Trio de ferro, derretido

São Paulo, Palmeiras e Corinthians eliminados da Libertadores nas oitavas de final. Amargura paulistana na competição. Os dois primeiros saíram de maneira incontestável. Ruindade própria, incompetência de diretoria, mérito dos adversários, uma equação perfeita e acabada, com um pouco de drama, é verdade, mas um enredo previsível.

O terceiro não foi por ruindade, mas o time comandado por Tite fez a sua pior partida em muito tempo na ida contra contra o Boca. No Pacaembu uma série de fatores unidos estenderam o tapete da exclusão. Riquelme fez um gol completamente sem querer (Cassio não teve nenhuma responsabilidade), assumido por ele em honesta entrevista após a peleja. O time perdeu chances claras para marcar, como a furada homérica de Pato e também foi incapaz de vencer o bloqueio argentino em boa parte dos minutos dos confrontos.

A arbitragem errou duas vezes, ambas no primeiro tempo, no gol anulado de Romarinho (nada de impedimento) e no pênalti cometido pelo zagueiro Marin que, num ato de coragem e burrice, resolveu dar um tapão na bola dentro da área para evitar o gol de Emerson. Uma sorte tremenda ninguém do trio do apito ter reparado. O resultado é que a partida teve seu placar contaminado, influência direta de erros enormes. É duro quando ocorre, por mais que o Corinthians carregue a responsabilidade de ter jogado muito mal em Buenos Aires. Já os outros dois lances reclamados, com exagero e algum chilique, foram bem resolvidos. Emerson não sofreu empurrão dentro da área no segundo tempo e foi falta clara no goleiro Orion em outro gol anulado do Corinthians.

Apesar de friamente o destino do trio de ferro ter sido o mesmo, o futuro desenhado é bem diferente. O São Paulo amargou sua sexta eliminação seguida da Libertadores para times brasileiros. Tem hoje um elenco incapaz de atuar em igualdade de condições contra pelo menos seis ou sete equipes, um técnico despreparado, mas a soberba de sua diretoria é incapaz de enxergar isso. O Palmeiras enxerga suas limitações, tenta arrumar os muitos erros do passado recente e tem a amarga Série B pela frente. Com ela chega a obrigação de subir, já que, só da TV, vai receber 20 vezes mais cota do que seus concorrentes (70 milhões de reais contra 3 milhões de outros 18 times e mais os 30 milhões do Sport).

Já o Corinthians é um dos favoritos destacados para os títulos da Série A e da Copa do Brasil. Só precisa saber se o excesso de confiança realmente o atingiu porque foi eliminado por um time claramente pior. Em caso positivo, é hora de se livrar disso e aí o horizonte é dos melhores. A serenidade de seus jogadores na derrota e nos comentários sobre a arbitragem é um ótimo sinal. Aliás, foi essa a única manifestação diferente que se viu no Pacaembu porque incentivar o time depois de uma derrota ou brigar fora do estádio, todas as torcidas fazem. Não há novidade nenhuma e nem mérito.

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O Corinthians é o melhor time do Brasil já há algum tempo. O time de Tite anda um bom passo à frente de Atlético-MG e Fluminense, só para citar outras duas forças da atualidade.

Porém, atleticanos e tricolores do Rio estão lá, nas quartas de final da Libertadores, enquanto os corintianos deixaram ir por terra o sonho do bicampeonato. No cenário paulista, apesar de atualmente olharem palmeirenses e são-paulinos lá de cima, os corintianos hoje choram juntos com os rivais a eliminação precoce.

Por que o Corinthians se nivelou por baixo? Acomodação após as glórias de 2012 e uma certa soberba (“posso resolver na hora que quiser”) são pistas mais óbvias. Resta saber se elas explicam tudo.

O primeiro termômetro será a final do Paulistão, domingo, contra o Santos. Se além de confirmar o título o Corinthians mostrar alguma vibração, terá dado enorme passo para afastar as nuvens da dúvida quanto ao que virá pela frente. Se a pasmaceira continuar e a taça escapar frente a Neymar e cia., Tite vai precisar fechar a lojinha por alguns dias e repensar algumas de suas decisões para a temporada.

Que o inexplicável lance de Alexandre Pato frente ao gol vazio não passe a simbolizar um time que tinha tudo para repetir um ano glorioso e conseguiu a proeza de desarmar a si próprio.

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