Por André de Cervantes
Escritor de fim de semana e um otimista inveterado
“É um tapa na cara da sociedade”.
(Datena, José in Brasil Urgente).
A gente pode até concordar que o adiamento da partida entre Santos e Botafogo pela 21ª rodada do Brasileirão não chega a ser um desastre e que dificilmente vai comprometer o resultado final da competição. Mas não dá para fechar os olhos à gravidade da coisa quando olhamos o contexto e o significado desse desmando. A mudança arbitrária no calendário reforça o fato de que a CBF faz o que quer, quando quer e como quer e que está se lixando para a opinião pública.
Para quem ainda não viu, a alteração de data em cima da hora fere o regulamento da própria CBF, segundo o qual adiamentos desse tipo só podem ser feitos com antecedência superior a dez dias. Mas, mesmo com a irregularidade sendo noticiada aos quatro cantos, nada acontece e não há nenhuma chance de que a entidade se sinta pressionada a recuar.
A invulnerabilidade da CBF e, sobretudo, de seu mandatário parece um mistério. Ambos são alvos de CPIs, denúncias, pressão popular, investidas de todos os tipos… Mas eles nunca são verdadeiramente atingidos. Passa o tempo e lá está Ricardo Teixeira firme e forte, desdenhando dos seus críticos em entrevista à revista Piauí, e colocando a sua máquina para funcionar.
O mito de que o presidente da Confederação é intocável ganha corpo por meio da comparação com Antonio Palocci e outros tantos ministros superpoderosos, que caem um atrás do outro, como se estivessem brincando de dominó no Planalto. As denúncias estampadas nas páginas dos jornais tiveram poder para derrubar rapidinho o homem mais poderoso do País na gestão de Dilma Roussef, mas não fazem cócegas em Teixeira.
Como é possivel?
Não só é possível, como tem lógica.
O fator decisivo que sustenta Ricardo Teixeira no poder não é só a adesão da Globo, como muito se tem dito, mas a diferença entre a esfera pública e uma entidade amorfa como a CBF.
O grande capital de um político é trabalhar para gerar nos cidadãos comuns uma percepção positiva, já que seu poder decorre do voto popular. Portanto, qualquer prejuízo de imagem é sensível para o político e seus aliados. Mesmo que o político não concorra ele mesmo a eleições, se for envolvido em denúncias, pode trazer desgaste para os aliados que lhe deram cargo de ministro, secretário e afins e, dessa maneira, se tornar um estorvo a ser eliminado.
No caso da CBF, para o presidente se manter no poder, basta se entender com as federações e clubes em conversas reservadas, que muitas vezes envolvem mais favores pessoais (ou a um clube ou federação) do que princípios éticos ou compromisso com o desenvolvimento do futebol. E se o debate não está em foro público e não atende a princípios éticos, a sustentação do candidato tem baixa correlação com denúncias que aparecem nos jornais e nas redes sociais – a não ser que condenado judicialmente. Simples assim.
A boa notícia é que a “intocabilidade” de Teixeira é só um mito, e que está cada vez mais perto de ser desconstruído. Ocorre que as manifestações políticas que pretendem tirá-lo do poder ainda não atingiram o estágio final, talvez o único que possa de fato incomodar o cartolão. De toda forma, o movimento está cada vez mais quente e mais maduro, ganhando aderência e credibilidade.
Teixeira vai perder força com sua base quando deixar de arregimentar patrocinadores em peso para financiar as atividades da CBF e das federações. É no bolso que a coisa pesa. Mas como é possível que isso aconteça se o futebol representa um mercado e uma exposição magnífica para qualquer empresa dentro e fora do Brasil?
Não é tão impossível quanto parece.
Primeiro, porque para causar estrago não é preciso que os contratos de patrocínio deixem de ser polpudos. Eles podem até ser milionários ou bilionários; basta que fiquem abaixo do seu potencial e que as federações percebam isso. Aí um pouco do estrago já estará feito.
Esse cenário pode se tornar mais visível quando as grandes empresas se sentirem constrangidas por associar seu nome não apenas à Seleção, mas a um cartola caracterizado no imaginário popular como sinônimo de denúncias e escândalos.
Organizações comerciais não vivem de votos, mas precisam zelar por sua marca, o que interfere diretamente no resultado financeiro ao final do trimestre, quando o balanço é apresentado aos acionistas. Portanto, as empresas também precisam trabalhar para gerar uma boa percepção no cidadão comum e não querem ver seu nome associado a um foco de escândalos. Tampouco desejam ser caracterizadas como as organizações que financiam a longevidade de um dirigente tão… Maléfico…
Se o barulho do movimento que ganha força em jornais, redes sociais, estádios e manifestações de rua passar a uma nova fase e começar a questionar os patrocinadores, Teixeira corre o risco de ser pressionado pelas empresas que já apóiam a CBF ou de se tornar um passivo na negociação de contratos futuros. E aí, não visão de quem o elege, ele pode não ser mais o chefe a ser bajulado, mas o homem que impede que a CBF e as federações ganhem o quanto podem.
No site da CBF, a lista de patrocinadores mostra empresas como Nike, Itaú, Vivo, Guaraná Antártica, Seara, Nestlé, Extra, Gilette, Volkswagen e TAM, muitas delas apoiadas em discursos de sustentabilidade e governança corporativa. Será que faz diferença? Tomara que sim…
Por enquanto, o tapa é só na cara da sociedade. Mais adiante, pode pegar gente muito mais graúda do que o cidadão comum…
Compartilhe!
Tweet






