Do fundo do baú para agosto, 2011

Por André de Cervantes
Escritor de fim de semana e um otimista inveterado

“É um tapa na cara da sociedade”.
(Datena, José in Brasil Urgente).

A gente pode até concordar que o adiamento da partida entre Santos e Botafogo pela 21ª rodada do Brasileirão não chega a ser um desastre e que dificilmente vai comprometer o resultado final da competição. Mas não dá para fechar os olhos à gravidade da coisa quando olhamos o contexto e o significado desse desmando. A mudança arbitrária no calendário reforça o fato de que a CBF faz o que quer, quando quer e como quer e que está se lixando para a opinião pública.

Para quem ainda não viu, a alteração de data em cima da hora fere o regulamento da própria CBF, segundo o qual adiamentos desse tipo só podem ser feitos com antecedência superior a dez dias. Mas, mesmo com a irregularidade sendo noticiada aos quatro cantos, nada acontece e não há nenhuma chance de que a entidade se sinta pressionada a recuar.

A invulnerabilidade da CBF e, sobretudo, de seu mandatário parece um mistério. Ambos são alvos de CPIs, denúncias, pressão popular, investidas de todos os tipos… Mas eles nunca são verdadeiramente atingidos. Passa o tempo e lá está Ricardo Teixeira firme e forte, desdenhando dos seus críticos em entrevista à revista Piauí, e colocando a sua máquina para funcionar.

O mito de que o presidente da Confederação é intocável ganha corpo por meio da comparação com Antonio Palocci e outros tantos ministros superpoderosos, que caem um atrás do outro, como se estivessem brincando de dominó no Planalto. As denúncias estampadas nas páginas dos jornais tiveram poder para derrubar rapidinho o homem mais poderoso do País na gestão de Dilma Roussef, mas não fazem cócegas em Teixeira.

Como é possivel?

Não só é possível, como tem lógica.

O fator decisivo que sustenta Ricardo Teixeira no poder não é só a adesão da Globo, como muito se tem dito, mas a diferença entre a esfera pública e uma entidade amorfa como a CBF.

O grande capital de um político é trabalhar para gerar nos cidadãos comuns uma percepção positiva, já que seu poder decorre do voto popular. Portanto, qualquer prejuízo de imagem é sensível para o político e seus aliados. Mesmo que o político não concorra ele mesmo a eleições, se for envolvido em denúncias, pode trazer desgaste para os aliados que lhe deram cargo de ministro, secretário e afins e, dessa maneira, se tornar um estorvo a ser eliminado.

No caso da CBF, para o presidente se manter no poder, basta se entender com as federações e clubes em conversas reservadas, que muitas vezes envolvem mais favores pessoais (ou a um clube ou federação) do que princípios éticos ou compromisso com o desenvolvimento do futebol. E se o debate não está em foro público e não atende a princípios éticos, a sustentação do candidato tem baixa correlação com denúncias que aparecem nos jornais e nas redes sociais – a não ser que condenado judicialmente. Simples assim.

A boa notícia é que a “intocabilidade” de Teixeira é só um mito, e que está cada vez mais perto de ser desconstruído. Ocorre que as manifestações políticas que pretendem tirá-lo do poder ainda não atingiram o estágio final, talvez o único que possa de fato incomodar o cartolão. De toda forma, o movimento está cada vez mais quente e mais maduro, ganhando aderência e credibilidade.

Teixeira vai perder força com sua base quando deixar de arregimentar patrocinadores em peso para financiar as atividades da CBF e das federações. É no bolso que a coisa pesa. Mas como é possível que isso aconteça se o futebol representa um mercado e uma exposição magnífica para qualquer empresa dentro e fora do Brasil?

Não é tão impossível quanto parece.

Primeiro, porque para causar estrago não é preciso que os contratos de patrocínio deixem de ser polpudos. Eles podem até ser milionários ou bilionários; basta que fiquem abaixo do seu potencial e que as federações percebam isso. Aí um pouco do estrago já estará feito.

Esse cenário pode se tornar mais visível quando as grandes empresas se sentirem constrangidas por associar seu nome não apenas à Seleção, mas a um cartola caracterizado no imaginário popular como sinônimo de denúncias e escândalos.

Organizações comerciais não vivem de votos, mas precisam zelar por sua marca, o que interfere diretamente no resultado financeiro ao final do trimestre, quando o balanço é apresentado aos acionistas. Portanto, as empresas também precisam trabalhar para gerar uma boa percepção no cidadão comum e não querem ver seu nome associado a um foco de escândalos. Tampouco desejam ser caracterizadas como as organizações que financiam a longevidade de um dirigente tão… Maléfico…

Se o barulho do movimento que ganha força em jornais, redes sociais, estádios e manifestações de rua passar a uma nova fase e começar a questionar os patrocinadores, Teixeira corre o risco de ser pressionado pelas empresas que já apóiam a CBF ou de se tornar um passivo na negociação de contratos futuros. E aí, não visão de quem o elege, ele pode não ser mais o chefe a ser bajulado, mas o homem que impede que a CBF e as federações ganhem o quanto podem.

No site da CBF, a lista de patrocinadores mostra empresas como Nike, Itaú, Vivo, Guaraná Antártica, Seara, Nestlé, Extra, Gilette, Volkswagen e TAM, muitas delas apoiadas em discursos de sustentabilidade e governança corporativa. Será que faz diferença? Tomara que sim…

Por enquanto, o tapa é só na cara da sociedade. Mais adiante, pode pegar gente muito mais graúda do que o cidadão comum…

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Há alguns meses, eu fiz um teste sobre comportamento econômico publicado em uma revista. Eu caí no grupo das pessoas que guardam muito dinheiro, mas que não sabem investir bem. No mundo do futebol, pelo menos uma pessoa cairia no mesmo grupo que eu: o técnico do Arsenal, Arsene Wenger.

O francês, que já levou o time a um título invicto e à final da Champions League, o que não é pouco, decidiu usar o pão-durismo como tática de protesto contra os altos valores do futebol. Wenger conseguiu quase 60 milhões de libras vendendo Nasri e Fábregas, mas não contratou nenhum jogador de destaque alegando que os preços eram absurdos.

Hoje, último para as transferências, anunciou André Santos, “amado” pelo torcedor da seleção brasileira, e deve confirmar o zagueiro alemão Mertesacker. Convenhamos que nenhum dos dois vai fazer o Arsenal figurar entre os quatro melhores da Premier League, onde possivelmente estarão os dois Manchesters, Chelsea e Liverpool.

Mas qual é a ideia de Wenger? Eu, se não sei investir meu dinheiro, posso ficar sem um rendimento dois ou três pontos porcentuais. Wenger, ao não contratar ninguém (mesmo com os donos do time falando que há dinheiro em caixa), deixa milhares de torcedores preocupados e sujeitos a humilhações como o 8 a 2 do domingo passado.

A história de Wenger no Arsenal é bonita, mas no momento em que ele, para fazer um protesto, arrasta o time a torcida junto, chegou a hora de sair.

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Ricardo Gomes e a tristeza

O torcedor só está acostumado a sentir tristeza quando seu time perde. Por isso mesmo, episódios como o de Ricardo Gomes provocam uma comoção que vai além da rivalidade. Colocam as pessoas a pensar sobre o imponderável, muito além do gol bonito ou do impedimento mal marcado.

O que difere o AVC sofrido pelo treinador do Vasco daquele caso conhecido na família, ou ainda do porteiro do seu prédio que foi aposentado por invalidez? Nada. Mas o problema é que, por mais dor que uma derrota provoque, o torcedor vai ao estádio para se divertir de alguma forma. É uma válvula de escape da rotina de trabalho, família e carro que está fazendo barulho há três semanas.

Então, choca ver um homem como Ricardo Gomes, respeitado por todos e que já foi um baita jogador de seleção brasileira, sair do Engenhão de ambulância, sem ninguém saber se chegaria vivo ao hospital. O espanto me fez lembrar da morte de Serginho, zagueiro do São Caetano que sofreu uma parada cardíaca durante uma partida, em 2004.

E logo surgiu a hashtag #ForçaRicardoGomes para liderar os assuntos mais comentados do Twitter. Todo mundo de olho no primeiro boletim médico, na palavra dos especialistas, nas mensagens de solidariedade. Quem era Flamengo, Fluminense, Botafogo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos virou Ricardo Gomes. E a vigília se estendeu pelo fim do domingo e início dessa semana.

O futebol é um teatro a céu aberto. Drama, humor, conquista, fracasso durante 90 minutos. Mas tragédias reais não combinam com o futebol. O torcedor quer sorrir e chorar apenas por acompanhar a trajetória daquela bola. Problemas extra-campo ele já vive de monte, assim que o despertador toca na segunda-feira.

A luta vivida hoje por Ricardo Gomes nos mostra o óbvio, que sempre relutamos a encarar: a vida é mais frágil que segurar um placar de 1 a 0.

Crédito Foto: Marcelo Sadio/Site oficial do Vasco

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A revista São Paulo, que circula com a Folha de S.Paulo, teve Andrés Sanchez na capa da edição do domingo passado, dia 21. O presidente corintiano é alvo de um interessante perfil que mostra o que pensa e sua trajetória até tornar-se o novo homem forte do futebol brasileiro. Em certo momento da reportagem, o cartola é questionado sobre a possibilidade de suceder Ricardo Teixeira na CBF. Pois é aí que aparece uma declaração emblemática.

Sanchez nega que tenha esta ambição, embora não descarte, para em seguida dizer o que quer para seu futuro. “Meu desejo é ajudar o futebol brasileiro e, principalmente, o Ricardo Teixeira”, diz o cartola.

Opa. Futebol brasileiro em segundo plano. Primeiro ajuda-se o Ricardo Teixeira, principalmente ele. A frase do presidente corintiano ilustra bem o perfil do cartola brasileiro – da maior parte deles, pelo menos. Aquele que deveria ser o principal interesse fica jogado para segundo plano. A prioridade são interesses pessoais ou de seu grupo de amigos.

Enquanto gente assim der as cartas neste país, o futebol brasileiro estará apenas em segundo plano no próprio futebol brasileiro. E as derrotas ou eliminações para o Paraguai logo deixarão de ser surpresas. Serão corriqueiras.

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Foi preciso apenas um evento para mostrar que a união entre futebol e MMA não deu certo e não tem como dar certo. A mistura de passionalidade e de amadorismo impede que qualquer uma das partes – torcida, lutadores e clubes – tirem qualquer coisa de positivo da combinação.

Quando o Corinthians acertou o patrocínio com Anderson Silva, só podia ter duas intenções. Expor a marca para ganhar mais torcedores e/ou vender produtos. Eu não sou especialista em marketing, mas será que é razoável esperar que alguém pense: “olha, o Anderson Silva é patrocinado pelo Corinthians, vou torcer para o Corinthians!”? Vender produtos é mais factível, mas será que um lutador, por melhor que seja, tem mais apelo que um jogador?

É bom que se diga que essa “estratégia” de marketing não é exclusividade do Corinthians. O Inter também achou um bom negócio patrocinar Rodrigo “Minotauro” Nogueira. Isso sem contar Flamengo e Vasco, que têm disputado uma corrida maluca para saber quem consegue entregar uma camisa antes para todo tipo de celebridades, de Barack Obama a Kelly Slater. Qual o pensamento por trás disso? “Eu não tenho estádio, mas olha só quem eu estou patrocinando!” “Meu time não tem CT, mas olha quem está exibindo a minha camisa na Globo.com”.

Para os lutadores, a coisa toda também não faz sentido, como lamentavelmente provou Anderson Silva. Um jornalista-torcedor (?) entregou uma bandeira do Flamengo para o adversário de Anderson. E deu a seguinte justificativa: “Estou vendo todo mundo falando que o Corinthians é o maior time do Brasil por causa do Anderson Silva e falei para o Okami que não é”. Convenhamos que essa disputa entre Corinthians e Flamengo tem um lado patológico forte, afinal, ambos se sobressaem apenas no quesito torcida. Seria como o Schalke 04 dizer que é o maior time da Alemanha. Mas o caso é que a torcida rubro-negra entrou na dança. E, ao comemorar a vitória, Anderson foi obrigado a ouvir gritos de “mengo”, como se viessem de inimigos, e não de seus torcedores.

Na entrevista coletiva, Anderson estava claramente chateado. Maurício Shogun, perguntado se aceitaria patrocínio de clube, disse que sim por ser “profissional”, mas ponderou que o torcedor sempre coloca a paixão pelo time à frente. O que Shogun percebeu é que antes de os lutadores entrarem nesta barca (furada), precisam entender que ter o patrocínio de um time implica, necessariamente, em despertar inúmeras antipatias.

Quanto aos times, o que dizer? Lutar por um calendário que permita fazer turnês pela Ásia e expandir a marca de verdade é difícil. Dar uma camisa para o Kelly Slater, ação cujo impacto é próximo de zero, é fácil. Difícil é estruturar uma equipe de vôlei, atletismo ou basquete e conquistar espaço com os torcedores desses outros esportes, fácil é patrocinar atletas que já estão no auge. É difícil manter a expectativa de que os clubes brasileiros possam se tornar profissionais de verdade. O amadorismo é, não só arraigado, como enaltecido por aqui.

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Não interessa se você tem algum interesse por lutas ou não: de um jeito ou de outro, é praticamente impossível que não tenha sido alcançado pela avalanche de matérias especiais, entrevistas e comentários de boteco e elevador sobre o UFC RIO, realizado na noite deste sábado.

Mais do que as esperadas vitórias dos brasileiros (Minotauro, Shogun e Anderson nocautearam rapidamente), a notícia central após as disputas foi a repercussão do evento, que encantou os fãs de MMA, os donos do UFC e as redes de televisão – além, de claro, os flanelinhas.

A verdade é que o volume de notícias sobre as disputas foi tão grande que se tornou uma notícia em si mesmo.

Nesse clima de euforia, muita coisa aconteceu de interessante fora do octógono. Confira abaixo uma lista de fatos curiosos e engraçados que evidenciam o barulho despertado pelo UFC Rio.

- A Rede TV!, que transmitiu as lutas ao vivo, fez história e chegou a ultrapassar a Globo com 12, 8 contra 12,6 pontos no Ibope.

- Ao longo da semana, os donos do UFC já haviam anunciado negociações para realizar um evento em Manaus, no ano que vem. Também alertaram que o número de UFCs no Brasil em 2012 poderia chegar a 5.

- Durante a transmissão, o lutador comentarista Vitor Belfort, no entanto, revelou que os irmãos Fertita, sócios majoritários, estavam tão impressionados que garantiram que o Rio é quem vai receber o próximo UFC Brasil.

- No Twitter, o evento virou assunto de quem conhecia e quem não tinha idéia do que era MMA, resultando em diálogos interessantes e engraçados.

- Celebridades, como Neymar, entraram na onda. O atacante anunciou um duelo de MMA contra Paulo Henrique Ganso durante a concentração do Santos. “22h30. A porrada vai estancar (sic)”.

- A associação de determinados lutadores com determinados clubes de futebol trouxe à baila piadinhas tradicionais. Depois que Anderson, patrocinado pelo Corinthians, bateu o japonês Yushin Okami, teve gente dizendo que só mesmo o Spider para costurar na mesma frase as palavras Corinthians, Japão e disputa de título internacional.

- A aparição de Ronaldo, cujo diâmetro não pára de aumentar, suscitou comentários dos mais diversos: alguns diziam que era o representante do Sumô no MMA. Outros diziam que era o representante certo para que a 9ine agenciasse o lutador Luiz Cane, nocauteado por um búlgaro. Cane é mais conhecido como “Banha”.

- Sem uma identidade formada, a torcida no HSBC Arena apelou para gritos mais tradicionais no futebol. Daí surgiram coros como “Eô, eô, Minotauro é um terror”.

- O inglês praticado por alguns lutadores brasileiros na entrevista pós-luta ressuscitou o clássico vídeo de Joel Santana “In de midiun, in te raitio”. Mas, justiça seja feita, os atletas se saíram incomparavelmente melhor.

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Vamos torcer para que realmente aconteça. Seria algo inédito no futebol brasileiro e mais uma demonstração de oposição à gestão do presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Segundo o jornal Lance! Informou nessa semana, mais de 20 torcidas organizadas de todo o Brasil vão aos estádios para torcer, gritar e… protestar contra o dirigente.

Distribuição de panfletos, faixas e bandeiras sendo estendidas nas arquibancadas. A polícia vai permitir? As emissoras de TV vão mostrar? A Federação Catarinense de Futebol mandou avisar: o torcedor que protestar será expulso do estádio. Considera o ato como manifestação ofensiva. Interpretou o Estatuto do Torcedor de forma errônea para respaldar uma decisão retrógrada.

Resta torcer para que a ação ocorra com liberdade em outros estados. Mais um passo que poderá contribuir com a saída de Teixeira do cargo, a cada dia mais cercado por denúncias de irregularidades à frente da entidade.

O panfleto oficial exige mudanças não só na CBF, mas também no Comitê Organizador da Copa de 2014. Cita a denúncia recente de superfaturamento na organização do amistoso entre Brasil e Portugal, realizado em 2008. Sobrou até para João Havelange, que presidiu a Fifa por mais de duas décadas.

A manifestação foi uma iniciativa da Confederação Nacional das Torcidas Organizadas, criada no ano passado para discutir melhorias no futebol do país. Pela Série A, está prevista a participação de torcidas organizadas de Atlético-PR, Palmeiras, Corinthians, Santos, São Paulo, Internacional, Ceará, Atlético-MG e Cruzeiro; pela Série B: Goiás, Santa Cruz, Portuguesa, Náutica, Guarani e Ponte Preta.

Se o protesto vingar, será o melhor resultado da rodada. Uma maneira fantástica de terminar o primeiro turno do Campeonato Brasileiro. Além disso, a iniciativa pode render uma nova faceta às torcidas organizadas, tão estigmatizadas e criticadas quanto o alvo dos protestos. Tem tudo para ser um domingo histórico.

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Já não se ouvia mais nenhum carro passando do lado de fora quando ele se rendeu aos pensamentos e desistiu de dormir.

A cama era dura e o companheiro de concentração, barulhento; mas, no fundo, o que o mantinha acordado naquela madrugada fria era a estranha sensação de que uma ficha amarga estava para cair na sua consciência.

A estréia na Copa São Paulo de Juniores, no dia seguinte, era sinônimo de indiferença: não chegava a causar empolgação, mesmo sendo sua primeira vez diante de uma grande torcida, e tampouco provocava incômodo, ainda que ele soubesse que figuraria como coadjuvante assistindo à partida do banco de reservas.

Com uma idéia fixa lhe martelando a cabeça, o aspirante a craque deu um suspiro, virou de lado e ajeitou a colcha; em seguida, se colocou a pensar sobre um tempo não muito distante em que o futebol parecia muito mais encantador.

Era o tempo em que uma partida da esperada “Copa Recreio” na oitava série tinha a importância de uma final de Copa do Mundo.

Naquela competição, ele e seus companheiros cuidavam para que cada movimento fosse realizado com esmero. Antes do apito inicial, ajeitavam o meião, davam pulos para simular cabeceios, arriscavam pequenos piques e vez ou outra engatavam um alongamento caprichado. Tudo bem encenado, no capricho, para impressionar a platéia.

Escalados para a batalha estavam os melhores entre os melhores do esquadrão da Oitava B e os melhores entre os melhores do selecionado do 1º Colegial D. Os escolhidos tinham uma grande responsabilidade, já que não iam representar apenas a si mesmos, mas a toda uma legião de estudantes da mesma série.

Com o coração na ponta da chuteira, os jogadores-alunos defendiam um uniforme que aglutinava da menina deslumbrante por quem todos se derretem ao CDF de quem todos colam; do estranho de quem cada um zomba aos discretos que ninguém percebe; e da turma do fundão que incomoda o professor à primeira fileira, que mantém acesa a esperança dos docentes.

Personagens tão distintos enfileiravam-se para apoiar um mesmo time, uma mesma classe. A ocasião era, sem dúvida, grande. Ali se desenhava o capítulo mais importante da história daquele povo, chamado Oitava B. Um legítimo épico do futebol estudantil.

Naquele contexto, a vitória valia uma enormidade: um olhar de admiração no corredor, um elogio na hora do intervalo e uma sensação de “eu sou o cara”. O que poderia ser melhor nessa fase da vida?

Em volta da quadrinha de cimento, as duas torcidas se apinhavam para encontrar um bom espaço e conferir cada movimento daquele seria o principal assunto do colégio por um bom tempo – pelo menos até que o diretor liberasse o boletim do bimestre ou que o Paulinho fosse visto em situação suspeita junto da Ana Maria.

Diante de tanta expectativa, o golaço na Copa Recreio e os afagos no corredor eram o mais próximo que o nosso personagem podia chegar do sucesso e da fama da qual via seus ídolos máximos desfrutarem. E não parecia pouco; era o que estava no cardápio para um aluno do oitavo ano e um passo natural de quem ia levar multidões à loucura no futuro.

Tudo ia bem e as conquistas colegiais se acumulavam, até que, de repente, entre o ato I e o ato II algo saiu fora do script…

Agora que o nosso herói ia jogar a Copa São Paulo, e que estava a um último passo do profissionalismo, a vontade de sonhar com o Pacaembu aos seus pés já não era a mesma. Estar tão perto do show humanizou o que era fantasia e deu forma concreta ao que só existia no seu sonho. E, na vida real, o quadro era menos colorido, menos atraente e, curiosamente… Menos viável.

Embora estivesse muito mais próximo de se tornar um jogador de verdade agora do que na época da batalha contra o 1º D, neste momento a consciência de que jamais se firmaria como um craque se mostrava muito maior. Ele sabia que era bom em um mundo que requer ser excepcional. E entendia que seus dias de atleta profissional não iriam além da segunda curva.

A ficha estava caindo.

O jovem que fez história nos times de colégio e de condomínio por onde passou, o orgulho da família, não era bom o suficiente para seguir carreira. Muito menos para virar ídolo. Por mais que se esforçasse e atuasse bem no dia seguinte ou na rodada mais adiante, sua história já estava escrita: no futuro, ele seria não um meia-atacante de grande perigo para a zaga adversária, mas um professor de educação física que – dirão seus alunos – foi um grande craque quando jovem. Não mais do que isso.

Esse enredo, no entanto, também não o desagradava.

Ficou mais fácil dormir quando ele percebeu que a mudança de curso não representaria, ao longo da vida, a dor da frustração de um sonho, mas a alegria trazida por uma coleção de doces lembranças, que são reavivadas por troféus pouco importantes ou por uniformes usados nas batalhas épicas, como aquela da Copa Recreio.

Foi desse jeito que ele se conformou, fechou os olhos e finalmente caiu no sono profundo.

Antes, em pensamento, brindou consigo mesmo em homenagem a todos os craques de condomínio, de campeonato de interclasses e de futebol de várzea deste mundo.

Então é isso, meu amigo: cheers!

E boa noite.

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Cá com meus botões

No começo era só uma chapa de MDF, que colocávamos sobre o chão. Mas aí um dia meu pai apareceu com uma mesa profissional de futebol de botão. Extremidades emborrachadas, madeira maciça e tonalidades diferentes de verde demarcando o campo. Ficamos em êxtase.

Logo surgiram as traves de rede natural e os goleiros caixa de fósforos foram substituídos por peças retangulares. E lá fomos nós recolhendo os jogos de botão comprados na Esporte Fabiano e organizando campeonatos oficiais. Nós: eu, meu irmão gêmeo e minha irmã mais velha. Cada um com sua palheta de estimação.

Vivíamos num prédio de seis andares numa região movimentada da Mooca. Não havia espaço para brincadeiras de rua. Então, todo o improviso era voltado aos jogos caseiros. Treinos coletivos, súmula, narração, cartões amarelo e vermelho, cronômetro, tabela de artilheiros, entrevistas antes e depois das partidas, juiz. Tudo isso fazia parte do campeonato.

E assim disputamos diversos torneios. Nada de adiamento de rodadas nem brigas nos bastidores. Lembro que jogava muito com o Flamengo, no campeonato nacional, e com a Alemanha, na Copa do Mundo. Havia uma caixa de sapatos repleta de clubes. Quando um botão quebrava, ia para o departamento médico imaginário, sem previsão de alta.

O futebol de botão era uma das poucas brincadeiras que nunca provoca brigas. Seguíamos regras próprias, determinadas pelo bom senso. Quando a bolinha resvalava em dois botões adversários, era sempre da defesa. Na hora do arremate, o jogador deveria avisar: “Vai pro gol”. E só poderia chutar quando o outro respondia: “Pode ir”. E na hora do gol corríamos pela sala e pela cozinha, dando murros no ar e arriscando comemorações.

O tempo passou, surgiram os vídeo-games modernos e acabamos dando a mesa de botão para o filho de um porteiro muito amigo da família. Foi uma experiência marcante na relação com os meus irmãos. Naqueles momentos, não disputávamos a atenção dos nossos pais. A cada jogo, buscávamos algo que invariavelmente seria lembrado por toda a vida. O futebol de botão foi mais importante que as aulas de Educação Moral e Cívica. Ele me ajudou a entender que irmãos às vezes competem sem se importar tanto em quem será o vencedor.

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No intervalo do futebol, na noite desta quarta-feira, a Globo levou ao ar uma chamada do GP da Bélgica de Fórmula 1. A corrida será neste domingo. Sobre imagens de Bruno Senna, uma voz perguntava: “Você se lembra deste capacete? E deste carro preto?”.

Não é preciso muitas explicações. Neste fim de semana, Bruno estreia pela Renault como piloto titular, no lugar de Nick Heidfeld. Será o primeiro carro de verdade que o brasileiro guiará na F-1, depois de ter corrido andado em 2010 com a carroça da Hispania. E a Globo já está pronta para a comparação com Ayrton.

É um filme repetido e cansativo. Barrichello já admitiu ter sido vítima desta ânsia de se encontrar o novo Senna, ao aceitar o “cargo” de futuro campeão. Bruno é um Senna, mas só no sobrenome. Saberemos se é bom piloto F-1 a partir deste fim de semana, mas por melhor que seja não será Ayrton. O novo titular da Renault (que usa o nome Lotus, mas sem ter ligação alguma com a equipe em que o tricampeão correu) tem boa cabeça e não deve cair na idiotice emotiva a que será exposto.

Bruno Senna sabe quem é e onde quer chegar. Sabe as armadilhas midiáticas que enfrentará e nunca almejou ser o “novo” nada ou ninguém. É um bom começo para ser alguém com identidade própria.

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