Chegou a hora de separar os homens dos meninos, diria Michael Jordan. Ou, no caso do circuito masculino de tênis, chegou a hora de sabermos quem usa a coroa de rei do saibro e quem ocupa a posição de inimigo número 1 da majestade.
A rivalidade entre Novak Djokovic e Rafael Nadal, que se intensifica a cada dia, tem um capítulo-chave em Roland Garros, cujas disputas começaram hoje e se encerram daqui a duas semanas. A prevalecer a lógica, como vem acontecendo desde o começo da temporada, os dois vão se encontrar na decisão e farão a quinta final entre eles em 2011.
Como todos já sabem, Djokovic venceu tudo neste ano. Acumulou simplesmente trinta e sete vitórias, que se traduziram em sete títulos. Contra o novo arquirrival, duelou na final dos Masters Series de Indian Wells e Miami, na quadra dura, e Madri e Roma, no saibro. Resultados normais no piso rápido, mas surpreendentes na terra batida, onde o espanhol era intocável – e onde estava invicto há nove duelos com o sérvio.
Apesar do domínio incontestável em 2011, a invencibilidade e a boa fase de Djokovic nunca foram tão colocadas à prova como agora, em Roland Garros. Primeiro porque ele jamais venceu Rafa em um Grand Slam em cinco tentativas. E segundo porque, se falhar, terá acumulado vitórias nos encontros menos importantes, mas fracassado justamente no duelo que fica para a história (ninguém entra para o hall da fama por vencer Masters 1000).
Ao ser derrotado em Roma, Nadal disparou uma frase que não ganhou destaque no noticiário, mas que significa muito. “O campeão, para mim, não é só quem ganha toda semana, mas também é o que espera os momentos certos; e estou esperando para encontrar soluções e veremos o que acontece na próxima vez”. Por momento certo e por próxima vez, entenda-se Roland Garros.
Vale lembrar, aliás, como funciona a cabeça do espanhol. Ele apanha, apanha, apanha e se mantém tranqüilo, mesmo na adversidade; na hora decisiva, ressurge e nocauteia o rival. Certa vez vi Emílio Sanchez fazer um comentário brilhante sobre como o conterrâneo podia vencer Roger Federer tantas vezes em seqüência se não tem uma técnica tão apurada quanto a do rival. Emílio apontou que Rafa tinha a capacidade de guardar energia física e mental para usar nos momentos-chave, ao passo que o suíço oscilava aleatoriamente. Não se surpreendam, então, se virmos o tenista de Mallorca dando o bote bem na “hora h”.
Mas, para reverter a supremacia do sérvio, o ainda número 1 do mundo terá de contornar um casamento de jogo ingrato, que explica muito da dificuldade que ele está encontrando contra o excepcional jogador de Belgrado. Esse fator é a vantagem que ele tem a seu favor contra Federer, mas que vira seu pesadelo contra Djokovic.
Nadal e Federer são atletas quase opostos. O suíço é a técnica perfeita, a precisão, o talento natural. O outro é a explosão física, a resistência, a fortaleza mental e o contra-ataque perfeito. Quando os dois se enfrentam, o melhor golpe do espanhol, o forehand com top spin, encontra o golpe mais inconsistente do rival, o backhand, que é batido com uma mão, o que torna muito mais difícil controlar o efeito das “chicotadas” do espanhol. É, portanto, um duelo de estilos.
Djokovic, como Federer, é mais agressivo e completo do que Rafa. Mas tem duas vantagens que fazem a diferença: o backhand perfeito com duas mãos, que anula o top spin do rival canhoto, e o fato de ser praticamente tão bom quanto Rafa onde ele nunca teve adversários e onde ele é soberano contra o suíço: a velocidade, a regularidade, a força mental e a resistência. Por essas razões, o sérvio transita por diversas estratégias com conforto contra Nadal e dá as cartas de forma mais natural quando os dois se encontram.
Quem vai sair vencedor em Paris nem Mãe Diná sabe. O que já dá pra saber é que a boa fase de Djokovic não se explica por “segredos” nem “mistérios”, como vem se falando. E que Nadal terá trunfos guardados para Paris. Jogo de cachorro grande, pra não descolar da TV nem por um minuto.