Do fundo do baú para maio, 2011

Quem leu alguns posts aí pra baixo sabe que eu torci para o Manchester United na final da Champions League, sábado à tarde.

Quer dizer, tentei torcer, luta da qual desisti logo no início do segundo tempo. Não dá para torcer contra este Barcelona, mas não tenho palavras para escrever aqui além daquelas que você, leitor, já leu/ouviu com exaustão.

A boa fase do time Catalão e a intensa transmissão da mídia brasileira também me fez travar contato com o hino do Barça, que, ao ser acompanhado por inteiro, se mostra bem mais bonito e emocionante do que o repetitivo refrão.

Veja abaixo a letra original, em Catalão (este idioma meio espanhol, meio francês e na verdade tão único). E, um pouco mais abaixo, ouça uma emocionante versão, entoada no centenário do clube, em 1998, com legendas.

Tot el camp, és un clam
som la gent blaugrana,
Tant se val d’on venim
si del sud o del nord
ara estem d’acord, ara estem d’acord,
una bandera ens agermana.
Blaugrana al vent, un crit valent
tenim un nom, el sap tothom:
Barça , Barça, Baaarça.!

Jugadors, seguidors, tots units fem força.
Son molt anys plens d’afanys,
son molts gols que hem cridat
i s’ha demostrat, i s’ha demostrat,
que mai ningu no ens podrà torcer
Blau-grana al vent, un crit valent
tenim un nom, el sap tothom
Barça, Barça, Baaarça

Compartilhe!

Sou um defensor incansável do uso de terceiros uniformes. Se houver uma boa ideia, não me importo que meu time jogue de vermelho, cinza, azul ou amarelo. A terceira camisa tem de ser bonita e nada mais. As duas primeiras que devem ter seus desenhos tradicionais mantidos. Neste domingo, dizem, o Corinthians estreou um belo terceiro uniforme. Pena que eu não vi. Acho que ninguém viu.

O Corinthians, há muito tempo, esconde seu uniforme atrás de um um monte de marcas de patrocinadores que, desculpem, estou com preguiça de contar. Tem patrocinador até dentro do número, nas costas. Tem – ou já teve – na bunda. Não é uma exclusividade do Corinthians, mas foi o Timão quem começou o exagero, para bancar a ousada e bem-sucedida contração de Ronaldo.

Claro que todos vimos o uniforme do Corinthians, exagerei no primeiro parágrafo. Mas é impossível admirar uma camisa que divide espaço com tantas marcas. É informação demais. Há um São Jorge na parte da frente da camisa, e este sim passou sem que ninguém percebesse. Não estava brigando com o dragão, mas com uma fabricante de genéricos, um desodorante e com uma espuma de barbear.

O Corinthians tem, ao menos nacionalmente, uma marca incrivelmente valiosa. É um time que tem dezenas de milhões de potenciais consumidores. Por que, ainda assim, é preciso que um time deste tamanho transforme sua camisa numa cartela de rifa? “Escolha um nome e concorra a um relógio”. Puxa, não sei se escolho o desodorante de odor duvidoso, a escola de inglês ou a empresa de telefonia.

As camisas usadas hoje pelos times brasileiros são medonhas. Emporcalharam uniformes lindos como do Corinthians, do Vasco e do São Paulo. Não à toa, é cada vez mais comum ver modelos antigos, os “retrô”, nas arquibancadas. Custam mais barato e têm apenas o discreto logo do fornecedor de material esportivo. Quem nunca ouviu ou falou que “a camisa do Time X está linda sem patrocinador”? O clube não está ganhando o dinheiro do patrocínio, mas deixa exposta a mais importante das marcas: a sua própria.

É preciso que os pessoal de marketing reveja conceitos. Emporcalhar as camisas parece uma tendência, mas que tem de ser revertida. Clubes gigantes do país não deveriam ser obrigados a lotear o que têm de mais sagrado, a sua imagem. Não é possível que o dinheiro não possa ser obtido com apenas uma marca. Eu quero ver, antes de mais nada, o escudo dos times e as cores e detalhes das camisas, e não a marca do açougue do Seu Tião.

Compartilhe!

Por Diogo Salles
Chargista e blogueiro do Jornal da Tarde

Ainda me lembro do dia em que saiu o anúncio da sede da Copa de 2014. Era 2007 e o clima de euforia contagiou a todos. Natural que as pessoas ficassem empolgadas em poder assistir uma copa in loco. Porém, quatro anos se passaram (três ainda por vir), e o clima é desolador. Hora de discutirmos a nossa relação com essa copa. Dentre os empolgados que restaram, temos dois grupos: 1) cínicos e alienados em geral, que estarão lá só pela festa e 2) os que estão faturando muito dinheiro com os conchavos e esquemas que estão rolando.

Meu aborrecimento com essa copa é justamente por causa desse segundo grupo, uma casta de privilegiados e atravessadores da pior espécie. É essa gente que transforma o esporte mais popular e adorado do planeta numa ferramenta para exercer poder, para corromper, coagir e manipular pessoas de todas as formas. Ufanistas profissionais e pragmáticos de plantão podem argumentar à vontade que a Fifa e a CBF são “entidades” privadas e todo esse bla-bla-bla obscurantista, mas o fato é que nenhuma das duas empresas — melhor chamar assim — dão a mínima para o futebol. É negócio, é lucro — e pouco importa se isso vai contra o bem comum ou se vai prejudicar pessoas.

Gostemos ou não, o cenário montado para essa copa atende perfeitamente aos apetites dos coronéis da bola. Basta olhar para a escolha dos estádios que abrigarão os jogos. Passaram por cima de qualquer critério profissional ou do simples bom senso.

A dúvida sobre o estádio que sediaria a abertura da copa não era o foco de um incêndio. Para a CBF e a Fifa, era mais uma grande oportunidade para fazer negócio. Financeiramente (para eles) vale muito mais a pena investir em projetos onde dinheiro público e privado saiam pelo ladrão (o trocadilho escapou). A princípio, todos concordaram que a abertura deveria ser em São Paulo, por causa de sua rede hoteleira, de seus aeroportos, infraestrutura, etc.

Pela lógica, o São Paulo Futebol Clube se comprometeria a reformar sozinho o Morumbi e o governo só entraria com investimentos em metrô e infraestrutura nos arredores do estádio. Mas não, Ricardo Teixeira tem uma rixa pessoal com o clube — e não mediu esforços junto à Fifa para sabotar a ideia de usar o Morumbi na copa. Tirando todas as motivações personalistas e mesquinhas (falsamente maquiadas como “técnicas”), vamos supor que o Morumbi não pudesse ser usado.

Ok, o Palestra Itália também está sendo totalmente reformado (com dinheiro privado) e o projeto é moderníssimo. Na pior das hipóteses, poderíamos ter a abertura e a final no Maracanã e o novo Palestra Itália receberia jogos até as oitavas-de-final. Mas inventaram mais critérios falsamente “técnicos” para vetar também o estádio do Palmeiras. O mundo não é para os ingênuos e o recado é claríssimo: “queremos um estádio totalmente novo, queremos projetos faraônicos, queremos orçamentos nucleares”.

Uma vez que Morumbi e Palestra Itália estavam fora da jogada, o próximo passo era idealizar esse novo estádio. E assim o “rei” Ricardo Teixeira foi ao Corinthians e encontrou em Andrés Sanchez o seu bobo da corte. Com o caminho aberto, era só lançar a bola ao seu corintiano mais ilustre que tudo se resolvia. E lá foi o então presidente Lula fazer lobby com a Odebrecht em favor do “Itaquerão”.

Meia dúzia de palavras depois, brotava do chão um estádio para 45 mil pessoas, ao custo de 600 milhões de reais (sendo 400 via empréstimos do BNDES). A princípio, até tentaram dar um ar de seriedade para o novo plano: a ordem dos altos escalões dos governos era a de que não poderia haver dinheiro público na obra do novo estádio. O tempo passou, o prazo apertou e a conta finalmente chegou: faltava dinheiro para completar o orçamento.

Aí o jeitinho brasileiro entrou em campo mais uma vez para garantir a lei da vantagem a favor dos coronéis da bola. O prefeito Kassab, outro craque da politicagem, matou no peito e lançou R$ 240 milhões em “Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento“, com descontos de 50% no IPTU e isenções fiscais a gosto do cliente. Mas os problemas não pararam por aí. A região escolhida, além de possuir pouca infraestrutura, está situada numa área onde passam dutos da Petrobrás e um córrego a 16 metros de profundidade, que precisariam ser desviados.

Para piorar ainda mais as coisas, a Fifa exigiu também a construção de 30 elevadores para transportar seus “vips”. Como resultado, a construtora refez o orçamento: 1 bilhão de reais. Com tantos interesses particulares envolvidos, não surpreende que as obras do estádio que quer abrir a copa estejam começado só agora

A CBF é o câncer do futebol brasileiro e Ricardo Teixeira é o seu tumor mais maligno. O problema é que a metástase avançou até mesmo nas células ditas “progressistas” da sociedade — e não parece haver a mínima intenção de fazer uma quimio ou radioterapia para tratar a doença. Manifestações como a do metrô de Higienópolis são interessantes porque mobilizam as redes sociais, questionam o status quo e repercutem bastante na sociedade.

Porém, estranhamente, esse mesmo ativismo não se repete contra os esquemas por trás do Itaquerão. Não sei se é porque o progressismo também tem seus limites clubísticos ou se é porque os “progre$$istas” acreditam que a cidade de São Paulo esteja carente de novos estádios. Qualquer que seja a razão, a conta será jogada em cima dos governos que, por sua vez, repassarão um ônus privado da Fifa e da CBF (e agora do Corinthians também) ao contribuinte. Com isso, os coronéis da bola já podem comemorar mais uma vitória — e a nossa sonolência cívica garantirá que ela seja de goleada. Afinal quem vai querer ficar de fora de uma festança dessas?

Compartilhe!

Gerado na rica fornada do Atlético-MG do início dos anos 70, aquela mesma que deu ao futebol brasileiro nomes como João Leite, Getúlio, Toninho Cerezo, Paulo Izidoro e Reinaldo, o atacante Marcelo Oliveira também brilhou pelo Galo – embora não tenha alcançado o mesmo sucesso de alguns dos seus pares.

Hoje treinador do Coritiba e não mais dono do cabelo longo dos tempos de jogador, Oliveira desponta como grande nome do futebol nacional neste início de temporada, ao lado do atacante santista Neymar.

Típico representante da escola mineira, de fala mansa, estilo discreto e bonezinho sempre a postos, o treinador chama a atenção não apenas pela excelente campanha do Coxa, mas principalmente por evitar o deslumbramento.

Em todas as entrevistas que vi, Marcelo Oliveira falou com sabedoria de guru indiano. Evitou frases prontas, ao estilo “temos que respeitar os adversários” na mesma medida em que driblou o revanchismo regionalista ao estilo “a imprensa de São Paulo e do Rio agora está conhecendo o Coritiba”

Nada disso. Oliveira sempre se limitou a falar de futebol – nada menos ou mais do que sua função.

A recuperação do Coritiba começou há pouco mais de um ano, quando o clube encontrou forças para virar com sabedoria as horríveis páginas do rebaixamento à Série B e dos atos de violência na última rodada do Brasileirão-2009. O comando desta virada em campo ficou a cargo de outro mineiro esperto, Ney Franco, campeão da Série B-2010 no Couto Pereira. Ao deixar o Coxa para assumir as seleções brasileiras de base, Ney foi o “padrinho” da indicação de Marcelo Oliveira. Certamente está orgulhoso.

Para quem não sabe, o técnico já havia assumido o Atlético-MG algumas vezes, sempre de forma interina. Em 2008, deixou o Galo na 12ª colocação do Nacional. Também dirigiu o Ipatinga e o Paraná.

Difícil imaginar o futuro do time do Alto da Glória. A decisão da Copa do Brasil será uma pedreira, pois o Vasco está embalado e reencontrou o equilíbrio.

Caso o Coxa seja campeão, torcerei para que Marcelo Oliveira continue o mesmo. Sem flertar com o marketing pessoal e se deslumbrar, o técnico pode se firmar a médio prazo como mais um bom nome mineiro entre os técnicos do país.

E, caso o Coxa seja vice, torcerei para que quem continue a mesma seja a diretoria coxa-branca.

Compartilhe!

Há que semear a terra

identifica

Não são poucos os que apontam a várzea como a grande escola para um jogador de futebol. Foi assim com Pelé, que arriscou os primeiros dribles em pequenos clubes de Bauru. Mas a teoria não se restringe ao passado. O argentino Tevez e sua cumbia surgiram no Forte Apache, subúrbio de Buenos Aires, onde disputava jogos que valiam sanduiches e refrigerantes.

Atualmente, as escolinhas privadas também prestam seu papel, adotando um modelo quase profissional, que inclui nutricionistas, fisiologistas, psicólogos, pai-de-santo e afins. Mas nada que se aproxime do espírito de superação que emana dos campos de terra batida (e remexida), cada vez mais escondidos nas metrópoles.

Em São Paulo, há um bom exemplo de resgate desse espírito. Trata-se da Copa da Paz, torneio de futebol de várzea realizado no bairro de Paraisópolis, onde se encontra a segunda maior favela da cidade. A 4ª edição da competição, promovida pela marca Dreher, começou agora em maio e tem como padrinho o ex-jogador Washington (Coração Valente).

A diversão começa com os nomes dos times: Vila Fundão, Vida Loka, Unidos da Ponte, Mary Jane, Goteira, Real Madri Paraisópolis. Ao todo, 32 equipes disputam um prêmio de R$ 10 mil. O site Futebol de Varzea acompanha todos os jogos e curiosidades, além de eleger os craques de cada rodada.

Estádio lotado, fogos de artifício, uniformes, discussão com o juiz. Tudo o que se vê nos gramados do futebol moderno também tem vez no Campo do Palmeirinha, considerado o “Morumbi da Comunidade”. O vídeo abaixo é longo, mas vale conferir. Traz um retrato fiel do que significa a várzea para quem ama o futebol. Pra quem vive em Paraisópolis, a Copa de verdade já começou. E a discussão sobre 2014 fica para outra mesa de bar.

Compartilhe!

Meu colega Luiz Augusto Lima escreveu aqui embaixo que vai torcer para o Manchester United na final da Champions League, diante do Barcelona. Eu não tenho um escolhido para este jogo, mas posso dizer que invejo o Manchester United mais do que o Barcelona, apesar do belo futebol do clube catalão. E invejo muito, por causa de Alex Ferguson.

Esta reportagem do Marca mostra os percalços do início de Ferguson e toda a trajetória gloriosa que teve nos Red Devils depois que o time começou a ganhar. Junto com os títulos, o que causa inveja dos torcedores do Manchester é a identidade que o time tem graças a esse treinador.

Os 11 jogadores que entram em campo são a cara de Ferguson. Cada contratado do Manchester tem uma perspectiva ali dentro e um papel a ser cumprido. Uns, como foi com Cristiano Ronaldo e é com o lateral Fábio, chegam cedo para fazer carreiras longas. Outros têm papeis pontuais, como o goleiro veterano Edwin van der Sar, que excedeu as expectativas, e o Teddy Sheringham, que nos anos 1990 chegou depois dos 30 anos para ser reserva (e fazer um dos gols daquela história final de 1999). Alguns são apostas, mas são tiros tão certeiros que é difícil acreditar que Ferguson teve apenas sorte. São os casos de Peter Schmeichel, Park Ji-Sung, Michael Carrick e, aposto, do goleiro De Gea, que provavelmente ficará mais de uma década com a camisa número 1 dos Red Devils.

A presença de Ferguson protegeu o Manchester dos arroubos de donos bilionários. Mesmo com americanos (des)mandando, o Manchester não faz como outros clubes que têm quatro laterais-direitos ou cinco atacantes para só um jogar. Ferguson não fomenta fogueiras de vaidades, quer tudo sob seu controle, pois sabe que assim as coisas darão certo. Com o escocês no banco, o torcedor do Manchester não sofre como o torcedor brasileiro, que vê jogadores identificados com a torcida deixando o clube por conta de técnicos aventureiros. E nem contratações sem nexo feitas apesar de qualquer torcedor mais observador saber que vai dar errado.

Tudo isso não é garantia de que o Manchester continuará ganhando constantemente e muito menos de que vai bater o Barcelona em Wembley. Se der tudo errado e os espanhois ficarem com a taça, o torcedor do Manchester vai ficar triste, mas terá a certeza de que, no ano seguinte, as coisas podem mudar para melhor e não que um aventureiro vai destruir tudo. É por isso que todos os times mereciam um Alex Ferguson.

Compartilhe!

Vai, Manchester, pinte a Europa de vermelho. Nade contra a corrente, mostre novamente a todos que não há combinação mais bonita do que essa que você ostenta em seu uniforme.

Repita o grande feito de 1999, quando meu irmão, rouco de tanta emoção, me contou o que aconteceu entre os 44 e os 47 minutos daquele jogo memorável contra o Bayern de Munique.

Vai, honre a memória de George Best, um dos jogadores mais bacanas e emblemáticos de todos os tempos. Que teve em Cantona, guardadas as devidas proporções, um fiel mantenedor da linhagem. Porras loucas, a mostrar que o futebol se ganha, sim, com talento, mas também com rebeldia, bunda arranhada no gramado e alguns palavrões na orelha do adversário.

Vai Giggs, mostre pela milésima vez que você é o jogador que a Inglaterra precisava ter para ter transformado uma bela geração em geração vitoriosa.

Nada contra o Barcelona, vejam bem. Não, não. Mas futebol nem sempre é beleza, estética e “time que tem categorias de base”. Não, não. Futebol também precisa de um pouco de arrogância, de feiúra. Calma, Sir Ferguson. Sei bem que seu time não joga feio, claro. Mas entre os seus e os “barbas bem-feitinhas” do Guardiola, é claro que fico com os seus.

Vai, Manchester, time da cidade que deu ao mundo Joy Division, New Order, The Smiths, Stone Roses, Oasis…

Vai, Manchester, e só tente fazer um favor. Não jogue de branco, como fez em 2009. Porque, neste caso, já não coloco minha mão no fogo…

Compartilhe!

Claro que logo vai ter alguém pra dizer que é chato, que perdeu a graça, que só ganha porque tem o melhor carro, que o companheiro de equipe é um merda, que ele é loiro demais, que não sabe falar dialetos africanos. Mas o fato é que estamos todos vendo um fenômeno construir seu nome nas pistas. Sebastian Vettel, não há dúvida, já é um dos melhores pilotos de todos os tempos.

É um moleque que dá nomes de mulheres aos seus carros e guia como poucos. Ganhou sua primeira corrida com um carro da Toro Rosso, aquela que a Globo chama de STR e que vinha a ser a Minardi. A simpática e extremamente lenta Minardi. Ganhou neste domingo, na Espanha, a quarta das cinco corridas do ano, a 14ª na carreira, e já tem 41 pontos de vantagem para Hamilton.

Resumindo: Vettel já é campeão, a não ser que as Farc invadam Monte Carlo e o levem para a floresta colombiana como refém. O que, me parece, não é uma possibilidade muito realista.

Não há do que se reclamar da Fórmula 1 atual. O regulamento, embora tenha tornado ultrapassagens artificiais com suas asas que se mexem e seu dispositivo natureba para reutilização de energia, o Kers, fez a coisa ficar movimentada. Graças, também, aos pneus temperamentais, que num momento são duros feito paus e, em outros, são moles e se desfazem como chiclete.

Neste cenário, com um carro espetacular, Vettel está sobrando. E não se pode dizer que não tem concorrência. Há na pista contra Sebastião quatro campeões e três deles em ótima forma, Hamilton, Button e Alonso (que só não tem carro, de resto está tudo bem). Schumacher não conta, pelo menos não por enquanto. Sim, ele tem o melhor carro, um carro quase de outro mundo. Mas faz o que tem de ser feito. Vai lá e ganha. Webber tem o mesmo carro e, bom, e nada.

Há que se aproveitar o que se pode ver nas pistas nesta temporada, corridas emocionantes, um regulamento que ainda não foi plenamente compreendido pelas equipes, ótimos pilotos e um fora de série entrando para o grupo dos melhores de todos os tempos. Os fãs xiitas de Senna, também chamados de viúvas, já podem preparar discurso novo. Há anos brigam com quem considera Schumacher o melhor de todos. Logo podem ter de brigar com quem considerar Vettel o melhor.

Compartilhe!

Chegou a hora de separar os homens dos meninos, diria Michael Jordan. Ou, no caso do circuito masculino de tênis, chegou a hora de sabermos quem usa a coroa de rei do saibro e quem ocupa a posição de inimigo número 1 da majestade.

A rivalidade entre Novak Djokovic e Rafael Nadal, que se intensifica a cada dia, tem um capítulo-chave em Roland Garros, cujas disputas começaram hoje e se encerram daqui a duas semanas. A prevalecer a lógica, como vem acontecendo desde o começo da temporada, os dois vão se encontrar na decisão e farão a quinta final entre eles em 2011.

Como todos já sabem, Djokovic venceu tudo neste ano. Acumulou simplesmente trinta e sete vitórias, que se traduziram em sete títulos. Contra o novo arquirrival, duelou na final dos Masters Series de Indian Wells e Miami, na quadra dura, e Madri e Roma, no saibro. Resultados normais no piso rápido, mas surpreendentes na terra batida, onde o espanhol era intocável – e onde estava invicto há nove duelos com o sérvio.

Apesar do domínio incontestável em 2011, a invencibilidade e a boa fase de Djokovic nunca foram tão colocadas à prova como agora, em Roland Garros. Primeiro porque ele jamais venceu Rafa em um Grand Slam em cinco tentativas. E segundo porque, se falhar, terá acumulado vitórias nos encontros menos importantes, mas fracassado justamente no duelo que fica para a história (ninguém entra para o hall da fama por vencer Masters 1000).

Ao ser derrotado em Roma, Nadal disparou uma frase que não ganhou destaque no noticiário, mas que significa muito. “O campeão, para mim, não é só quem ganha toda semana, mas também é o que espera os momentos certos; e estou esperando para encontrar soluções e veremos o que acontece na próxima vez”. Por momento certo e por próxima vez, entenda-se Roland Garros.

Vale lembrar, aliás, como funciona a cabeça do espanhol. Ele apanha, apanha, apanha e se mantém tranqüilo, mesmo na adversidade; na hora decisiva, ressurge e nocauteia o rival. Certa vez vi Emílio Sanchez fazer um comentário brilhante sobre como o conterrâneo podia vencer Roger Federer tantas vezes em seqüência se não tem uma técnica tão apurada quanto a do rival. Emílio apontou que Rafa tinha a capacidade de guardar energia física e mental para usar nos momentos-chave, ao passo que o suíço oscilava aleatoriamente. Não se surpreendam, então, se virmos o tenista de Mallorca dando o bote bem na “hora h”.

Mas, para reverter a supremacia do sérvio, o ainda número 1 do mundo terá de contornar um casamento de jogo ingrato, que explica muito da dificuldade que ele está encontrando contra o excepcional jogador de Belgrado. Esse fator é a vantagem que ele tem a seu favor contra Federer, mas que vira seu pesadelo contra Djokovic.

Nadal e Federer são atletas quase opostos. O suíço é a técnica perfeita, a precisão, o talento natural. O outro é a explosão física, a resistência, a fortaleza mental e o contra-ataque perfeito. Quando os dois se enfrentam, o melhor golpe do espanhol, o forehand com top spin, encontra o golpe mais inconsistente do rival, o backhand, que é batido com uma mão, o que torna muito mais difícil controlar o efeito das “chicotadas” do espanhol. É, portanto, um duelo de estilos.

Djokovic, como Federer, é mais agressivo e completo do que Rafa. Mas tem duas vantagens que fazem a diferença: o backhand perfeito com duas mãos, que anula o top spin do rival canhoto, e o fato de ser praticamente tão bom quanto Rafa onde ele nunca teve adversários e onde ele é soberano contra o suíço: a velocidade, a regularidade, a força mental e a resistência. Por essas razões, o sérvio transita por diversas estratégias com conforto contra Nadal e dá as cartas de forma mais natural quando os dois se encontram.

Quem vai sair vencedor em Paris nem Mãe Diná sabe. O que já dá pra saber é que a boa fase de Djokovic não se explica por “segredos” nem “mistérios”, como vem se falando. E que Nadal terá trunfos guardados para Paris. Jogo de cachorro grande, pra não descolar da TV nem por um minuto.

Compartilhe!

Eu não tenho bola de cristal e sou péssimo em adivinhações. Mas o Campeonato Brasileiro começa hoje e poucas vezes houve tamanha escassez de favoritos. É por conta disso que o Cruzeiro tem uma chance enorme de conquistar seu segundo título (na era pós-1971).

Apesar de Cuca e seu temperamento exótico, apesar das falhas do time em jogos decisivos, o Cruzeiro fez uma participação na Copa Libertadores que o coloca obrigatoriamente entre os favoritos ao título brasileiro. Podemos classificar a eliminação para o Once Caldas como um acidente de percurso.

São dois os times do nível do Cruzeiro. O Santos e o Internacional. Se vencer a Libertadores – e há uma grande chance de acontecer, o Peixe vai levar em banho maria o segundo semestre, de olho apenas no Mundial. Todos, dirigentes, técnico e jogadores, negarão, claro. Mas o Santos, como outros campeões da Libertadores, perderá o foco no Brasileiro. Se também perder Ganso, o Cruzeiro agradece.

Lembre-se do clichê: para vencer um campeonato de pontos corridos não basta time, é preciso elenco. E isso o Internacional tem. Mas também tem, no banco, um técnico que voltou à função depois de quase duas décadas e que tem contra si uma eliminação bizarra na Libertadores. Em que pese o título gaúcho, Falcão é capaz de comandar o Colorado ao título? Não acho.

O São Paulo enfrenta uma fase ruim como há muito não se via. O principal reforço passou por cirurgia na véspera do campeonato e o técnico já começa a competição ameaçado. O Corinthians, cambaleante, não vai ter Alex nas 14 primeiras rodadas. Flamengo, Fluminense, Grêmio e Palmeiras não inspiram confiança. Coritiba, quem sabe? Em um campeonato que começa com poucos times fortes, o Cruzeiro tem boa chance de navegar com alguma tranquilidade. Se Cuca não tiver uma crise.

Compartilhe!

Compre o livro "Esporte Fino - O Esporte Além dos Resultados"