Do fundo do baú para junho, 2010

Obelix

Oito dias após serem eliminados da Copa do Mundo, os franceses ainda dão vexame.

Primeiro vamos aos fatos. A França é hoje um país turbulento em diversos setores. O “colchão social” que históricamente reconforta seus cidadãos (em especial os brancos, não os descendentes de imigrantes) está cada vez mais murcho.

Para amenizar os efeitos da crise econômica, o governo Sarkozy tenta, por exemplo, alterar as regras da Previdência Social. E dá-lhe greves, protestos.

No outro lado da moeda, imigrantes e filhos de cidadãos nascidos em colônias da África ou do Caribe já não aguentam mais viver à margem da sociedade, vítimas do preconceito.

Só para se ter uma ideia, durante a Copa marfinenses chegaram a iniciar uma briga com franceses em Paris porque comemoraram um fiasco da França.

Após a eliminação da Argélia, centenas de jovens argelinos (ou filhos de) provocaram confusão e quebra-quebra nos subúrbios.

Há ainda a corrupção. Diversos setores do governo (e do empresariado) frequentam as páginas dos jornais tentando explicar (ou se desculpar de) escorregões éticos.

Em meio a tudo isso, eis que a Assembleia Nacional perde tempo ouvindo – a portas fechadas – o mala do ex-técnico Raymond Domenech e o inoperante ex-presidente da Federação Francesa, Jean-Pierre Escalettes. É claro que não deu e nem vai dar em nada.

Político não tem de perder tempo com isso. Parece até aquele triste e folclórico episódio da CPI da Nike, em Brasília, quando um deputado perguntou a Ronaldo, em Brasília, por que Zidane não foi bem marcado na final da Copa de 1998.

A França tem jogadores e recursos para montar outra grande seleção.

Mas, a continuar como está, veremos o próprio Obelix (na imagem acima, com o cachorrinho Ideiafix) batendo no capacete e lamentando ao amigo Asterix: “Toc, toc, toc… Esses franceses são mesmo uns loucos…”

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Landon Donovan é um estranho em seu próprio país. O que se espera de um atleta nos EUA é que ele saiba usar um taco, ou arremessar uma bola laranja, ou seja habilidoso com uma bola oval, ou corra 100 metros em menos de 10 segundos ou nade 100 metros em menos de 47 segundos.

Donovan não faz nada disso. Ele sabe chutar uma bola. Redonda. Portanto não serve para ser kicker do New York Giants ou do Dallas Cowboys. Destaque da seleção americana, o bom meia é a prova de que o futebol ainda será importante no país, para desespero dos malas reacionários da Fox News.

O futebol, como já foi dito aqui, representa um lado simpático dos EUA, com o qual podemos nos identificar. Não são os EUA da supremacia militar, que mete o nariz onde não é chamado, que quer tomar conta do planeta. A seleção americana de futebol é a intrusa em uma festa que não foi feita para seu hino, sua bandeira ou seus atletas. E, por mostrar um lado humilde americano, é tão simpática.

E Donovan representa bem o futebol dos EUA. Aos 28 anos, tem boa imagem e virou quase um embaixador da modalidade no país. Na noite de terça-feira foi ao programa de David Letterman para explicar um pouco do “soccer” ao apresentador e a milhões de americanos. Que tenha sorte e paciência, o grande Landon. Sua batalha é árdua, mas será bem-sucedida.

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Bruxa! É uma bruxa! Fogueira! Queimem! Queimem!

Bastou Portugal ser eliminado da Copa para o quinhão preguiçoso e imediatista da imprensa esportiva (e da opinião pública) eleger Cristiano Ronaldo o mais novo pária do futebol mundial.

Quem mandou ser bonitão, milionário e desejado por milhares de mulheres (e gays)? Ok, o gajo também é mascarado, vaidoso. Mas isso não o faz um perna de pau da noite para o dia. Analisemos Cristiano Ronaldo com frieza. É um baita jogador. Toda seleção e todo time gostariam de tê-lo como titular.

Falta-lhe, porém, poder de decisão na hora H.

Ele não foi nada bem nesta Copa. Em 2006, com Portugal em quarto lugar, foi apenas discreto. No Manchester United, deitou e rolou.

Mas, a despeito do título da Champions League de 2008, não foi exatamente brilhante na decisão contra o Chelsea.

Cristiano é jovem. Pode melhorar. Ou pode se perder. Mas é um baita jogador, e merece ser analisado como tal. Só não merece ir pra fogueira.

E a Espanha que se cuide. Se perder para o Paraguai ou mesmo para um semifinalista, alguns mesmos que hoje a trataram como a última Coca Cola do deserto hão de taxá-la de amarelona mais uma vez. Fogueira! Bruxa!

Foto: Karim Jaafar/AFP/Getty Images/Adidas

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A primeira Copa a que assisti com algum nível de consciência foi a de 1990. Naquela época, figurinha se colava com Cola Pritt, videogame era Phantom System e telefone, artigo de luxo. Ainda existia Iugoslávia e Tchecoeslováquia.

Em 1994, em vez da dor de uma derrota para a Argentina, o doce sabor do título. O mundo já parecia tão diferente… Era um mundo com moeda estável, Nintendo, CDs e Guns’n Roses. E sem Ayrton Senna.

Quatro anos mais tarde, adolescente, vi a Copa da França. Continuei jogando Nintendo. Mas já recebia num Pager mensagens de amigos que comentavam os jogos do Mundial. E ficava impressionado com a dimensão compacta dos disquetes nos quais salvava os trabalhos escolares. O Brasil perdia no futebol, mas, num mundo às avessas, se preparava para brilhar no tênis.

Dois mil e dois foi como um salto para o futuro. Quatro anos antes mal se sabia o que era internet e agora já não se vivia mais sem ela. E nem sem o Google. E nem sem celulares. Afinal, agora todo mundo tinha o seu. Dava para ligar no meio da madrugada no celular do amigo para comentar os jogos da Copa da Ásia sem acordar a família inteira do outro.

Veio 2006. Durante a Copa da Alemanha, se o time jogava bem, a gente comentava no Orkut. Se jogava mal, criava uma comunidade no Orkut ofendendo o treinador. Se tomasse gol enquanto alguém ajeitava o meião então… E, entre um scrap e um novo post, a soberba da nossa Seleção ia para o espaço, se apequenava diante da majestade de Zidane.

Em 2010, as novidades são outras. É estranho, mas adventos que parecem tão incorporados ao nosso dia a dia praticamente estreiam em Copas do Mundo. Youtube, Twitter, IPhone… Sem falar de coisas mais recentes como TV no Celular, TV no Pen Drive, Net Book, HDTV etc. Esse mundo de hoje, no qual a Copa está sendo jogada, é um tanto maluco. Um mundo no qual anônimos podem ser lidos e escutados por milhões de pessoas quase em tempo real. E no qual a ordem do futebol foi violada, com Itália sendo eliminada por Paraguai e Eslováquia, França por México, etc.

Do Atari para o Wii; do Fusquinha para o Smart; da vitrola para o Ipod; do DOS para o Windows. De Pelé para Kaká; de Gerson para Felipe Melo; de Telê para Dunga… Aqui, não importa o que é melhor ou o que é pior no futebol e fora dele. Importa apenas reforçar a óbvia constatação de que as coisas mudam – e muito rápido.

Vendo a equipe de Dunga atuar, dá saudade do Brasil à moda antiga, mas dá gosto de ver a confiabilidade atingida por esse grupo. Não adianta querer que o Brasil jogue de acordo com o que funcionava há 30 anos se o futebol e o mundo já não são mais os mesmos. Todo dia é preciso se reiventar. E essa é a parte boa pra os saudosistas. Se hoje a seleção joga feio e na retranca, amanhã talvez seja completamente diferente. Afinal, o futebol de hoje pode ficar rapidamente parecendo uma máquina de escrever obsoleta. Então, chega de choro. Eu, pelo menos, vou curtir essa Seleção até o final, como se dos sonhos fosse.

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Na próxima sexta-feira, dia 2 de julho, o Brasil volta a encarar a Holanda em uma partida de vida ou morte em Copas do Mundo. No dia seguinte, vão se completar 36 anos do primeiro encontro.

Era a fase semifinal de grupos da Copa de 74, na Alemanha. Desorganizada, apática (medrosa?) e cheia de brigas internas, a seleção pouco criou em campo. A Holanda marcou dois gols e só não fez mais porque Leão fez boas defesas.

O pior é que o Brasil tomou um baile e não soube perder. O pau rolou solto (ôps), e apenas a omissão do juiz alemão Kurt Tschenscher pode justificar o fato de apenas o zagueiro Luís Pereira ter sido expulso – de fato, após falta criminosa.

A Holanda, é bom que se diga, também protagonizou lances violentos. Enfim, foi um jogo pra lá de pegado no Westfalenstadion, em Dortmund.

Com a vitória por 2 a 0, a Holanda fez a final com a Alemanha e ficaria com o vice-campeonato. O Brasil jogou pelo terceiro lugar contra a Polônia. Perdeu por 1 a 0 e ficou em quarto.

Não há motivos para acreditar em novo vexame nacional contra a Holanda. Melhor pensarmos nos dois confrontos seguintes.

Vinte anos depois, em 1994, um confronto (também por quartas de final) que entrou para a história. Após abrir 2 a 0, o Brasil cedeu o empate e tudo indicava que haveria prorrogação. Só que havia a patada de Branco, que fez 3 a 2 após linda cobrança de falta.

Romário e cia. se classificaram e partiram rumo ao título.

Em 1998, pelas semifinais, o Brasil venceu nos pênaltis após empate por 1 a 1 em 120 minutos. Na decisão, derrota para a França.

Vale lembrar que nestas duas felizes ocasiões Dunga estava em campo.

Confira abaixo vídeos dos jogos de 74, 94 e 98.

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O mais correto talvez fosse dizer que música os americanos ouviam enquanto era disputada cada uma das finais de Copa do Mundo. Mas, muitas vezes, é o mesmo que se ouve no México do Norte e no resto do planeta.

O que propõe este post é uma pequena viagem musical no tempo. Uma viagem de 80 anos, desde 30 de julho de 1930, quando o Uruguai venceu a Argentina por 4 a 2 e tornou-se, em casa, o primeiro campeão mundial. A lista abaixo mostra a canção que ocupava o primeiro lugar da Billboard no dia em que foi disputada cada uma das 18 finais de Copa.

1930 “Dancing with Tears in My Eyes” (Nat Shilkret)
1934 “I’ll String Along with You” (Ted Fio Rito)
1938 “A-Tisket, A-Tasket” (Ella Fitzgerald e Chick Webb)

1950 “Mona Lisa” (Nat King Cole)
1954 “Little Things Mean a Lot” (Kitty Kallen)
1958 “Purple People Eater” (Sheb Wooley)
1962 “I Can’t Stop Loving You” (Ray Charles)

1966 “Wild Thing” (The Troggs)
1970 “The Love You Save” (The Jackson 5)
1974 “Rock Your Baby” (George McCrae)
1978 “Shadow Dancing” (Andy Gibb)
1982 “Don’t You Want Me” (Human League)

1986 “There’ll Be Sad Songs (to Make You Cry)” (Billy Ocean)
1990 “Step by Step” (New Kids on the Block)
1994 “I Swear” (All 4 One)
1998 “The Boy Is Mine” (Brandy & Monica)
2002 “Hot in Herre” (Nelly)
2006 “Promiscuous” (Nelly Furtado e Timbaland)

2010 “California Gurls” (Katy Perry e Snoop Dogg)*

* Número 1 da Billboard ao fim da primeira fase da Copa

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Até a Copa começar, o mundo todo tentava identificar quem seria o craque do mundial. As atenções se dividiam principalmente entre Messi, Cristiano Ronaldo, Kaká e Rooney. Olhares atentos também para Iniesta e Xavi, os baixinhos que fazem o futebol da Espanha e do Barcelona fluir. Mas, já na reta final, nota-se que nenhum desses faz um super Mundial.

O que o evento nos conta até agora é que a Copa não é de nenhum craque, mas do futebol coletivo bem jogado. Isso explica que a Alemanha, ao lado da Argentina, seja o grande destaque da competição. Os tricampeões mundiais tinham apenas um craque aclamado em escala mundial: o veterano Ballack, que acabou cortado por contusão. E a escassez de superestrelas só ajudou o jovem time germânico a mostrar suas qualidades coletivas.

No jogo contra a Inglaterra, assim como havia sido contra a Austrália, os alemães mostraram uma coesão e uma competência assustadoras. Sem se expor demasiadamente, o time foi letal no ataque. Quando subia em velocidade, mostrava uma movimentação soberba e consciência para decidir o que fazer com a bola. Assim que um jogador dominava a bola, outro aparecia no lugar certo para receber. Na hora do último passe, calma para esperar o espaço aparecer. Sem falar na ótima pontaria dos atacantes para finalizar. Mas quem, antes da Copa, imploraria por ter Ozil, Podolski, Klose ou Muller na sua equipe?

A Argentina, por sua vez, divide o sucesso entre lampejos de Messi, Tevez, Higuain e a liderança de Maradona. O time não é tão coeso quanto o da Alemanha, ainda que seja mais talentoso. Mas mais forte do que os diferencia é o que os une. Mesmo tendo o melhor do mundo, os Hermanos vão conquistando espaço mais por força coletiva do que por apresentações definitivas de um grande craque.

Até agora, na Copa da África, Messi e Kaká não marcaram. Rooney foi embora como uma das maiores decepções. Cristiano Ronaldo anotou só um, e contra a pobre Coreia do Norte. E os espanhóis não arrancaram suspiros – o melhor deles, na verdade, foi David Villa. Ninguém parece seguir o caminho que Romário seguiu em 1994, Zidane em 1998 e Ronaldo e Rivaldo em 2002. Por mim, tudo bem. O que a Alemanha fez hoje faz muito bem aos olhos, tanto quanto um drible desconcertante. Mas, na hora da decisão, quem não quer um craque inspirado para lançar, torcer ou escalar?

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Argentina x Alemanha. Essa turma já fez duas finais de Copa. Agora, em 2010, as duas apresentam um futebol de primeira linha, são candidatas naturais ao título. Mas vão ter de se matar nas quartas de final.

Não faço ideia de quem vai sobreviver. Seja quem for, deve chegar à decisão.

Os argentinos terão de ficar atentos ao contragolpe alemão, caso contrário sua instável defesa será vencida mortalmente. Os germânicos, por sua vez, terão de dar um jeito de barrar as investidas de Messi, com direito às lindas tabelas com Di Maria, Tevez, Higuain…

Será um jogão, claro. Ainda melhor do que as quartas de final de 2006, quando os alemães levaram a melhor em casa e foram à semifinal.

Estou me segurando para não precisar dar um palpite. Mas, vá lá…

Acho que vai dar Argentina. Graças ao talento e a Maradona – o homem voltou a ver sua estrela brilhar.

Sábado, às 11h, no Green Point da Cidade do Cabo. Dá-lhe ansiedade!

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A Alemanha mereceu passar pela Inglaterra. Um time rápido, inteligente, que mescla a juventude de seus bons meias com a experiência dos letais atacantes.

Mas é inegável que a história poderia ser diferente caso a arbitragem não tivesse cometido tamanho erro que foi anular o claro gol de Lampard, aquele que seria o do empate por 2 a 2 ainda no primeiro tempo.

Impossível não lembrar da final da Copa de 66, entre Inglaterra e Alemanha, em Wembley. Esta bola de Geoff Hurst (veja o vídeo), ao que tudo indica, não entrou.

Mas o juiz Dienst Goddfried, da Suíça, validou o gol e a Inglaterra fez 3 a 2 após empate por 2 a 2 no tempo normal. Os ingleses ainda fariam mais um, com Hurst, e venceriam por 4 a 2, faturando aquela que é, até hoje, sua única Copa.

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Nem Kaká nem Robinho e tampouco Julio Cesar. Um dos principais personagens do Brasil nesta Copa do Mundo até agora é o volante Felipe Melo – que, diga-se de passagem, conquistou essa posição sem encantar em nenhum momento pelo futebol praticado. A verdade é que as entrevistas estapafúrdias, cheias de marra, e o estilo de jogo, digamos, enérgico fizeram com que ele se tornasse alvo da criatividade alheia.

A imprensa internacional, mais do que a nacional, destaca que o volante deve ser desfalque da seleção nas oitavas-de-final contra o Chile. Mais do que saber se joga ele, Josué ou Ramires, por aqui a torcida tem se preocupado mais em tirar um sarro da cara do jogador. No melhor estilo Chuck Norris’ Facts, já circula na internet um compilado de “feitos” da vida de Felipe Melo.

Veja alguns deles, veiculados pelo Blog da Redação, do UOL:

Lhenrique: Por causa do Felipe Melo, os melhores momentos da copa vão ser editados pelo Tarantino.

Wiil_Solo: As namoradas de Felipe Melo têm medo de pedir carinho a ele. Ele pode entender carrinho.

EverttonFolly: Milhares de pessoas no mundo deram entrada no hospital após assistir o Felipe Melo em transmissão 3D.

tawilzein: Felipe Melo não é bom de matemática mas gosta de dividir sem deixar restos.

idiotweets: O Michael Jackson morto faz muita falta. O Felipe Melo vivo faz mais ainda.

ands_sp: A lenda da mula sem cabeça começou depois de um pé alto de Felipe Melo.

FreitasPoliana: Todas as seleções têm volante… nós temos para-choque.

nicholas_lima: Felipe Melo é o único jogador que você encontra no FIFA 2010, no Winning Eleven e no Mortal Kombat.

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