Eu sou daqueles que acreditam que no futebol não existe lugar para o empate.
Porque o empate é um tipo de barganha.
“Nem tanto ao céu, nem tanto à terra.”
Mas no futebol, meu nêgo, não tem concessão. Não tem para onde correr.
Na cabeça e no coração do torcedor verdadeiramente apaixonado, só existem dois pontos de chegada numa competição: o céu e o inferno.
Assim aprendemos desde pequenos.
Afinal, os efeitos colaterais de uma final de campeonato não poupam ninguém. A tsunami não faz distinção de idade, cor dos olhos ou faixa social.
Desde jovem, a gente sabe que chegou ao céu quando aquele grito, que por muito tempo esteve contido, rasga o peito e ganha o mundo com violência, sem pedir permissão.
“É campeãão, c*!”.
O peito estufa, a auto-estima cresce e o orgulho toma conta.
Depois do jogo, a gente não sabe onde guardar tanta felicidade; sai andando por aí, entoa gritos de guerra e faz todos saberem que nós somos os maiores.
O dia é nosso e, no nosso dia, a cidade também é nossa.
Todos têm que se curvar. Inclusive aquele vizinho, que foi impiedoso no nosso último revés. Temos um sorriso guardado especialmente para ele.
O céu é felicidade, vingança, volta olímpica, celebração; é tudo isso, mas, como diriam na propaganda da Polishop, “não é só isso”.
Antes de tudo, chegar à glória significa escapar do inferno.
Porque, por um detalhe, em vez de celebrar o êxito, estaríamos cabisbaixos, músculos da face congelada, sem fôlego nem energia para proferir uma única palavra, absortos diante da derrota.
No lugar do peito estufado, o sentimento de inferioridade, a dor de ver o rival gritar mais alto e a vontade de sumir quando cruzasse com o vizinho sorridente.
Andar sobre essa linha tênue sem saber de que lado você vai cair não é fácil. Principalmente porque, qual seja o seu time, você vai despencar mais vezes para o lado errado do que para o lado certo.
E em cada ataque do outro time, em cada furada do seu zagueiro, em casa suspiro mais preocupado do colega ao lado, os pensamentos negativos vão tomar conta da sua cabeça e você vai revisitar a experiência do fracasso.
É uma pressão que machuca.
E o homem, como bicho fraco que é, procura sem nem perceber as mais diversas formas de escapar dela.
Tem aquele que se coloca contra o seu próprio time numa empenhada ação de cornetagem, que no fundo é só um jeito de se desvincular da equipe em caso de derrota.
“Eu amo o meu clube, mas esses caras que estão em campo não me representam, não quero nem saber.”
Tem também o caso clássico do torcedor que, para aliviar um pouco a pressão, faz um trabalho interno no sentido de anestesiar seus sentimentos. Propositalmente, tenta tirar a importância daquela disputa na sua vida.
“To nem aí”.
Tá no direito de cada um o jeito que lida com a sua própria paixão.
O problema é que a intensidade da alegria oriunda da vitória e da dor provocada pela derrota são absolutamente correlatas. Quem não sofre no fracasso não desfruta do mesmo êxtase na hora do triunfo.
Afinal, tão doce quanto a felicidade da vitória é escapar do infortúnio da derrota.
No fim das contas, não tem saída, meu bom; quer se entregar à paixão de torcedor, tem que estar preparado para as agruras.
Precisa agüentar o vizinho, que sempre tem um clichê guardado pra você; suportar a piada sem graça do chefe, que não sabe quem é o goleiro do time dele, mas se sente no direito de tirar barato do nosso; e ter estômago e paciência para encarar as fases em que o nosso clube não se mostra tão grande quanto diz o hino.
Bastante desafiador, mas, se você é mesmo apaixonado pelo seu clube, certamente sabe de duas coisas.
Primeiro, que não adianta tentar trocar de canal, de campeonato ou de camisa, porque paixão, no futebol, só tem uma.
E segundo que, apesar de todos os infortúnios e desgostos, sempre vale a pena. No fim do dia, a gente percebe que é apaixonado pelo clube, e não pelos títulos do clube.
Por mais que às vezes a gente se esqueça disso e renuncie a ele…