Duas décadas atrás, quando eu era um pirralho que tinha preguiça de estudar matemática e não conseguia ouvir falar em estudos sociais, fui um daqueles muitos garotos que dedicaram seu tempo fielmente ao futebol. Não decorava fórmulas de Álgebra e Geometria, mas memorizava com a maior destreza escalações, personagens e estatísticas de episódios clássicos do esporte.
Se você também é dessa turma obcecada pelo esporte bretão desde que veio ao mundo, vai lembrar que o script do fim de semana, nos anos 80, era bem-definido. Campeonato italiano na Band pela manhã (“Olho no Laaancee”); Grandes Momentos do Futebol na Cultura pela hora do almoço; em seguida Show do Esporte novamente no canal 13 do VHF; e no meio da tarde a coroação com a rodada do Brasileirão ou do Estadual. Para fechar, é claro, atenção total nos programas de mesa redonda.
Naquela época, a programação só mudava se tocasse o interfone e alguém convidasse para qualquer coisa relacionada ao futebol. Podia ser o emocionante “três dentro, três fora”, partidas épicas de “gol a gol”, batalhas intermináveis de “artilheiro” ou uma boa e velha pelada no melhor estilo “cinco vira, dez acaba”.
Vinte anos depois, o gosto por assistir a uma boa partida continua igual. Não interessa se o tempo disponível e as prioridades tenham mudado de forma irremediável: o prazer é o mesmo. A três anos de ver pela primeira vez uma Copa do Mundo – e ainda por cima uma Copa no meu próprio País -, sinto como se estivesse arrancando folhinha de um calendário para realizar o sonho de criança.
Pela lógica, deveria eu estar consumindo cada notícia que se fala, escreve ou televisiona sobre 2014. Ao contrário disso, no entanto, desenvolvi uma rejeição implacável pelo megaevento. Vale dizer que não foi por ativismo ou por qualquer lampejo politicamente correto… É muito mais simples: enquanto a pauta são os bastidores, e não o “produto final”, ou seja, bola no gramado, dá dor de estômago acompanhar o noticiário. Personagens chatos e engravatados dando caneladas uns nos outros ao mesmo tempo em que sorriem para as câmeras como se tivessem anotado um golaço.
Fiquei sabendo, aliás, que ontem teve um sorteio de alguma coisa relacionado à próxima Copa. Juro que não sei do que se trata. Ignorei as manchetes e mudei de canal quando a TV tocou no assunto. Vi de raspão que teve Ivete Sangalo, políticos, cartolas e outros clichês. Dá um pouco de preguiça e um certo asco. Tenho certeza que aquele circo que estava ao vivo na televisão nada tem a ver com a minha paixão de infância. E também tenho estou seguro de que não perdi nada muito interessante.
É até chato dizer de novo que o Ricardo Teixeira isso, o Ricardo Teixeira aquilo, a Globo isso, a Globo aquilo, o ministro isso, o ministro aquilo… Todo mundo já sabe. A novidade, para mim mesmo, foi que a avacalhação de quem manda no nosso futebol é tamanha que pela primeira vez sobrepujou meu prazer em consumir futebol. Fui tomado da sensação mais genuína de rejeição. A brincadeira simplesmente perdeu a graça. Até 2014, só vou acompanhar os bastidores a contragosto para não ficar totalmente por fora do que acontece no mundo do esporte.
Cheguei a pensar que essa abstração quer dizer que eu perdi a paixão. Talvez signifique apenas que eu gosto simplesmente de futebol, e não necessariamente de futebol profissional. O negócio é bola rolando. Afinal, não sinto interesse por ver as notícias da Copa, mas posso sentar num banquinho e assistir por horas à pelada pós-expediente que rola na quadra do Parque do Povo, logo à frente do escritório onde bato cartão. E, se sentar alguém do meu lado, pode até sair uma mesa redonda improvisada bem ali na praça, no meio do caos urbano de São Paulo. Não vai ter Axé nem cartolas nem purpurinas. E não vai fazer a menor falta…
Compartilhe!
Tweet

Ayrton Wilbury é um cara de sorte. Ainda criança já estava empunhando sua guitarra ao lado de gente que para ele era apenas amiga da família. Mas que, para todos nós, é inatingível.



