Do fundo do baú para outubro, 2011

É verdade, os Jogos Pan-Americanos são uma competição de baixo nível técnico. Os Estados Unidos dominam a competição mesmo mandando 90% de atletas de terceira divisão, 9% de atletas de segunda divisão e 1% do que têm de melhor. Alguns atletas de ponta de outras nacionalidades também dão o famoso Migué, basta dizer que a Jamaica conquistou em Guadalajara apenas uma medalha de ouro no atletismo – sua única em toda a competição.

Sim, o nível técnico do Pan é abaixo da crítica, como comprovaram provas como os 10.000 metros para mulheres, vencida por uma dona de casa mexicana e que rendeu a prata a uma piauiense de 37 anos que começou a correr aos 30. “Eu jogava futebol, era boleira, mas me falaram que correndo eu me sairia melhor”, disse Cruz Nonata da Silva ao UOL.

Só mesmo em uma competição de baixo nível técnico, como os Jogos Pan-Americanos, o Paraguai conquista uma medalha de bronze na natação, com Benjamin Hockin nos 200 metros livre, ou a Guatemala conquista 15 medalhas, como o ouro do atirador Sergio Werner Sanchez na pistola de 50 metros ou a prata de Andrei Gheorghe no pentatlo moderno. O nível tem de ser muito baixo para uma competição cujo torneio masculino de basquete é decidido entre Porto Rico e México ou em que Cuba empata com o Brasil no futebol.

O Pan-Americano tem baixo nível técnico a ponto dos tempos de algumas provas do atletismo serem vários minutos mais lentos que a melhor marca do ano. O vencedor da maratona, o ex-gari brasileiro Solonei da Silva, fez a marca de 2h15min45, mais de 12 minutos pior que o melhor tempo do ano.

O nível técnico do Pan-Americano é uma droga, mas e daí? Como criticar a oportunidade que o Pan dá a um atleta da Guatemala de ganhar uma medalha de ouro? Ou que permite que os dominicanos se sintam moradores de uma potência esportiva por conta de suas 33 medalhas, sete delas douradas? E daí que Cruz Nonata tem 37 anos e começou a correr aos 30? Ela desembarcou no Brasil orgulhosa de sua medalha de prata. Derrotou tantas outras para conquistar aquele sonho. Algum mexicano reclamou que apenas uma competição fraca permite que sua seleção dispute uma final masculina de basquete? Solonei estava indignado com o nível técnico do Pan quando, antes de ouvir o hino, dedicou sua vitória aos coletores de lixo do Brasil?

O Pan é uma delícia. O Pan dá oportunidades, dá alegrias que alguns atletas e países só encontram a cada quatro anos, durante duas semanas. Que só terão novamente em 2015, em Toronto. Uma competição que terá baixo nível. Mas quem se importará, quando aquela chilena sorrir e se emocionar com sua medalha de ouro? O Pan é lindo. Chatos somos nós, que ficamos pensando o tempo todo em nível técnico.

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Senhores dirigentes, integrantes da Comissão Técnica e jogadores que defendem a camisa amarela,

Vocês, como eu, já devem ter ouvido inúmeros depoimentos sobre a decadência do futebol brasileiro, o divórcio entre o povo e a Seleção nacional e outras bossas parecidas.

Compartilho um pouco dessas idéias, mas, para dizer o que gostaria, prometo ir por um caminho bem diferente.

O ponto central é o seguinte: eu acredito na porra desse País.

Acredito no País e desprezo o pachequismo na mesma medida em que dou de ombros para aquele tipo que só reclama; jura que nasceu no pior lugar do mundo; e, no limite, acha cool torcer contra o Brasil.

Eu não tenho nem 30 anos, mas sou testemunha de que as coisas, por aqui, têm jeito, sim senhor.

Cresci num País de gente pobre e miserável; prédios sujos e mal-cuidados; carros velhos e caindo aos pedaços; e uma democracia vacilante e sem credibilidade. Éramos a tal “Nação do Futuro”, mas, no fundo, o Mundo ria da gente e nos via como uma República de Bananas.

Lembro como se fosse hoje que andava por São Paulo e havia gente pedindo dinheiro, das maneiras mais criativas e desesperadas, em quase todos os semáforos. Lembro da frota de carros mal-tratada que circulava nas ruas. E lembro que o desemprego era vertiginoso.

Alguns podem dizer que foi por causa desse ou daquele ou político; outros podem dizer que aconteceu, mas apesar dos políticos… O fato é que as coisas mudaram para muito melhor, embora os pessimistas de plantão continuem alardeando que as coisas estão piores do que nunca.

Apenas oito anos atrás, o Brasil tinha 49 milhões de pessoas na Classe E e apenas 13 milhões na Classe A. Mas, de lá para cá, a base da pirâmide encolheu e o topo inchou – e assim continuará sendo. Em 2014, seremos 16 milhões na faixa E e 31 milhões na A. Sem falar da Classe Média, que passará de 66 milhões para 113 milhões…

Neste momento a antiga “República das Bananas” tem um dos Sistemas Financeiros mais bem regulados do mundo, um vigor econômico invejado pelos mercados maduros e uma fortaleza democrática bem vista por onde se vá.

No nosso próprio quintal, quando se anda pelas ruas, nota-se um mar de prédios modernos surgindo, pessoas quase sempre bem-vestidas a caminho do trabalho, uma frota de carros moderna… E muito, mas muito menos gente pedindo dinheiro ou em situação de necessidade.

Chego a pensar que parece outro lugar.

Obviamente há muito a evoluir, mas ninguém tem a intenção de defender que o Brasil é um País pronto; é, na verdade, um país jovem, em franca evolução, que pode se dar o direito de ter esperança e guardar o pessimismo na gaveta, pelo menos um pouquinho.

As condições materiais do brasileiro melhoram de forma aguda, mas, curiosamente, enquanto andamos para frente naquilo que estávamos devendo, andamos para trás naquilo que sempre fomos bons: o futebol. Nossa jóia, nosso talento, aquilo que sempre acreditamos que tínhamos no nosso DNA e que fazia de nós superiores aos europeus ricos, mas de cintura dura.

Basta lembrar do que aconteceu nos últimos cinco anos: em 2006, fomos representados por atletas que jogavam mais para si mesmos do que para a Seleção; em 2010, assistimos a um time que se pautou mais pelo que não fazer (qualquer coisa que lembrasse 2006) do que por uma identidade própria a construir; e agora vemos montes de jogadores-que-talvez-quem-sabe-um-dia-podem-vir-a-ser-craques correndo como baratas tontas com a amarelinha, sem qualquer poder de assustar as grandes seleções do planeta.

Institucionalmente, nosso futebol também cai cada vez mais em descrédito, com as denúncias seguidas que comprometem o Sr. Ricardo Teixeira; as construções de estádios com dinheiro público; e as novelas chatas e de mau gosto que envolvem dirigentes mal-educados e redes de televisão com orçamentos polpudos.

A despeito disso tudo, como eu disse, acredito que as coisas podem melhorar. E ficaria muito grato se fosse antes da Copa de 2014.

Futebol não é mais importante do que a minha família, meus amigos nem do que gente alguma. Mesmo assim, é coisa séria. A Seleção vai representar o sonho de milhões de pessoas, vai mexer com a auto-estima deste País e dar mais um recado ao Mundo de que a gente pode se erguer.

Tratando-se de uma Copa em nossa própria casa, o desafio é exponencialmente mais importante. Não acontece todo dia. Meus pais, com quase 60 anos, nunca viram uma. Senão aproveitarmos para fazer um papel digno dessa vez, vai demorar muito para ter outra chance.

É pegar ou largar. E o planeta todo está de olho na gente, esperando para ver como vamos nos sair nessa prova de fogo.

Por isso tudo, peço encarecidamente que nos próximos três anos vocês – dirigentes, comissão técnica e jogadores – nunca percam a dimensão da responsabilidade que têm pela frente. E não esqueçam que representam quase 200 milhões de pessoas, e não a sua própria patotinha ou o escudo da CBF.

Sei que não é fácil para vocês e que é uma quebra de rotina assustadora.

Mas não custa conservar a esperança de que as as coisas hão de mudar, dentro e fora de campo.

Afinal, eu acredito na porra desse País.

Muito obrigado.

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Por @FChiorino

A ESPN Brasil anunciou ontem uma mudança significativa. José Trajano, um dos fundadores do canal, deixa a direção do jornalismo em janeiro de 2012, quando passará a se dedicar apenas à função de comentarista na grade de programação. João Palomino será o seu substituto na direção.

Quem acompanha Trajano há algum tempo, sabe que o jornalista sempre tratou o canal como um filho. E foi com esse cuidado todo que a ESPN Brasil se tornou referência no jornalismo esportivo brasileiro e modelo de cobertura de grandes eventos, como Copa do Mundo e Olimpíadas. Não à toa, Trajano venceu por duas vezes o prêmio Comunique-se na categoria Executivo de Comunicação.

Ao mesmo tempo, Trajano carregou com o tempo a fama (bastante justificada) de turrão. Em um dos episódios mais extremos, bateu boca ao vivo com Paulo Soares (Amigão) durante o Linha de Passe, sendo que este último resolveu simplesmente abandonar a apresentação do programa. Trajano também já entrou em discussões acaloradas com outros jornalistas da casa e até mesmo esportistas.

Pouco deve mudar na direção da ESPN Brasil. Após 17 anos comandando o jornalismo, José Trajano, beneficiado pela força do canal nos EUA, moldou um produto que buscava na informação de qualidade o maior diferencial. Aos poucos, foi ganhando terreno e direitos de transmissão. Ainda está longe das principais audiências da TV por assinatura, mas já é reconhecido como um veículo influente e de credibilidade. E o negócio cresceu, com investimentos em um site interativo, revista e equipe dedicada à rádio Estadão ESPN.

José Trajano deu ume enorme contribuição ao jornalismo esportivo brasileiro. É um dos responsáveis em criar conteúdos que vão muito além da transmissão de um evento. Resgatou o papel do repórter como um chato de plantão, e não um mero bajulador de estrelas. Repórter como ele, que estava em campo cobrindo o milésimo gol do Pelé. O turrão José Trajano fez história. Que outros continuem a contá-la com o mesmo inconformismo que lhe é característico.

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Santo Futebol

“O Gigante acordou”. É a primeira frase que aparece quando você acessa o site oficial do Santa Cruz. Para ilustrar a conquista da vaga para a série C, um enorme mosaico destaca a participação de jogadores e principalmente dos torcedores. O discurso não poderia ser diferente: o clube pernambucano agora quer o título da Série D do Brasileirão. Disputa a semifinal contra o Cuiabá-MT, com a vantagem de uma vitória simples no jogo de ida.

Mas talvez nem o eventual título chamará mais atenção do que se viu no Arruda nesse ano. O fanatismo do torcedor virou pauta até de jornais da Espanha, França e Portugal. Como se explica um estádio com mais de 60 mil pessoas acompanhando um jogo da quarta divisão do futebol brasileiro?

Esse fenômeno não pode ser encarado apenas como fruto de um time popular em Pernambuco. Se a visão fosse assim tão simplista, o Palmeiras não teria perdido tantos torcedores nas últimas duas décadas, sendo ultrapassado com folga pelo São Paulo. Nos Estados onde se destinam os maiores holofotes, é comum enxergar torcidas minguarem ou abandonarem os estádios quando os títulos cessam.

O que se vê do lado de lá é um povo que adota o Santa Cruz como o sentido de suas vidas. Uma relação quase paternal, em que um resultado adverso não impacta no amor que o torcedor nutre ano após ano.

E só essa paixão mantém vivos clubes como o Santa Cruz. O mérito é todo da torcida que lota o Arruda independente do campeonato disputado. E 2011 anda sorrindo para a Cobra Coral. Além do acesso, foi campeão do Pernambucano contra o maior rival, o Sport.

Uma multidão que se une nas lágrimas de uma derrota e nos gritos de consagração. O que se vê abaixo é o futebol em sua essência. Algo desprovido de contratos milionários e brigas políticas nos bastidores. Apenas o torcedor e sua indissociável paixão.

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Há três meses, no post Seleção macunaíma, escrevi um post sobre as relações entre a falta de identidade do brasileiro e a falta de caráter da seleção brasileira. Hoje cedo, o jornal Diário de São Paulo revelou um caso que escancara como esta característica brasileira afeta também o futebol de clubes.

Segundo o jornal, as duas taças que o Santos ganhou em 1962 e 1963 nas inesquecíveis vitórias sobre o Benfica e o Milan pelo Mundial de Clubes estão desaparecidas há anos, e ninguém sabe ao certo nem quando isso ocorreu. As taças do time de Pelé e companhia podem até ter sido jogadas no lixo. O que existe hoje no museu do clube são duas réplicas de uma das taças do São Paulo emprestada pelo clube da capital. É impossível descrever este fato como menos do que uma humilhação para o Santos e o futebol brasileiro.

Este episódio é o cúmulo da falta de respeito com os símbolos dos clubes, um fenômeno que hoje é representado pela situação ridícula dos uniformes que vemos no Campeonato Brasileiro. Com a pindaíba financeira como escudo, diretores vendem a patrocinadores não apenas o peito e as costas das camisas, mas o suvaco, o ombro, a manga, e o que mais for visível a olho nu. Até os calções – frente e verso – são patrocinados. Os escudos, e as cores, tão importantes para os torcedores, ficam em segundo plano.

Falar de semiótica é uma coisa chata, mas os símbolos – camisas, bandeiras, escudos, cores, troféus – são os aglutinadores dos torcedores. Não foi por capricho que a seleção da Espanha, campeã de azul em 2010, vestiu a “Fúria” vermelha para levantar o troféu da Copa do Mundo de 2010. Foi sob aquela camisa que o time perdeu muito, foi achincalhado, e deu a volta por cima.

Enquanto isso, no Brasil, o torcedor, que já é desrespeitado sistematicamente, não pode mais vestir com orgulho a camisa de seu time sem ostentar patrocínios ridículos e, no caso dos santistas, que poderia ser o de qualquer outro clube, nem admirar os troféus mais importantes já ganhos. Estamos em um estado de vergonha que hoje parece não ter fim.

Atualização: O Santos alega que nunca teve a posse dos troféus, que seriam de posse transitória.

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Essa história tem um ponta que podemos puxar até encontrarmos um culpado? Ou trata-se de mais um círculo vicioso dentre tantos que nos mantêm presos ao chão, sem conseguir alçar voo?

Estou falando do distanciamento entre a música brasileira e o futebol. “Ah! Mas existem centenas de boas canções sobre futebol na MPB”, dirão os mais cultos. É fato. Pixinguinha, Jackson do Pandeiro, Chico Buarque, Moraes Moreira, Aldir Blanc e João Bosco são apenas alguns dos ótimos compositores brasucas que gravaram músicas sobre futebol.

Mas, tirando o José Trajano, críticos e estudiosos, quem de fato conhece essas músicas e – o principal – se emociona com elas?

Citei o Trajano porque a ESPN Brasil é de fato o veículo de mídia que mais presta homenagem e reconhece os compositores-boleiros da MPB. “Um a zero”, composta por Pixinguinha, é tema do programa Bate-Bola. “É a bola, é a bola, é a bola,
É a bola e o gol! Numa jogada emocionante/O nosso time venceu por um a zero/E a torcida vibrou”.

Bonito? Sem dúvida. Importante? Muito. De massa? Não, nem um pouco.

Como ocorre com os considerados gênios da MPB, suas músicas têm tudo de bom, menos popularidade. Não falam ao povo. Não embalaram o radinho de pilha das domésticas, tampouco embalam hoje o Ipod da moçada no ônibus.

Quem se aproximou mais de tal feito ao falar de futebol foi Jorge Ben Jor, nos tempos em que era Jorge Ben e gravou Fio Maravilha, além de ter comemorado ser Flamengo e ter uma nêga chamada Teresa. Aí, sim, pegou, embora o mesmo Ben Jor também tenha composto tantas outras coisas mais sofisticadas sobre o esporte e que portanto não tiveram o meso alcance (Umbabarauma…).

Longe da sofisticação da MPB, quem fez a melhor música sobre futebol foi mesmo o Skank, com É Uma Partida de Futebol. Você pode não curtir os caras, mas é difícil não reconhecer que esta música pegou de fato o espírito da coisa. E falou ao público da arquibancada, não apenas à turma dos “botecos chiques” e dos cursos de Comunicação nas universidades.

Voltemos ao dilema inicial, mais uma Tostines murcha. Faltam boas músicas populares sobre futebol? Ou elas estão aí, e o que falta é o alcance educacional para compreendê-las?

Neste caso, fico com a primeira opção. Faltam compositores populares que entendam de fato o que se passa no coração de um Geraldino, de um guri chutando a bola descalço e que sabe desde antes de nascer: o centroavante é o mais importante, que emocionante é uma partida de futebol.

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A Portuguesa está de volta. E voltou como gente grande, como apenas os grandes conseguem quando passam pela Série B. A Portuguesa disputará a Série A em 2012 e não direi que é o lugar dela, porque a primeira divisão é lugar de todos. De todos aqueles que conquistarem o direito de disputá-la em campo. Como a Portuguesa conquistou.

A Portuguesa, meu primeiro time de botão, teve um de seus grandes anos, passou como um trator – isso não é uma piadinha – por cima dos outros 19 da Série B. O título é uma questão de tempo. Mas a Lusa não pode ser um daqueles times de bate e volta. Tem de jogar para ficar na elite do futebol brasileiro, e não amargar um ano melancólico e voltar à Série B em 2013.

A Portuguesa pode. Tem muito mais capacidade para ficar na Série A que muitos times que lá estão há anos, incluindo alguns dos mais badalados do futebol brasileiro. Mas precisa tratar seu futebol com seriedade, e não com o amadorismo que demonstrou tantas vezes durante toda sua história. A prioridade é ficar na Série A, para depois, aos poucos, sonhar e alcançar objetivos maiores.

Se der um passo depois do outro, aos poucos, e com calma, a Portuguesa não cai mais. Porque terá pela frente um monte de adversários amadores. Se não for mais um deles, e agir como neste ano, a Lusa voltou para ficar.

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Por @maia_otavio

“A vida não é aquela que a gente viveu; mas aquilo do que a gente se lembra”.

Tem gente que reconhece as estações do ano pelas flores, pelas chuvas, cheiros ou festas.

Ao ligar a TV dia desses, no entanto, me dei conta do espaço que o esporte tem na minha vida: é ele, e não os fenômenos da natureza ou os ritos da nossa cultura, quem divide o calendário em partes do ano diferentes, mas igualmente saborosas – cada qual com o seu charme.

A primavera, por exemplo, não é o tempo de flores desabrochando e do sol ameno esquentando a pele; é a época em que, quando acordo de manhã, vejo os principais tenistas do circuito da ATP disputando os torneios em quadra coberta, já em clima de fim de temporada e sem a pressão de se preparar para o próximo Grand Slam.

Esse período é agradável não só porque anuncia a chegada do clima de Natal e, sobretudo, das rodadas decisivas do Brasileirão, mas porque faz lembrar os tempos em o esporte ocupava minha cabeça como paixão e profissão concomitantemente.

Em outubro e novembro, eu estava sempre pulando de hotel em hotel nas principais capitais da América Latina acompanhando a gira sul-americana de tênis profissional. Por isso, acordar e ver as disputas em quadras cobertas me faz sentir o cheiro dos flats e o sabor daqueles cafés-da-manhã repletos de Dulce de Leche e media lunas.

De tarde, em vez de acompanhar o torneio local e correr atrás de tenista enfurecido para conseguir a entrevista do dia, tem que bater cartão e entregar relatório. Mas só a lembrança já vale a pena.

Já o verão eu reconheço pela saudade do meu time que bate no peito no começo de janeiro. Muitas notícias de bastidores e de mercado, mas nada de bola rolando. É tempo de projetar a escalação, vislumbrar êxitos da equipe (“nesse ano vai”) e, ao mesmo tempo, reclamar dos reforços que não vieram (“incompetentes!). E depois aquecer os motores acompanhando o clube do coração na Copinha de Juniores, como se a competição fosse a última Coca-Cola do deserto.

E lá vem o outono. Esqueça os clichês de folhas secas caindo dos galhos tristes e forrando o chão: quem anuncia a chegada da nova estação é o caos esportivo, com eventos a pleno vapor nos quatro cantos do mundo. A essa altura a Fórmula 1 já deu a largada, o campeonato estadual está no mata-mata, a Libertadores pegando fogo e o Brasileirão se insinua logo depois da próxima curva. Também tem Roland Garros, final da Champions League e muito mais. A sensação de acompanhar tudo junto é impagável.

Mas a maior prova de que há algo errado com o calendário gregoriano é associar o inverno ao frio. Tá certo que é ano sim, ano não, mas julho, agosto e setembro sempre ficam nas nossas memórias pelas vitórias calorosas e derrotas avassaladoras nas Copas do Mundo; ou pelas surpresas deliciosas e momentos inesquecíveis nos Jogos Olímpicos. Quando chegam esses megaeventos, todo o restante – como Wimbledon, o US Open e as férias engordativas em Campos do Jordão – parece irrelevante.

Mas pra que, afinal, serve tudo isso, toda essa cronologia de memórias espalhadas pelo calendário?

Serve pra ter a certeza de que, muito mais do que um passatempo, o esporte é uma parte fundamental das nossas vidas.

Porque, como definiu com maestria Gabriel García Marquez, “a vida não é aquela que a gente vive; mas aquilo que a gente se lembra”.

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Thiago Pereira bateu recorde de Hugo Hoyama e tornou-se o brasileiro com mais medalhas de ouro em Pan-Americanos. Foi a notícia mais repetida pela imprensa nacional nesta primeira semana dos Jogos. Torcedores comemoraram em redes sociais. Esta é uma marca, no entanto, que precisa ser relativizada antes que se gaste a caixa de rojões para celebrar esta potência olímpica chamada Brasil.

Quem é Thiago Pereira? Nadador completo, daqueles que conseguem nadar em bom nível em diversos estilos. Por isso tem como especialidade as provas de medley. Aos 25 anos, porém, nunca conseguiu subir no pódio de um Campeonato Mundial (de piscina longa) ou nos Jogos Olímpicos. Nada finais desde 2004, chegou perto, mas nunca passou do quarto lugar. Pode até conseguir em Londres 2012. Mas, hoje, mundialmente, não é um protagonista de sua prova. É um coadjuvante importante para fenômenos como os americanos Michael Phelps e Ryan Lochte.

Quem é Hugo Hoyama? O paulista de São Bernardo do Campo é um sobrevivente. Não apenas por ainda competir aos 42 anos, mas por ter sobrevivido no Brasil como atleta de tênis de mesa, uma modalidade com apoio muito inferior à natação. Mas sua carreira, internacionalmente, não é relevante. Já teve vitórias importantes, mas nunca chegou perto de um pódio olímpico ou de um Mundial. É um batalhador, construiu uma carreira digna de aplausos, mas seus resultados, cabe dizer, não entrarão para a história da modalidade.

Pereira e Hoyama só colecionam medalhas de ouro pan-americanas porque os Jogos há muito tempo deixaram de ser uma competição de primeiro nível, e isso deveria ser contado ao público com frequência. O Brasil está entre os poucos países que levam praticamente sua delegação principal, o que explica a chuva de medalhas. O que explica a possibilidade de atletas como os dois brasileiros, coadjuvantes (ou nem isso) no cenário internacional, competirem como atletas de elite.

As conquistas de Thiago e Hugo não devem ser diminuídas, mas apenas relativizadas. Ambos têm todo o direito de comemorar, e devem mesmo. Mas, por outro lado, não se deve criar a ilusão de que se está diante da briga de dois dos maiores atletas do mundo em suas modalidades. Porque, pelo que conseguiram até hoje, esta é uma afirmação errada.

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O conselheiro-síndico

Todo clube de futebol tem sua cota de conselheiro-síndico. Trata-se daquele sujeito que vai a praticamente todos os treinos e se acha mais dono do clube do que qualquer outro sócio ou torcedor.

O conselheiro-síndico faz da rotina do futebol a sua rotina. Para disfarçar o que parece ser uma vida monótona, carente de maiores distrações, diz estar ali em nome do presidente ou do grupo oposicionista.

Ao se encontrar com seus pares do conselho, corneta o trabalho do treinador ou a qualidade técnica dos jogadores. Se o time está em boa fase, diz que foi ele, ou seu grupo, quem aconselheu a diretoria a fazer isso ou aquilo.

Quando fica apenas neste comportamento folclórico, tudo bem. Trata-se de apenas mais um personagem cativo do mundo boleiro.

O problema se dá quando surge o conselheiro-síndico e agressivo. Ou que se torna agressivo. Neste caso, seu alvo, além de jogadores e técnicos em má fase, é a imprensa. Para ele, o jornalista que acompanha o clube e se atreve a fazer críticas é um torcedor rival – e que não deveria estar ali.

Esta semana um conselheiro-síndico se esforçou para virar caso de polícia no Fluminense. Por dois dias seguidos, o sujeito xingou e ameaçou os jornalistas que cobrem o clube, nas Laranjeiras. Tudo porque um jornal “se atreveu” a fotografar um treino secreto promovido pelo técnico Abel Braga.

O mais triste? Jogadores aplaudiram o conselheiro e o técnico Abel Braga sorriu ao ver a confusão. Como se muitas vezes a ira deste tipo de personagem não se voltasse contra elenco e comissão técnica…

O conselheiro-síndico-agressivo se prolifera em clubes que convivem há tempos com a falta de títulos ou com instabilidade política. Atual campeão brasileiro, o Flu ainda é uma instituição frágil politicamente.

Para amenizar a interferência do conselheiro-síndico no trabalho da comissão técnica, o remédio mais indicado é a utilização do Centro de Treinamento – de preferência o mais afastado possível da sede social do clube.

Nos CTs, só entra quem tem prévia autorização. Claro que mesmo assim o conselheiro chatão consegue fazer suas “vistorias”, mas se sente intimidado e pensa dez vezes antes de bancar o…síndico.

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