Minha primeira lembrança do esporte é a Copa de 1982. Eu tinha 5 anos, mas me lembro um pouco dos jogos contra a Nova Zelândia, contra a União Soviética e (aquele) contra a Itália. E Luciano do Valle era a voz da TV Globo, foi ele quem narrou a Tragédia do Sarriá.

Luciano me “inventou” como jornalista esportivo. Porque, antes disso, me deu a chance de amar o esporte. Narrou corridas de Fórmula 1 em mil novecentos e Nelson Piquet na Brabham e “criou” o vôlei brasileiro – incluindo a ideia e organização de um inacreditável Brasil x União Soviética no Maracanã.

Quando Emerson Fittipaldi foi para os EUA, Luciano “decidiu” que o Brasil ia conhecer a Fórmula Indy. Conheceu, gostou e até hoje a categoria está na TV. Luciano criou o Show do Esporte. Quando a TV por assinatura não existia no Brasil, um canal – a Bandeirantes – passou a transmitir apenas esporte durante todo o domingo. E vimos o Campeonato Italiano com os inesquecíveis duelos de Napoli x Milan e conhecemos Rui Chapéu e Roberto Carlos, reis da sinuca. Foi técnico da seleção brasileira de masters. Criou uma Copa do Mundo dos velhinhos.

Foi narrado por Luciano do Valle o primeiro jogo de futebol americano que vi na vida. Em setembro de 2013, no Bola da Vez, da ESPN, falou sobre a investida no esporte. Celebrava 50 anos de carreira.

Nos últimos anos, é preciso ser honesto, nos divertimos bastante com as gafes de Luciano. Quando estava na Record, em 2003, se enrolou durante um jogo da segunda divisão do Campeonato Brasileiro que até hoje o Esporte Fino usa no Twitter como um bordão. “Ah, como é gostoooooosa a Série B! Quer dizer, menos para os torcedores dos times que estão na Série B”. Costumava trocar nomes de pilotos na Indy, se enrolava para falar Ryan Hunter-Reay. Chamou Justin Wilson de George Wilson.

Luciano morreu hoje, aos 70 anos, enquanto viajava para narrar Atlético-MG x Corinthians, abertura do Campeonato Brasileiro. Com ele tenho uma dívida que jamais poderei pagar. E tenho certeza que ele jamais pensaria em cobrar. Como eu, muitos outros teriam de pagar. E não há dinheiro que pague o que Luciano fez por mim.

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Wanderlei Silva deu um tiro no próprio pé

Desde o último domingo, o assunto da semana no mundo do MMA (ao menos aqui no Brasil) foi a briga entre Wanderlei Silva e Chael Sonnen no reality show The Ultimate Fighter Brasil. E olha que já teve um evento na quarta-feira, com 13 lutas, e neste sábado tem outro, com Fabrício Werdum enfrentando Travis Browne pela chance de disputar o cinturão dos pesados.

O Esporte Fino tinha avisado que a rivalidade entre o brasileiro e o norte-americano era a maior aposta do programa para recuperar audiência e ganhar novos espectadores. Desde o início da temporada, a edição alertava que haveria um grande desentendimento entre os treinadores, e Dana White garantia que a rivalidade entre eles era verdadeira – até exagerando ao chamá-la de “provavelmente, a maior da história do UFC, e até do esporte”.

Porém, o que se viu (confira no vídeo acima) não foi apenas uma discussão no meio da academia do TUF: os dois lutadores se atacaram com violência, no chão, contrariando o respeito que o MMA adquiriu nos últimos anos, e praticamente se envolvendo em uma briga de rua, com direito até ao treinador assistente de Wanderlei, André Dida, atacando Sonnen pelas costas e exibindo sua camisa como prêmio.

Quem saiu como perdedor moral foi Wanderlei Silva. Pelas imagens, é possível ver que Sonnen tem sua parcela de culpa, por ter dado o primeiro empurrão, mas foi também quem mais tentou evitar a briga, enquanto Wand ficou atiçando o adversário. Depois que a briga foi separada, um dos envolvidos pediu calma e disse ao brasileiro que aquilo não valia a pena. “Claro que vale. Vale, vale, vale…”, garantiu. A atitude foi reprovada por muitos fãs brasileiros e vários decidiram que agora vão torcer pelo norte-americano.

Apesar de ter um histórico de provocações e xingamentos a brasileiros, Sonnen na verdade é um marketeiro profissional, que interpreta um personagem para vender (e muito bem) suas lutas. Não é difícil encontrar exemplos que mostram o outro lado dele (você pode conhecer dez deles aqui), que já ficou aparente na 17ª temporada do TUF nos Estados Unidos, e que pode atrair os brasileiros com o TUF Brasil 3, especialmente depois do episódio com Wanderlei Silva.

Durante a semana, Dana White chamou a briga de “uma exibição nojenta do que não deveria ocorrer”, e ainda revelou que foi ela que causou o adiamento do combate entre os dois, originalmente marcado para 31 de maio, em São Paulo, e transferido para 5 de julho. Wanderlei machucou as costas, ao ser derrubado no concreto, e a mão, por ter socado Sonnen.

O brasileiro já pediu desculpas pela má impressão causada pela briga, garantiu que não é a favor da violência e prometeu um vídeo explicando o contexto que o levou a agir daquela forma. Porém, tudo indica que o dano já está feito.

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“Sem saber que era impossível, foi lá e fez”.

Desafiou a lógica e construiu, linha por linha, uma das mais belas histórias que este País já viu.

Após vencer uma pneumonia dupla aos 10 anos, deu as primeiras braçadas nas águas ainda límpidas do Tietê. Na falta de piscinas, aprendeu a nadar do jeito mais insólito possível: presa à margem do rio por um anzol fincado no maiô e uma vara de pescar, empunhada pelo pai e instrutor.

Aos 17 anos, tornou-se, em 1932, a primeira sul-americana a disputar os Jogos Olímpicos. Com a inexperiência de quem até então só havia disputado competições no Tietê, além de um interestadual, enfrentou as melhores do mundo de igual para igual.

Quatro anos depois, a caminho de Berlim, realizou sua preparação no convés, amarrada a um tanque que não permitia mais de duas braçadas. No início da década de 1940, quando vivia seu auge, viu a Segunda Guerra Mundial provocar o cancelamento das Olimpíadas e afastar o sonho da medalha.

Deixou seu nome nos livros, sagrando-se a única sul-americana a bater recordes mundiais na natação.

Também fez história ao ser a primeira mulher a nadar borboleta, que aprendeu despretensiosamente, folheando uma revista alemã.

Em terras brasileiras, foi idolatrada, copiada e achincalhada. Foi excomungada por um bispo, que não aceitava os trajes de banho usados em competição.

Nadou até os 92 anos.

Em 16 de abril de 2007, há exatos 7 anos, a morte de Maria Lenk encerrou uma das histórias mais improváveis e belas da história do esporte brasileiro.

Deixou a vida, deixou saudade e deixou legado, essa palavra que anda tão mal tratada, no momento em que o esporte nacional mais precisa dela.

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A CBF e a Lenda do Pégaso*

Crédito: Rafael Ribeiro / CBF

Crédito: Rafael Ribeiro / CBF

Era uma vez, vejam vocês, um campeonato feio
Que não sabia o que era, um tal de Brasileiro
A CBF vivia, vivia a sonhar em ser o que não era
Frustrando, frustrando a plateia, até que surgiu o Icasa

Sonhava ser uma Premier League porque ela é linda e todo mundo gosta
E naquela de pretensão queria ser um Espanholão
E quando estava feliz, feliz, com a decisão do juiz
E vejam, então, que vergonha quando surgiu a liminar da Segundona

E com a vontade intacta sonhava em enterrar a pobre Lusa
E num instante leviano queria agora ser um Campeonato Italiano
E foi aquele, aquele ti-ti-ti quando a notícia chegou à Granja Comary
Por isso lhe puxaram o tapete e caiu até o advogado

Sonhava com a arena de ouro, a da empreiteira, e ficava triste
Tão triste assim que percebeu que o título ficou com o humilde de Itu
E quando queria causar tumulto então revirava as atas do morto
E até hoje ainda se discute se a Taça das Bolinhas virou abutre

E quando já estava querendo aquela paz dos marajás
Apelou para os tribunais, do STJD, que não falha jamais.
E ao sentir a falta de apoio à seleção canarinho
A CBF decidiu entregar o trono ao astuto Del Nero.

Aí então Deus chegou e disse: cancele o campeonato
Cancele antes mesmo da Copa e assuma tantas falhas
Deus disse ainda: acabou o angu, e o campeonato feio
Virou um cavalo voador, sobrou outra vez para o torcedor

Pégaso, Pégaso, Pégaso, Pégaso, Pégaso, Pégaso…

“Paródia da música “Lenda do Pégaso”, de Morais Moreira e Jorge Mautner.

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Você vai virar fã de beisebol

MLB 14 The Show: o realismo do jogo atrai até quem não é fã de beisebal (Crédito:  Divulgação)

MLB 14 The Show: o realismo do jogo atrai até quem não é fã de beisebal (Crédito: Divulgação)

Dá para entender a rejeição de muita gente aqui no Brasil pelo beisebol. O jogo tem um ritmo próprio, não é dos mais fáceis de entender, não são muitas as partidas exibidas na TV fechada. É difícil para um fã de um esporte relativamente simples, como o futebol, compreender o que é uma imaginária zona de strike e por que diabos um time precisa jogar 162 partidas antes de chegar aos playoffs. Eu mesmo só passei a gostar de beisebol de verdade depois de ver um jogo em Boston, mas tudo bem, beisebol não é para todo mundo.

Peraí, a frase precisa de um ajuste. Beisebol de verdade, com luva e taco na mão, não é para todo mundo. No videogame, beisebol é para qualquer um, para todo mundo, sim. Especialmente se você tiver nas mãos (ou no HD) uma cópia de MLB 14 The Show, a última edição do melhor game da modalidade, cortesia de SCE Studios. É um jogão, altamente personalizável, que qualquer um pode passar horas e horas jogando. Sim, qualquer um. Ninguém precisa saber de cara o que são RBIs, ERAs e sacrifice flys. Aprende-se com o tempo (e minha experiência com games de beisebol é quase zero, por isso imagino que sirva de parâmetro para muitos).

Ao ligar o Playstation, MLB 14 The Show assusta na quantidade de opções. Você pode usar pelo menos cinco ajustes prontos (analógicos ou não) diferentes para controlar o jogo, tanto rebatendo quanto arremessando. O mesmo vale para a trilha sonora. O game não é nenhum FIFA na quantidade de músicas, mas você pode fazer sua playlist e copiá-la para o HD do Playstation, que o game carrega e coloca suas canções. Melhor do que isso: se você tiver um microfone com entrada USB, pode gravar na hora gritos para torcedores. Até turma do FIFA pode aproveitar aquele “ei, juiz, vai…” que circula em uns fóruns da vida. Mas não para por aí. O game tem um editor próprio, onde você pode marcar trechos específicos que quer ouvir. Seu rebatedor está entrando em campo e você acha bacana a intro de Sweet Child O’ Mine? Põe lá. Prefere a poesia de “Vem Ni Mim Dodge Ram”? Vá lá e corte o trecho em que a letra diz “quem não tem dinheiro é primo primeiro de um cachorro”. Tudo é questão de gosto.

Road To The Show

“The Show” é como os “boleiros” do beisebol se referem à Major League Baseball (MLB), a principal liga de beisebol mundial. Logo, Road To The Show, ou RTTS, é o “modo carreira” do game. E que modo fantástico! A criação do atleta já é, por si só, um processo gratificante. As opções são tantas, desde o formato da bochecha até a cor da sola da chuteira, que o usuário pode levar mais de uma hora para criar seu personagem. E isso inclui mais de mil nomes pronunciados pelos narradores – o que me levou a batizar meu jogador de Alejandro Cosentino – um obeso que joga na primeira base -, o que faz todo sentido do mundo dada a influência latino-americana na MLB de hoje.

A carreira começa com três exibições. Você tem esses três jogos para impressionar os olheiros antes de entrar no draft.  Era minha primeira vez com o controle, e Alejandro Cosentino fez uma boa apresentação só no segundo jogo. O resultado? Fui escolhido pelo Houston Astros na quinta rodada do draft e mandado para o minúsculo Corpus Christi Hooks, da AA, espécie de terceira divisão do beisebol profissional. Quem não ficar satisfeito com o draft tem a opção de voltar para a faculdade por um período de um a quatro anos. Você não joga a liga universitária, mas adquire pontos de treinamento e evolui em certas características. Depois, volta às as exibições e tenta outro draft.

Mas se Michael Jordan andou de ônibus com o Birmingham Barons, quem sou eu para dizer não ao Corpus Christi Hooks? Assinei com o time e, falando em MJ, mal cheguei, já perdi meu número 23, que pertencia a um dos pitchers. Ganhei e abracei o 26. Com ele, fiz um home run logo na segunda partida da temporada, diante do Tulsa Drillers (importante: todos esses times existem e estão licenciados!). Fui eleito o melhor do jogo e ganhei status de promessa. Logo descobri que não seria fácil assim. Sofri uma lesão no tornozelo na primeira semana (quem mandou ser gordo?) e fiquei um mês longe dos campos. Demorei a recuperar ritmo no retorno, mas já me estabeleci como titular e mantenho uma média de rebatidas acima de .300. Está ótimo. O game atualiza meu status sempre e, por enquanto, sou visto como “future big leaguer”. Está bom o bastante.

Alejandro Cosentino:  a promessa do Corpus Christi Hooks (Crédito Divulgação)

Alejandro Cosentino: a promessa do Corpus Christi Hooks (Crédito Divulgação)

Ainda não terminei a temporada, mas já pude ver muito do que o recém-lancado (chegou às lojas em 1º de abril) MLB 14 The Show tem a oferecer. Gráficos fantásticos – de jogadores e dos muitos estádios -, som personalizável ao extremo, ótima narração (tem closed caption para quem gosta) e controles bem resolvidos. No fim das contas, é um excelente retrato do beisebol e, claro, da Major League. Mesmo para quem não gosta de ver pela TV, vale experimentar e correr o risco de ficar algumas dezenas de horas sem conseguir desligar o console.

Intervalo do sétimo inning (para você ler enquanto ouve Sweet Caroline):

- Vale registrar: MLB 14 The Show é um dos games de esporte – talvez o melhor – a usar o recurso 3D. É claro que o campo de beisebol naturalmente ajuda na noção de profundidade, mas é bom ver que o recurso é bem utilizado. E a coisa é tão bem afinada que o game ainda permite ao usuário escolher a intensidade do efeito 3D.

- Sim, é necessário ter uma TV 3D e óculos especiais para jogar em 3D. E não, ninguém é obrigado a jogar em 3D. Aliás, você pode simplesmente ativar o 3D em um dos muitos menus de MLB 14 The Show e nunca mais mexer lá. O game vai reconhecer o formato da sua TV e se adaptar de acordo com a sua preferência.

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O Galo conquista o segundo título estadual de sua história (Crédito da imagem: Facebook Ituano Futebol Clube)

O Galo conquista o segundo título estadual de sua história (Crédito da imagem: Facebook Ituano Futebol Clube)

“Os Deuses do Futebol estão lá em cima e saberão conduzir bem o comportamento de cada um quando a bola rolar no futuro. Vamos esperar o que eles farão”. A declaração irônica de Mano Menezes não era endereçada ao Ituano, e sim ao São Paulo, que supostamente teria facilitado a vitória do clube do interior para prejudicar o Corinthians na fase de classificação.

Eu acredito no Jesus do Futebol. Foi justamente o tema do meu primeiro texto aqui no Esporte Fino. E se houve alguma intervenção divina nesse domingo, ficou claro o destinatário. O Ituano fez um ótimo Campeonato Paulista. Ficou em segundo na fase de classificação no grupo mais difícil. Para ser uma ideia, o último colocado desse grupo, o XV de Piracicaba, fez 19 pontos, a mesma marca que garantiu a Penapolense entre os classificados do grupo A.

As vitórias contra Botafogo e Palmeiras fora de casa não mostraram brilho, mas um empenho absurdo de um elenco que marca demais e ficou 5 partidas sem tomar um gol – da rodada 14 até os 45 minutos do primeiro tempo da finalíssima, quando Cícero converteu a penalidade. Jogou as duas partidas da final contra o Santos de igual para igual. Ou melhor, levemente superior ao adversário. Um ou outro nervosismo, mas sem adotar a postura de azarão.

O título do Ituano não representa a força do interior nem a decadência dos clubes da capital. Foi apenas um Campeonato Paulista e não serve para carimbar qualquer novo cenário. Mas a façanha é enorme, entrando para uma minúscula lista formada por Inter de Limeira (1986), Bragantino (1990) e São Caetano (2004). Só esses conseguiram levantar a taça estadual no lugar dos ditos grandes. O título de 2002, do mesmo Ituano, conta para a história do clube, mas foi conquistado sem a presença de Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Santos.

Grandioso. E não cabe a discussão sobre regulamento. Se todos os clubes aceitam e assinam as invencionices da Federação Paulista de Futebol, a reclamação do técnico Oswaldo de Oliveira ao final da partida soa, sim, como choro de mau perdedor. Acha injusto? Então reclame com o seu presidente, que sempre está mais preocupado com as cotas de TV do que com a qualidade do torneio que disputa.

Seis mil pessoas invadiram o estádio Novelli Júnior para receber os campeões paulistas. As emissoras de TV flagraram a euforia dos torcedores. Provavelmente, jamais imaginaram que esse dia fosse possível. A câmera foca então em um senhor aparentando uns 70 anos. Ele veste uma faixa “ITUANO CAMPEÃO” e não disfarça os olhos marejados.  Para aquele senhor, não existe argumento que justifique o fim dos estaduais. Ainda mais depois do dia 13 de abril de 2014, quando os Deuses do Futebol decidiram puxar o “erre” e permitir que um novo campeão arrebentasse a porteira.

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A segunda edição do podcast Esporte Fino, uma parceria do blog com a Central3 está no ar. Bruno Winckler, Fabio Chiorino e Rodrigo Borges falam com o jornalista Marcelo Laguna, especialista em esportes olímpicos, sobre a intervenção do Comitê Olímpico Internacional na organização das Olimpíadas do Rio. Também estão na pauta a boa campanha dos times de Liverpool e o esporte de Seattle na era Kurt Cobain. A apresentação é de Paulo Jr.

O podcast Esporte Fino vai ao ar ao vivo todas as quintas-feiras, às 21h. Você pode participar mandando perguntas e comentários pelo Twitter @BlogEsporteFino ou @Centraltres.

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Por que acompanhar o Troféu Maria Lenk

Katinka Hosszu, a maior atração do Maria Lenk 2014. (Foto: Wikimedia Commons )

Katinka Hosszu, a maior atração do Maria Lenk 2014. (Foto: Wikimedia Commons )

Embora o calendário da natação brasileira jamais tenha sido perfeito e adequado às necessidades dos atletas de ponta do país, o principal campeonato nacional sempre atrai atenção dos clubes – que evidentemente vivem da disputa pela melhor pontuação – mas também dos atletas. Além da necessidade de usar os torneios absolutos para buscar índices para as principais competições internacionais, é o melhor teste que encontram à menor distância durante sua preparação.

A edição deste ano está especialmente interessante. E a cereja do bolo foi anunciada nesta semana: uma ilustríssima presença estrangeira para cair na piscina do Ibirapuera, em São Paulo, entre os dias 21 e 26 de abril.

Veja alguns motivos que agregam valor ao Troféu Maria Lenk 2014:

1) O retorno ao Ibirapuera: depois de 14 anos, o maior torneio absoluto de natação do Brasil retorna ao principal complexo aquático da cidade de São Paulo. Foi uma longa (e cara) reforma, iniciada em 2010 no Caio Pompeu de Toledo, que foi concluída pelo governo estadual apenas no fim de 2013. A capital paulista não tinha condições de sediar o torneio há bastante tempo, sem um local adequado para receber um evento deste porte.

2) Maratonas Aquáticas: No auge incontestável das maratonas aquáticas no Brasil, o Maria Lenk terá pela primeira vez a modalidade em disputa. Ainda não valerão pontos para os clubes, mas os três primeiros colocados serão premiados. As provas acontecerão na Raia Olímpica da USP.

3) Seletiva: A principal competição da natação brasileira vai ser seletiva para o Pan Pacífico e para os Jogos Olímpicos da Juventude, que são o foco dos atletas de ponta para o calendário internacional de 2014, relativamente esvaziado em um ano sem Olimpíadas e Mundial.

4) Disputa entre os clubes: Se o Pinheiros e o Flamengo são os maiores vencedores da história do Troféu, com 13 títulos cada, o abandono dos “figurões” da natação do clube paulista nos últimos anos, e o fracasso do clube carioca em manter uma equipe competitiva sem apelar para o nome de César Cielo, acarretaram no crescimento e, enfim, nas vitórias dos concorrentes. O investimento do Minas Tênis Clube não era pequeno, e foi coroado com a contratação inesperada do tricampeão mundial César Cielo. O bicampeonato se torna um projeto bastante real para a equipe mineira.

5) Cielo: um capítulo à parte. Na última edição, o nadador mais rápido do mundo vivia uma situação inusitada, com o fim do seu projeto, sem clube, e sem salários. Acabou se filiando a uma equipe do interior para poder disputar o Maria Lenk, muito longe do seu ideal. No início deste ano, antes de trocar outra vez de treinador, fez seu primeiro teste nos Estados Unidos e colocou suas marcas de 50m e 100m livre outra vez entre os melhores do mundo.

6) Seleção feminina: A dez dias do Maria Lenk, a natação feminina, representada em peso pela equipe feminina do SESI-SP, está em Eindhoven disputando uma competição de alto nível, e com resultados interessantes para as duas principais representantes do Brasil na atualidade: Daynara de Paula, nas provas de borboleta, e Etiene Medeiros, que vem surpreendendo não só no seu estilo, o nado de costas, como também nas provas de velocidade de livre e de borboleta.

7) Estrangeiros: Historicamente, a presença de estrangeiros provoca controvérsia nas competições absolutas de natação no Brasil. Alguns alegam que o pagamento para que nadadores de fora disputem os torneios daqui desestimula o investimento na natação nacional. Grande bobagem, a meu ver. Aumenta, sim, a concorrência e o nível da competição. Falta aos brasileiros um pouco mais de convívio com os seus rivais diretos de torneios internacionais. E o nível da edição de 2014 do Maria Lenk estará muito acima da média. A holandesa Inge Dekker nadará outra vez pelo Minas, e fez em Eindnhoven, nesta semana, a sua melhor marca em duas temporadas: 24”73 nos 50m livre. Ela não nadava abaixo dos 25 segundos desde 2012, concorrência de primeira para as velocistas brasileiras Graciele Hermann e Alessandra Marchioro. Nos 100m borboleta, a holandesa ainda bateu Jeanette Ottesen, dinamarquesa que nadará o Maria Lenk pelo Corinthians. A outra holandesa que nadará pelo Minas, Femke Heemskerk, venceu os 200 medley com o segundo melhor tempo do mundo na prova em 2014. O Pinheiros, no entanto, vem com a estratégia “anti-estrangeira”: terá em seu grupo somente nadadores brasileiros. Por regulamento, cada equipe pode contar com até dois estrangeiros, que disputam no máximo quatro provas.

8) Katinka Hosszu: por fim, porém como maior atração desta edição, a húngara tem presença confirmada. O Corinthians, tão tradicional nas categorias de base, mas que sempre derrapa nas disputas da categoria absoluta de natação, acrescenta um nome campeão mundial à sua lista de nadadores para esta disputa. A Dama de Ferro, dona do mundo nos 200m e 400m medley, vem pela primeira vez ao Brasil, e com enormes chances de bater suas melhores marcas da temporada. Katinka virá em fase de polimento – o período de descanso e treinos leves que antecede as grandes competições, escolhidas a dedo na natação –, algo que ela não conhece desde o Mundial de Barcelona, em agosto do ano passado. A incansável atleta tem no currículo seis medalhas em campeonatos mundiais de longa, sendo três de ouro, mais cinco nos mundiais de curta, sendo duas de primeiro lugar. A Rainha da Copa do Mundo em 2012 e 2013 também é a atual recordista mundial nas provas de 100, 200 e 400 medley em piscina curta, e engrossa a lista de atletas corintianos para o Maria Lenk, ao lado de Leonardo de Deus e Felipe França.

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Por Ubiratan Leal*

Você dificilmente vibra pela seleção de seu país como vibra pelo seu clube. É assim no mundo todo. A seleção cai no seu colo, você não tem muita escolha. Quer dizer, até há os que deixam sua nação de lado e torçam por alguma estrangeira. Não há problema algum nisso, mas é uma minoria. O clube não. O clube é seu. Você escolhe. É um fator de identificação diante de colegas de escola e de trabalho. Você é Corinthians, o seu amigo é Palmeiras. Você é Grêmio, seu colega ao lado é Inter. Você é Cruzeiro, seu vizinho é Atlético. Então, a glória do seu clube é a glória que fugiu de alguém que está ao seu lado e obviamente se transformará em alvo de brincadeiras.

Não tem comparação. E, por isso, muita gente já dá de ombros aos torneios de seleção, acha que eles estão moribundos, ainda mais em um mundo globalizado que derruba fronteiras. Não, não é isso. Não é esse o “papel social” das competições com equipes nacionais.

Por mais que o mundo se misture, a identificação étnica/nacional ainda é importante. Aliás, talvez se torne ainda mais importante. Em um universo em que pessoas de todas as origens estão juntas, valorizar a sua cultura é uma forma de se diferenciar do sujeito ao lado. Basta ver como, nos Estados Unidos, o 5 de Maio ainda é celebrado pelos mexicanos e o Dia de São Patrício pelos irlandeses, ainda que até seus bisavós sejam norte-americanos de nascimento.

Por representarem áreas geográficas, as seleções colocam todo o planeta dentro da Copa em patamar supostamente de igualdade. O dinheiro ajuda a encontrar e desenvolver o talento, mas é só um elemento a mais, tanto quanto a difusão do esporte por esse país. Tradição conta, óbvio, mas uma seleção forte depende basicamente de trabalho competente e um grupo de bons jogadores nascidos em determinado lugar. E ninguém aqui vai me dizer que um determinado povo é geneticamente mais apto para praticar o futebol que outro. Tinha um sujeito que pensava esse tipo de coisa, usava um bigode meio estranho, governou a Alemanha na década de 1930 e, ainda bem, não está mais entre nós.

No universo clubístico, o poder econômico pauta que nível de jogador vestirá cada camisa, e torcedores de certas equipes sabem que jamais encararão uma potência. Um torcedor do Ajax ou do Olympique de Marseille sabe que a única forma realista de sonhar com um título continental ou mundial, hoje, é por meio de suas seleções. A não ser que apareça algum zilionário árabe a fim de jogar uma versão mais realista (e cara) do Football Manager.

Essa que é a democracia da Copa do Mundo. Ainda que a lista de campeões seja reduzida, vários países de diversos níveis de desenvolvimento social, econômico ou futebolístico já conseguiram pequenos grandes momentos. E a chance de ver isso acontecer toca a qualquer torcedor, do inglês ao chinês, do mexicano ao congolês. Algo que nem a Liga dos Campeões consegue. Tanto que essa história de “eu torço contra a seleção do meu país” pode até fazer parte de nosso dia a dia brasileiro, mas é bem menos comum no resto do mundo. As pessoas ainda torcem, e muito, pelos times nacionais.

Isso reforça a posição do futebol como grande esporte global. Não à toa, enquanto você pode estar pensando que as seleções nacionais estão morrendo, a NBA se une à Fiba para dar uma revitalizada no Mundial de Basquete. Não à toa, o rúgbi e o vôlei organizaram todo seus calendários em torno das seleções. Não à toa, o beisebol criou um Mundial que reúne os jogadores profissionais que atuam nos Estados Unidos e Japão. Não à toa, o críquete tem investido muito para projetar sua Copa do Mundo.

Todos esses esportes sonham em ter o que o futebol tem: uma grande competição de seleções, que faça o torcedor de qualquer rincão do mundo se sentir incluído de alguma forma. E, por incluir o planeta de alguma forma, seus jogos são mais vistos do que o de qualquer outro torneio, e as façanhas nela realizadas ganham amplitude histórica muito maior. E assim continuará sendo. Talvez menos do que nos anos 70, mas continuará.

Ainda bem. Porque, se não há lugar para a Copa no mundo de hoje, pior para o mundo de hoje.

* Ubiratan Leal é editor dos sites Trivela e Extratime e comentarista de futebol e beisebol na ESPN. Ganha um salário só por tudo isso, mas gosta do que faz.

 O Esporte Fino publica às sextas-feiras posts sobre Copa do Mundo. A série vai até dia 13 de julho, data da final do Mundial, e será ampliada durante o torneio.

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Em um ponto precisamos concordar. Em mais de 50 anos de Copa Libertadores, o Brasil nunca foi tão hegemônico no torneio. Os últimos quatro campeões foram Internacional, Santos, Corinthians e Atlético-MG. Desde 2000, só em dois anos (2001 e 2004) nenhum time do país fez a final. Nos últimos 22 anos os clubes do país conquistaram 12 de seus 17 títulos. E ainda assim, a cada edição recente da competição, o catastrofismo impera nas análises dos clubes brasileiros na disputa.

Georges Cuvier, naturalista do século XIX que desenvolveu o conceito do catatrofismo para explicar a extinção de espécies, não concordaria com o emprego do termo aqui, mas o “a crise do futebol brasileiro” é tema de todas mesas redondas após vexames de times do país na Libertadores como o desta semana.

Gilvan de Souza/Fla Imagem

Alecsandro fez um dos gols do Flamengo na derrota por 3 a 2 para León no Maracanã (Gilvan de Souza/Fla Imagem)

É claro, que evidenciada a diferença de arrecadação e de capacidade de investimento dos clubes brasileiros perante seus vizinhos, era de se esperar uma maior tranquilidade dos times daqui na Libertadores. Nesta edição, três dos seis times do país estão eliminados na primeira fase. Um recorde protagonizado por Atlético-PR, Botafogo e Flamengo.

Mas o “vexame brasileiro” na Libertadores é exclusivo desses clubes. É uma muleta clássica dos analistas de plantão alardear para uma crise do “futebol brasileiro” quando o fracasso é tão somente da gestão dos clubes. Como dito anteriormente, apesar do “feito” de Flamengo e Atlético-PR de serem eliminados por equipes da Bolívia (país sem nenhum título no torneio), o Brasil continua muito bem representado na competição.

A tendência é que Atlético-MG, Cruzeiro e Grêmio repitam a regra consolidada neste século e cheguem longe. Até em 2011, ano da famosa “Quarta-Feira das Trevas para o futebol brasileiro”, teve um time brasileiro campeão. O Santos foi o único time do país nas quartas de final daquele ano e acabou com o título.

O que não faltou naquela ocasião foi coveiro para enterrar o “futebol brasileiro” quando Cruzeiro, Fluminense, Grêmio e Inter deram adeus ao torneio nas oitavas. Os mesmos que agora decretam nova morte do nosso ludopédio. Não é bem assim. Nem mesmo a incompetência dos dirigentes brasileiros em converter em campo o domínio econômico é capaz de tirar o protagonismo do Brasil na Libertadores dos nossos tempos. Generalizar o fracasso é um erro.

Em 2014 tal incompetência é maior, mas não muda o favoritismo do país. Números do Futdados mostram que desde 2000, esta temporada apresenta o segundo pior aproveitamento de brasileiros contra times estrangeiros: 50,3%. O pior foi em 2002, quando mesmo com apenas 45,8% dos pontos conquistados contra times de fora do país a final teve um brasileiro, o São Caetano. Tanto em 2002 como em 2014 os brasileiros perderam 11 vezes na fase de grupos.

Tratar como catástrofe para o futebol brasileiro algumas derrotas dentro de um cenário que há 20 anos é totalmente favorável aos clubes do país não parece muito inteligente. Nisso Cuvier concordaria, tenho certeza.

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