É verdade, os Jogos Pan-Americanos são uma competição de baixo nível técnico. Os Estados Unidos dominam a competição mesmo mandando 90% de atletas de terceira divisão, 9% de atletas de segunda divisão e 1% do que têm de melhor. Alguns atletas de ponta de outras nacionalidades também dão o famoso Migué, basta dizer que a Jamaica conquistou em Guadalajara apenas uma medalha de ouro no atletismo – sua única em toda a competição.
Sim, o nível técnico do Pan é abaixo da crítica, como comprovaram provas como os 10.000 metros para mulheres, vencida por uma dona de casa mexicana e que rendeu a prata a uma piauiense de 37 anos que começou a correr aos 30. “Eu jogava futebol, era boleira, mas me falaram que correndo eu me sairia melhor”, disse Cruz Nonata da Silva ao UOL.
Só mesmo em uma competição de baixo nível técnico, como os Jogos Pan-Americanos, o Paraguai conquista uma medalha de bronze na natação, com Benjamin Hockin nos 200 metros livre, ou a Guatemala conquista 15 medalhas, como o ouro do atirador Sergio Werner Sanchez na pistola de 50 metros ou a prata de Andrei Gheorghe no pentatlo moderno. O nível tem de ser muito baixo para uma competição cujo torneio masculino de basquete é decidido entre Porto Rico e México ou em que Cuba empata com o Brasil no futebol.
O Pan-Americano tem baixo nível técnico a ponto dos tempos de algumas provas do atletismo serem vários minutos mais lentos que a melhor marca do ano. O vencedor da maratona, o ex-gari brasileiro Solonei da Silva, fez a marca de 2h15min45, mais de 12 minutos pior que o melhor tempo do ano.
O nível técnico do Pan-Americano é uma droga, mas e daí? Como criticar a oportunidade que o Pan dá a um atleta da Guatemala de ganhar uma medalha de ouro? Ou que permite que os dominicanos se sintam moradores de uma potência esportiva por conta de suas 33 medalhas, sete delas douradas? E daí que Cruz Nonata tem 37 anos e começou a correr aos 30? Ela desembarcou no Brasil orgulhosa de sua medalha de prata. Derrotou tantas outras para conquistar aquele sonho. Algum mexicano reclamou que apenas uma competição fraca permite que sua seleção dispute uma final masculina de basquete? Solonei estava indignado com o nível técnico do Pan quando, antes de ouvir o hino, dedicou sua vitória aos coletores de lixo do Brasil?
O Pan é uma delícia. O Pan dá oportunidades, dá alegrias que alguns atletas e países só encontram a cada quatro anos, durante duas semanas. Que só terão novamente em 2015, em Toronto. Uma competição que terá baixo nível. Mas quem se importará, quando aquela chilena sorrir e se emocionar com sua medalha de ouro? O Pan é lindo. Chatos somos nós, que ficamos pensando o tempo todo em nível técnico.
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