Do fundo do baú para julho, 2011

Duas décadas atrás, quando eu era um pirralho que tinha preguiça de estudar matemática e não conseguia ouvir falar em estudos sociais, fui um daqueles muitos garotos que dedicaram seu tempo fielmente ao futebol. Não decorava fórmulas de Álgebra e Geometria, mas memorizava com a maior destreza escalações, personagens e estatísticas de episódios clássicos do esporte.

Se você também é dessa turma obcecada pelo esporte bretão desde que veio ao mundo, vai lembrar que o script do fim de semana, nos anos 80, era bem-definido. Campeonato italiano na Band pela manhã (“Olho no Laaancee”); Grandes Momentos do Futebol na Cultura pela hora do almoço; em seguida Show do Esporte novamente no canal 13 do VHF; e no meio da tarde a coroação com a rodada do Brasileirão ou do Estadual. Para fechar, é claro, atenção total nos programas de mesa redonda.

Naquela época, a programação só mudava se tocasse o interfone e alguém convidasse para qualquer coisa relacionada ao futebol. Podia ser o emocionante “três dentro, três fora”, partidas épicas de “gol a gol”, batalhas intermináveis de “artilheiro” ou uma boa e velha pelada no melhor estilo “cinco vira, dez acaba”.

Vinte anos depois, o gosto por assistir a uma boa partida continua igual. Não interessa se o tempo disponível e as prioridades tenham mudado de forma irremediável: o prazer é o mesmo. A três anos de ver pela primeira vez uma Copa do Mundo – e ainda por cima uma Copa no meu próprio País -, sinto como se estivesse arrancando folhinha de um calendário para realizar o sonho de criança.

Pela lógica, deveria eu estar consumindo cada notícia que se fala, escreve ou televisiona sobre 2014. Ao contrário disso, no entanto, desenvolvi uma rejeição implacável pelo megaevento. Vale dizer que não foi por ativismo ou por qualquer lampejo politicamente correto… É muito mais simples: enquanto a pauta são os bastidores, e não o “produto final”, ou seja, bola no gramado, dá dor de estômago acompanhar o noticiário. Personagens chatos e engravatados dando caneladas uns nos outros ao mesmo tempo em que sorriem para as câmeras como se tivessem anotado um golaço.

Fiquei sabendo, aliás, que ontem teve um sorteio de alguma coisa relacionado à próxima Copa. Juro que não sei do que se trata. Ignorei as manchetes e mudei de canal quando a TV tocou no assunto. Vi de raspão que teve Ivete Sangalo, políticos, cartolas e outros clichês. Dá um pouco de preguiça e um certo asco. Tenho certeza que aquele circo que estava ao vivo na televisão nada tem a ver com a minha paixão de infância. E também tenho estou seguro de que não perdi nada muito interessante.

É até chato dizer de novo que o Ricardo Teixeira isso, o Ricardo Teixeira aquilo, a Globo isso, a Globo aquilo, o ministro isso, o ministro aquilo… Todo mundo já sabe. A novidade, para mim mesmo, foi que a avacalhação de quem manda no nosso futebol é tamanha que pela primeira vez sobrepujou meu prazer em consumir futebol. Fui tomado da sensação mais genuína de rejeição. A brincadeira simplesmente perdeu a graça. Até 2014, só vou acompanhar os bastidores a contragosto para não ficar totalmente por fora do que acontece no mundo do esporte.

Cheguei a pensar que essa abstração quer dizer que eu perdi a paixão. Talvez signifique apenas que eu gosto simplesmente de futebol, e não necessariamente de futebol profissional. O negócio é bola rolando. Afinal, não sinto interesse por ver as notícias da Copa, mas posso sentar num banquinho e assistir por horas à pelada pós-expediente que rola na quadra do Parque do Povo, logo à frente do escritório onde bato cartão. E, se sentar alguém do meu lado, pode até sair uma mesa redonda improvisada bem ali na praça, no meio do caos urbano de São Paulo. Não vai ter Axé nem cartolas nem purpurinas. E não vai fazer a menor falta…

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‘A verdade vai aparecer’

Isso não tem nada a ver. É uma coisa que vem da Inglaterra. Eles querem é tirar uma onda. A verdade vai aparecer
Zagallo, sobre as denúncias contra Ricardo Teixeira, em entrevista ao UOL

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Por Márvio dos Anjos
Editor do Destak – RJ

Há tempos que eu não escrevo sobre futebol. A suspeita de que o Santos 4 x 5 Flamengo da última quarta pode ter sido o jogo mais emocionante que já vi me fez abandonar Amy Winehouse, a Noruega e o casamento gay. Futebol, como se sabe, é assunto extremamente sério. Sou da opinião de que o futebol concedeu ao brasileiro a permissão de sonhar que o país tinha jeito.

O Santos 4×5 Flamengo da última quarta é parente de um futebol que, por ter 32 anos, não vi: aquele dos ataques generosos e das defesas quixotescas dos anos 50 e 60, de Pelé, Garrincha, Telê. Um pé na pelada e outro na epopeia. Exultante, meu pai me ligou dizendo que o Flamengo “tinha atravessado o mar Vermelho!”. Não sei dizer exatamente quem seria Moisés e os isaraelitas e quem seriam os egípcios e o mar Vermelho, mas entendo perfeitamente o que ele quis dizer.

Raramente se vê um time reverter uma desvantagem de 3 a 0. Em 2000, o Vasco conseguiu isso numa final de Mercosul sobre o Palmeiras, na noite em que, com três gols, um Romário possuído suplantou até mesmo a expulsão de seu colega Júnior Baiano e levou a taça a São Januário. Não tenho muitos outros exemplos na ponta da língua.

A partida foi tão generosa em dramaticidade que, além da profusão de gols, teve pênalti perdido (Elano) e gol inacreditavelmente desperdiçado (Deivid, trocando passes consigo mesmo). Aliás, teve até sequestro de pai.

E um conflito de gerações. De um lado, Neymar, que decreta a volta da escravidão aos zagueiros, submetendo-os às suas vontades improvisadas ao cúmulo de humilhar um beque tão cavalheiro quanto Ronaldo Angelim – que merece, mais do que o prêmio Fair Play da Fifa, uma indicação ao Nobel da Paz.

Do outro, Ronaldinho. Se não é mais o tirano dos campos que um dia foi (como Neymar hoje é), ainda sabe fazer uma barreira levitar, a fim de dar à bola o mais curto atalho para o gol. Aos 32 anos, o gaúcho ainda reserva algumas façanhas por realizar. Desde ontem, ele também é o cara que ensinou à nova geração de craques e torcedores a reação impossível, com arte nos pés e raça nas vontades.

Não é sempre que se pode aprender uma lição dessas. Que Ganso e Neymar guardem isso para 2014.

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Meu desejo é ficar = quero ir para a Europa, mas vou fazer média com a torcida

Não penso em sair daqui = por enquanto, só veio proposta da Ucrânia

Não me sinto reserva = estou com medo de nem ser relacionado

Não me sinto titular = sou foda, mas preciso fingir que sou humilde

Estamos tomando gols bobos = nossa zaga é uma merda

Agora é hora de ter vergonha na cara = se depender do futebol, ferrou

Prefiro ser campeão a artilheiro = não vou passar a bola nem que a vaca tussa

O grupo está unido = tem panelinha, mas disfarçamos bem

Eu não me importo com as vaias = choro escondido no vestiário

Se o professor quiser, jogo até no gol = desespero pra entrar no time

Eu não pedi aumento = eu pedi, mas o clube não aceitou

Quem está cuidando disso é o meu empresário = eu já disse a ele que quero ir embora

Não vou comemorar gol contra o meu ex-time = vou fingir que sou maduro

Aqui eu me sinto em casa = foi o único clube que me quis

A torcida tem o direito de protestar = por que não ficaram em casa?

Não tem mais bobo no futebol = ainda tem bobo no futebol

Não tem nada decidido = já era

Clássico é decidido no detalhe = se perder, a culpa é do detalhe

A imprensa fala muita bobagem = publicam na íntegra tudo o que eu digo na entrevista

Ainda sinto um desconforto muscular = chinelinho

É complicado jogar quarta e domingo = volto tarde da balada

Não forcei o terceiro cartão amarelo = precisava de um final de semana de folga

Eu respeito a decisão do técnico = preciso de aliados para fritá-lo

O gramado estava muito pesado = chuto torto mesmo

Tem dia que nada dá certo = vou botar a culpa na astrologia

Estamos no caminho certo = alguém tem um GPS?

Preciso de duas semanas pra ganhar ritmo = estou gordo

Agora é hora de botar o coração na ponta da chuteira = vou jogar com chuteira laranja

É uma honra vestir a camisa do Brasil = Europa, aí vou eu!

Precisamos corrigir os erros para o 2º tempo = achar uma forma de não perder de goleada

Nós fomos claramente prejudicados pela arbitragem = me joguei e não deram pênalti

Deixo o clube com o coração partido = estou rico!

Uma hora a bola vai entrar = serei sacado do time

Vou dar um tempo aqui no Twitter = implorem para que eu não cancele a conta

Não foi o placar desejado, mas estamos evoluindo = perdemos de novo

A concentração faz o grupo ficar mais unido = campeonato de PlayStation

Eu sonhei com o gol do título = trago o amor perdido em 7 dias

Ainda tenho mais 5 anos pela frente = Showbol no ano que vem

Nós somos uma grande família = a caminho do divórcio

O placar não foi justo = Deus, aquela bola precisava bater na trave?

Vamos jogar com raça e determinação = não sei chutar de trivela

A ficha ainda não caiu = sou campeão, seus bostas

Tem que respeitar o adversário = vitória garantida

Essa torcida é maravilhosa = ainda bem que ganhamos

O futebol é a minha vida = foi o que sobrou

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Em um ano que ficará marcado pelo início do levante árabe, no qual alguns dos piores ditadores do mundo foram (serão?) derrubados, o público brasileiro acompanha a perpetuação de dois dirigentes em seus cargos. Ricardo Teixeira, na CBF, e Joseph Blatter, na Fifa. Será que é possível o futebol se ver livre dos dois?

Muito se fala que, no caso de Teixeira, a imprensa é culpada, pois empresas de comunicação o apóiam ou, no mínimo, são omissas. Blatter não tem tanto apoio, mas é fato que falta aos maiores jornais do mundo acompanhar a Fifa de perto. De qualquer modo, apenas pressão da imprensa não tira nenhum poderoso de seu lugar. O que os jornais e TVs podem fazer é propagar uma notícia que deslegitimize tal dirigente. No caso de Teixeira, precisaria ser algo grande o suficiente para que as empresas de comunicação omissas vissem com menos preocupação seus interesses do que a possibilidade de perder credibilidade por não noticiar algo. Isso ainda não aconteceu no Brasil.

Um segundo fator é o público. A campanha #foraricardoteixeira, censurada pelo Twitter e depois substituída pelo #caiforaricardoteixeira, não fará nem cócegas no dirigente. O “Change Fifa” que o Esporte Fino usa no Twitter também não. O que os fãs do futebol podem fazer – e eles têm poder para isso – é mexer com os bolsos da CBF e da Fifa. A melhor forma de fazer isso seria boicotar as empresas que patrocinam as entidades. Para saber quais são, basta entrar nos sites da CBF e da Fifa e ir até o pé da página inicial. Nenhuma empresa – nenhuma – quer ser boicotada.

O terceiro aspecto gira em torno daqueles dirigentes que estão logo abaixo dos cabeças. Neste caso, Teixeira está bem melhor que Blatter. O brasileiro, até distribuindo títulos nacionais antigos, esmagou a oposição do São Paulo e tem quase todos os outros times em sua mão. Com Blatter, a coisa é um pouco diferente. As associações de futebol da Inglaterra e da Escócia estão indignadas com os últimos ocorridos na Fifa. Nesta semana, quem se revoltou foram os maiores clubes europeus. Karl-Heinz Rummenigge, presidente do Bayern de Munique e da Associação de Clubes Europeus, afirmou ao Guardian que “esse é o momento de intervir” na Fifa.

É assim que se derruba um dirigente. Com pressão pública, pressão econômica e mobilização daqueles que podem substituí-lo. Hoje, parece impossível tirar os dois de lá, mas até 25 de janeiro também parecia impossível tirar Hosni Mubarak de Heliópolis.

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Dhani Harrison Ayrton Wilbury é um cara de sorte. Ainda criança já estava empunhando sua guitarra ao lado de gente que para ele era apenas amiga da família. Mas que, para todos nós, é inatingível.

O primeiro nome revela o amor que o pai tinha pela F-1. E, claro, a torcida devota que nutria por Ayrton Senna. Em uma famosa entrevista do pai (em casa) ao lado de dois velhos amigos, um pôster de Senna com a McLaren aparece na parede.

Bom, vamos parar com gracinhas pseudo-enigmáticas. Ayrton Wilbury é um nome inventado por Dhani Harrison, único filho do ex-Beatle George Harrison.

Em 1988, quando Dhani tinha 10 anos, George Harrison formou a sensacional banda Travelling Wilburys, ao lado de ninguém menos do que Bob Dylan, Roy Orbison, Tom Petty e Jeff Lynne.

Ao melhor estilo “Ramones”, todos adotaram o mesmo sobrenome nos créditos dos álbuns. George, por exemplo, era Nelson Wilbury. Bob Dylan, Lucky Wilbury. E por aí vai…

Foram dois discos gravados, embora logo de cara a banda tenha sofrido um grande desfalque. Em dezembro de 1988, Lefty Wilbury (ou melhor, Roy Orbison), partia dessa para melhor. Aqui, uma bela homenagem dos Wilburys.

Somente com o lançamento de um caixa reunindo os dois discos da banda e material raro, em 2007, ficamos sabendo da existência de Ayrton Wilbury. Sim, porque Dhani, então com 10 anos, chegou a tocar guitarra e fazer backing vocals em algums músicas.

Passaram-se 23 anos. Além de Orbison, já morreram o próprio George Harrison e Ayrton Senna.

Dhani, que é a cara do pai, tem a própria banda. Já Ayrton Wilbury segue apenas adormecido. Talvez ressurja em algum dos tributos que seus “pais”, George e Senna, sempre vão merecer.

Veja o clipe da linda “Handle With Care”, dos Travelling Wilburys.

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Era segunda-feira, e naquele mês eu podia atrasar o horário de fazer lição de casa porque durante algumas horas havia outra prioridade: a Copa do Mundo. Minha primeira Copa, a primeira que me lembro bem. Naquele dia chovia em Puebla e todo mundo dizia que o jogo seria espetacular, grande rivalidade, e um dos dois seria eliminado. É o primeiro jogo que me lembro ter visto do Uruguai, clássico contra a Argentina pelas oitavas de final do Mundial de 1986.

Eu era um moleque de 9 anos e não tinha idade pra entender a bobagem que era o ódio de alguns brasileiros aos argentinos. Torcia contra, simplesmente. E tinha raiva “deles” de graça. Acontece que, naqueles tempos, o Uruguai era o segundo maior rival. O ideal era que um empate eliminasse os dois, algo evidentemente não previsto no regulamento.

O Uruguai tinha Enzo Francescoli e dos outros não me lembro sem ler a escalação. A Argentina tinha Maradona e um cara que eu achava ter o nome mais engraçado do mundo, o Burruchaga. Porra, Burruchaga é bem engraçado. A Argentina passou para a segunda fase em primeiro no seu grupo, o Uruguai passou por índice técnico, depois de fazer ridículos dois pontos e ser massacrado por 6 a 1 pela monstruosa Dinamarca.

Torci pelo Uruguai. Torci bastante. A Argentina fez 1 a 0 no fim do primeiro tempo e eu torcia pro jogo ir pros pênaltis, porque aí eu teria mais tempo até ter de começar a fazer a lição de casa. Não aconteceu. Os argentinos seguiram para o histórico confronto contra a Inglaterra, nas quartas de final, e o Uruguai dançou.

O Uruguai metia medo e, depois da Copa de 1990, virou um gatinho manso, um arremedo de seleção, a quarta ou quinta força da América do Sul. Mas este Uruguai ressurgiu. Com bom trabalho com a garotada, já terminou em quarto na Copa de 2010 e agora ganhou a Copa América. Jogadores sujos de terra, cheios de raça, que defendem a camisa azul com um amor que salta aos olhos.

É bom reencontrar o Uruguai. É bom ter de novo na Celeste uma grande seleção. É bom lembrar de quando a lição de casa podia ficar pra depois do jogo.

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São duas Copas do Mundo, duas medalhas de ouro olímpicas e nada menos do que 14 títulos de Copa América. Nas últimas décadas, a grandeza do futebol uruguaio ficou escondida. Por um lado, porque a própria Celeste perdeu força; por outro, porque foi ofuscada pelo protagonismo dos vizinhos Brasil e Argentina.

O vídeo abaixo, que foi produzido por torcedores uruguaios em alusão à vitória contra os argentinos na semana passada, consegue traduzir duas coisas: a fortaleza e a tradição dos nossos vizinhos e a intensa e curiosa rivalidade que eles nutrem com o país de Maradona e Messi.

Ao mesmo tempo em que um não admite perder para o outro, o sentimento de identificação é inevitável. Ligados pelo Rio da Prata, compartilham gostos, hábitos e tradições. Das parrillas ao doce de leite; do corte de cabelo com mullets ao idioma, que parece ser uma versão do castelhano aplicada apenas a esses dois povos. Até os mesmos canais de televisão e revistas semanais são consumidos nos dois lados da fronteira.

Confira a paródia abaixo, alusiva a um comercial da Coca-Cola, e veja um pouquinho do bom-humor dos uruguaios, que aos poucos voltam a ao grupo de elite do futebol internacional.

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#COISADABOA

Ousado e polêmico. Adjetivos obrigatórios para classificar o novo comercial da Nike dedicado a quem gosta de correr. A marca trata a atividade física como um vício, algo que tem sempre apelo para o público jovem. #COISADABOA aborda diversos temas que caberiam também aos fumantes, alcoólatras, ninfomaníacos e companhia.

Não é de hoje que a Nike pensa em peças publicitárias como forma de provocar impacto. Dessa vez, não foi preciso convocar estrelas patrocinadas. O protagonista é quem está em casa, amarrando os cadarços e se preparando para mais uma corrida.

Já fui um corredor mais assíduo. Participei de diversas provas de rua e percorri trajetos absurdos, como fazer um “bate e volta” da Mooca à Avenida Paulista. Hoje, sobraram apenas singelas voltas pela praça. Sinto falta dessa época. É o que posso chamar de terapia. Não apenas por conhecer seus limites físicos, mas principalmente por entender que aquilo depende apenas de sua vontade (e de sua preguiça).

E você enxerga adversários que não existem. Fica bravo de ser ultrapassado por aquele senhor de 60 anos com panturrilhas de aço. Sorri discretamente quando supera aquele rapaz que disparou por 10 minutos e depois não conseguiu manter o ritmo. Ao mesmo tempo, acena com a cabeça para pessoas que nunca viu na vida. É um reconhecimento recíproco, que estimula a completar os próximos quilômetros.

Naquele momento você simplesmente se esquece da rotina de trabalho e família. E vai atrás de algo sem nome. Um esforço muitas vezes solitário e não percebido pela maioria. Muito além da preocupação com a saúde e forma física, benefícios secundários e consequência natural da prática esportiva. O negócio é correr por correr. Para alimentar o vício.

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A cultura esportiva

Desde o sucesso na Copa do Mundo, se convencionou lembrar o diminuto tamanho da população do Uruguai (3,3 milhões) para elogiar a Celeste. Desconfio que esse elogio partiu da imprensa americana que, acostumada ao cartesianismo das estatísticas, procura racionalizar aspectos do futebol que brasileiros, argentinos, italianos, alemães e outras populações que acompanham o futebol há mais tempo nem se importam. De todo modo, analisemos o sucesso uruguaio sob esse prisma.

Quem comenta o tamanho da população e o sucesso dos times de futebol do país – seleção na final da Copa América, quarta colocada na Copa do Mundo, sub-17 vice-campeão mundial (3 a 0 no Brasil na semifinal) e Peñarol vice da Libertadores – deixa implícito que é alta a proporção de talento dentro da população. O Brasil, em contrapartida, com 190 milhões da habitantes, não conseguiu produzir talento suficiente para ficar na frente do Uruguai em vários desses torneios.

Esse raciocínio poderia ser invocado também em momentos ruins do futebol uruguaio. A tese seria “como a população é muito pequena, eles não conseguem formar grandes times”. A mim, o que parece é que o tamanho da população é apenas um fator (bem pequeno) na equação do sucesso. O que conta mais é a cultura esportiva que ali existe.

No Uruguai, a cultura futebolística é dominante no cenário esportivo, mais do que no Brasil, onde há muita gente que não gosta (gostar e entender são coisas diferentes) de futebol e muitos outros que preferem outros esportes. Assim, como é grande a proporção de futuros esportistas que se dedica ao futebol no Uruguai, é normal que eles tenham uma seleção de alto nível. O tamanho da população seria, apenas, uma barreira para que a renovação se desse de forma mais rápida.

Isso tudo faz pensar no que seria da seleção brasileira se o Brasil tivesse uma população pequena como a do Uruguai. Provavelmente o Brasil seria uma equipe, como o Uruguai, com sucessos intermitentes. Lá, como aqui, o jogador de futebol surge apesar (e não graças a) da estrutura existente no país.

Se o Brasil tratasse pelo menos o futebol como os Estados Unidos tratam todos os seus esportes (criando uma estrutura profissional, racional, baseada nos colégios e universidades) é certo que teríamos campeonatos muito melhores, seleções de base muito mais preparadas e uma seleção principal sempre dominante. Isso sem contar os benefícios sociais que essa estruturação traria para o país.

O problema é que a estrutura atual (das favelas, da chuteira rasgada, do semi-amadorismo) é lucrativa para empresários e dirigentes que dela se aproveitam. Não fosse a CBF comandada por certo tipo de gente, seria papel da própria entidade, em parceria com o governo, criar um sistema “americano”.

Hoje, a situação (precária) atual do futebol brasileiro parece imutável. Mas há uma perspectiva para médio prazo com a saída de Ricardo Teixeira da CBF, que ele promete para 2014. Resta saber o que precisa acontecer até lá para que as coisas mudem para melhor.

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