Do fundo do baú para fevereiro, 2012

O Brasil venceu a Bósnia nesta terça-feira, por 2 a 1, e eu vi apenas três lances: os dois primeiros gols e um gol perdido por Hernanes ainda no primeiro tempo. Com isso, não posso dizer como foi o jogo, mas posso imaginar. O Brasil foi um time sem entrosamento, com alguns jogadores atuando bem, outros abaixo da crítica e outra parte sem qualquer interesse. Os erros de passes se acumularam e ficou aquela sensação de que falta um armador, um camisa 10. Os que entraram no segundo tempo se mataram para mudar o jogo (contrastando com os encostados que começaram a partida) e, no fim, por acaso, saiu um gol e o Brasil ganhou.

Foi assim ou não?

Não é difícil imaginar como foi a partida porque, fora o gol no final, é provável que 97% de todos os amistosos da seleção desde o fim dos anos 1980 (quando comecei a acompanhar futebol) tenham sido assim. É irritante demais, mas há uma coisa ainda mais chata: a corrente de ódio e ignorância que surge na internet, mais especificamente no Twitter, a cada partida.

Na fauna do Twitter tem de tudo. Tem o a) torcedor de time, que só torce para o jogador do time dele e para o ex-jogador que saiu sem deixar mágoas. Tem o b) que só fala asneira; o c) que tuíta #foramano desde o primeiro minuto porque é legal ser contra o técnico da seleção. Tem o d) torcedor (e jornalista também) especializado em ser ignorante. Estes costumam dizer que 100% dos adversários do Brasil são “alguma coisa entre o Ituano e a Catanduvense”. Esses ignoraram, nesta terça, que a Bósnia quase tirou a França da Euro 2012 e empatou com os azuis em St. Denis. Tem o e) torcedor que funciona como ombudsman express dos jornalistas. Geralmente estes são “brasilinos roxos” que não aceitam críticas à seleção.

Tem o f) comentarista que tem a escalação perfeita para o Brasil ganhar a medalha de ouro em Londres e a Copa do Mundo. Tem o g) jornalista menos convencido, que mesmo sabendo que o Brasil tem uma geração ruim atualmente pede “mais criatividade” e, para meu desespero, a volta do “futebol moleque”. Tem o h) comentarista otimista, para quem sempre é possível arrumar o time. Tem o i) sujeito que passou o Brasileirão pedindo o Ronaldinho na seleção e agora quer vê-lo pelas costas. E tem, por fim, j) aqueles que, talvez com a intenção de provocar um derrame nervoso nos outros, pedem uma seleção formada apenas por atletas que atuem no Brasil.

Cada jogo da seleção é uma espécie de Caixa de Pandora aberta. O jogo da seleção é a culminação de tudo o que está errado no futebol brasileiro: categorias de base desestruturadas, uma geração pior que as anteriores, calendário problemático, convocações sem nexo, corrupção na CBF e, o principal, o nosso espírito macunaíma de ser. O jogo libera esses males, e, ao mesmo tempo, exatamente como na lenda da mitologia grega, mantém a esperança presa dentro da caixa – é provavelmente a catarse coletiva provocada pela falta de esperança em tempos melhores no futebol brasileiro que estimula esta orgia de agressões verbais e asneiras sem tamanho.

No caso do futebol brasileiro, a esperança só sai da caixa na Copa do Mundo. Tudo para e o país espera a chegada de uma deusa grega, Panaceia, a deusa da cura. Será que ela chega em 2014 para curar todos os males?

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Não é correto culpar Luxemburgo pela derrota do Grêmio para o Caxias. Foi o primeiro jogo do técnico à frente do tricolor, há pouco de seus dedos na eliminação do time neste domingo. Mas cair nos pênaltis, depois de sofrer empate aos 40 do segundo tempo, mostra de forma emblemática o momento do ex-melhor técnico de futebol do Brasil.

Luxemburgo se perdeu no tempo e no espaço. Desde 2004, quando foi campeão brasileiro pelo Santos, o ex-Wanderley nunca mais conquistou um título relevante. Foi cinco vezes campeão estadual, por Santos, Palmeiras, Atlético-MG e Flamengo. É pouco para o status que carrega, pouco para o salário que recebe, pouco para a pompa com que é recebido por onde passa.

Hoje, Luxemburgo vai embora sem deixar saudade. Qual torcedor do Santos, Palmeiras, Galo ou Flamengo lamentou quando o treinador foi demitido de seu time? Aliás, Vanderlei hoje é demitido. Antigamente era ele quem demitia os clubes por onde passava. “Contrato foi feito para ser respeitado, não para ser cumprido”, dizia.

Luxemburgo precisa se reinventar. Como um daqueles jogadores geniais e geniosos, o técnico corre o risco de, quando se aposentar, dar a sensação de que poderia ter sido muito mais do que foi. O treinador sensacional que surgiu com o título paulista do Bragantino em 1990, perdeu a relevância nos últimos anos por conta da falta de títulos importantes e tragado por suspeitas e denúncias de vários tipos. Luxemburgo jamais conquistou a Libertadores – e não conquistará neste ano. Virou motivo de piadinhas até entre alguns jornalistas que viviam a lhe bajular. “Pofexô” e “pojeto”, imitação de seu modo de falar, passaram a ser palavras usadas para fazer graça.

Em que pese os ótimos títulos nacionais conquistados e os bons trabalhos que fez na carreira – o último deles em 2003, no Cruzeiro – Luxemburgo está em xeque neste país de memória curta. Estes títulos e bons trabalhos serão nada se não forem alimentados por novas conquistas importantes. Sem taças de peso, o treinador que tirou o Palmeiras da fila e montou uma máquina no Corinthians receberá tratamento semelhante ao que sempre ganhou Barrichello na Fórmula 1.

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Por @maia_otavio

Parece que foi ontem.

Há quase dois anos, Mano Menezes fez sua primeira convocação pela Seleção Brasileira. O time, completamente renovado e sem pressão, enfrentaria a dura equipe dos EUA, que pouco antes fizera bonito na Copa do Mundo disputada na África.

Situação bem diferente do que aconteceu há duas semanas, quando Mano convocou a desacreditada Seleção que vai enfrentar a Bósnia, cujo maior feito foi quase se classificar para a Copa de 2010.

Antes, Mano tinha nas mãos um time que despertava curiosidade e era aguardado cheio de expectativa para gradualmente subir degraus e enfrentar as mais poderosas seleções do planeta. Agora, comanda um grupo enfadonho, no qual pouco torcedor coloca fé e se anima a apostar suas fichas.

Há dois anos, dizia-se que era um privilégio ter jovens tão talentosos vestindo a camisa amarela e que, com o amadurecimento desses atletas, havia uma chance real de retomar o controle do futebol mundial. Hoje, à exceção de Neymar, que se confirma como estrela de primeira grandeza, todos os outros despertam menos suspiros do que antes.

Em 2010, esperava-se que Alexandre Pato, Paulo Henrique Ganso e Robinho pudessem em 2014 estar à altura dos maiores das suas posições no futebol internacional. Mas hoje ocupam posição consideravelmente mais periférica no mundo da bola do que dois anos atrás.

E, nesse nheco nheco dos nossos talentos, que fazem mais fumaça do que decidem campeonatos, a confiança do brasileiro escorre pelos dedos e vai embora. Afinal, quem, ao disputar uma Copa do Mundo em casa, vai querer confiar a camisa 10 ou a missão de comandar o ataque a um jogador que só se machuca ou a alguém que nunca rende o seu tão propalado potencial?

Aos olhos do brasileiro e do mundo, nossos jogadores perderam valor, nosso técnico perdeu valor e nossa camisa perdeu valor. E, pior do que isso, nossa Seleção perdeu tempo, porque já se passou quase metade do período da preparação até 2014 e o time praticamente não saiu do lugar.

Diante de tudo isso, quando o Brasil entrar em campo nesta semana para enfrentar a Bósnia, não será apenas mais um amistoso. Será menos um, porque a ampulheta está virada de cabeça para baixo e o tempo não para de correr.

A construção do time que vai nos representar em 2014 está tão ou mais atrasada do que a construção dos estádios que serão palco da Copa e, a partir de agora, cada minuto é precioso para quem comandar a seleção pentacampeã do mundo.

Quem poderá nos defender?

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Até meados dos anos 80, combates de alto nível entre os pesos pesados do boxe eram sinônimo de grandes homens no rigue. De ricas histórias. Eu sou fã dos caras que brilharam na década de 70, simplesmente porque eles eram fantásticos.

Muhammad Ali, Joe Frazier, George Foreman, Ken Norton… Leia sobre eles e você vai se deparar com histórias incríveis, daquelas que rendem livros, filmes, documentários. Os combates entre esses caras atraíam multidões aos estádios e mobilizavam a grande mídia.

Hoje o cenário do boxe é exatamente assim. Só que ao contrário.

Mas voltemos aos 70, mais precisamente a outubro de 1974. Em Kinshasa, capital do então Zaire (hoje República Democrática do Congo), Muhammad Ali voltava a ser campeão mundial ao derrotar George Foreman no oitavo rounde.

Tal luta, como se sabe, tem um grande documentário só para ela: “Quando Éramos Reis” (When We Where Kings), lançado em 1996.

Porém, foi em outro soberbo documentário sobre boxe, “Facing Ali”, de 2009, que me deparei com uma emocionante declaração de Foreman.

Foreman diz: “Provavelmente o melhor soco de toda luta nunca tenha sido dado. Muhammad Ali, enquanto eu estava caindo, poderia ter acabado com a luta. Qualquer um teria feito isso, eu teria. Ele estava com o soco de direita pronto, mas não bateu. É o que faz dele, para mim, o maior lutador que eu já enfrentei.”

Ali poupou o rival, já grogue e indefeso. Voava como uma borboleta e picava como uma abelha, mas tinha honra.

O ex-campeão completou 70 anos e, vítima da terrível doença, é uma sobra do que já foi. Foreman ficou ainda mais rico vendendo grill. O boxe minguou com o passar das décadas, mas o exemplo permanece.

Os esportes de combate não precisam ser reféns da “estética da violência”. Às vezes, o soco não dado é mais belo do que uma voadora no queixo. Bater no rosto de um oponente no chão não é exatamente a coisa mais bonita de se ver.

Em tempo, este post é apenas um convite à reflexão. Assisto ao UFC e gosto de MMA, mas simplesmente sou mais o boxe. A nobre arte.

Vejam o trailer de “Facing Ali”, com a declaração de Foreman:

Na foto acima, Ali golpeia Foreman na luta do Zaire.

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A turba de Ricardo Teixeira

Por @FChiorino

Novas denúncias de desvio de dinheiro e corrupção colocaram Ricardo Teixeira na berlinda. Sua renúncia ainda não se confirmou, mas continuam a surgir evidências de, ao menos, um possível afastamento.

Entretanto, o que mais surpreende diante desse novo cenário é o apoio que o presidente da CBF passou a receber, especialmente de dois fenômenos do marketing esportivo contemporâneo: Ronaldo e Neymar.

Teixeira calculou a importância de convocar um notável para presidir o Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2014. Nada melhor do que escolher Ronaldo, reconhecido mundialmente, admirado por tantas conquistas e superações. O escudo perfeito. Então, não surpreende a declaração de Ronaldo dizendo que “o futebol deve muito a Ricardo Teixeira” e que lamentaria sua possível saída.

Neymar, por sua vez, levou a discussão para a esfera particular. Elogiou o presidente e reforçou que sempre foi muito bem tratado por ele. O que explica esse quase agradecimento, esse constrangedor beija-mão? Talvez Nike, Vivo, Guaraná Antártica, Seara e Gillette – cinco patrocinadores da entidade, que também fecharam contratos milionários com o grande nome do futebol brasileiro atual.

Não se cobra aqui que os esportistas venham a público criticar abertamente Ricardo Teixeira. Eles não são obrigados a isso e muito menos se espera uma postura de oposição. Não faz parte da cultura do jogador brasileiro, tradicionalmente omisso e que compactua com quem está no poder. Porém, acontece justamente o contrário. Em vez de simplesmente se calarem, ídolos expõem uma posição subserviente a Ricardo Teixeira, ignorando o clamor de toda uma sociedade pelo fim do coronelismo no futebol.

Ronaldo e Neymar representam hoje um retrocesso moral. Máquinas de dinheiro que buscam não se comprometer a ponto de provocar prejuízos financeiros. Não se tratam de aliados, mas sim de parceiros comerciais. Vivemos a era dos falsos heróis, protagonizada por personalidades que só se preocupam com a revolução de suas próprias contas correntes. A festa dessa turba não tem hora para acabar.

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por @FChiorino

Foto: Francois Mori / AP

Kawambwa, uma pequena cidade da Zâmbia, vivia dias de apreensão. Um búfalo havia fugido do Parque Nacional Lusenga e não havia qualquer informação sobre o seu paradeiro. Outro motivo para tanta preocupação era a final da Copa Africana. Zâmbia enfrentaria naquele domingo a seleção de Costa do Marfim, apontada como favorita por todos os jornais locais.

Frederick Kaunda era um humilde morador de um campo agrícola. Ele e sua mulher viviam isolados e sobreviviam graças a uma parca criação de gado. Os dois filhos homens morreram durante a primeira guerra do Congo. A única companhia era uma TV velha, presente de um turista belga que havia passado por lá há três anos.

E a TV ficava o dia todo ligada, numa espécie de ritual que garantisse que aquele casal continua vivo. Não seria diferente no dia da decisão. Kaunda estava sentado diante da tela só esperando o jogo. O apito do juiz dando início à partida também foi o sinal para acender o seu cachimbo.

Final dura, equilibrada, com poucas chances claras de gol. Quando foi assinalado pênalti para a Costa do Marfim, o coração de Kaunda parou por alguns segundos. A bola isolada por Drogba não provocou uma reação explosiva. Kaunda cerrou os olhos e voltou a acreditar. Veio a prorrogação e nada de gols.

O título seria decidido nos pênaltis. Kaunda colocou mais fumo no cachimbo e ajoelhou. As duas seleções converteram as sete primeiras cobranças. Em seguida, Touré, da Costa do Marfim, desperdiçou a chance e tudo poderia ser sacramentado pelos pés de Kalaba. Mas ele também falhou. Não houve tempo para lamentar. Gervinho errava na sequência e agora era a vez de Sunzu. Assim como todo o time enfileirado no meio do campo, o zagueiro caminhou em direção à marca de pênalti cantando uma música desconhecida.

Foi quando Kaunda ouviu um barulho assustador. Ainda de joelhos, percebeu um vulto caminhando em sua direção. Era o búfalo foragido, que agora parava bem em frente à TV. Sem reação, Kaunda tentou se concentrar no som da narração, mas o búfalo passou a mugir de forma descontrolada. Sunzu corria para a cobrança. O búfalo girou de forma repentina e derrubou a TV ao chão. Voaram estilhaços para todos os lados.

Kaunda ouviu fogos vindos de muito longe. Imaginou que era campeão. O búfalo por lá ficou.

 

Crônica inspirada em uma velha ideia compartilhada pelo jornalista Luiz Megale, do Grupo Bandeirantes

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Vida de coadjuvante

Por @maia_otavio

Eram 60 mil pessoas à sua volta. Uma multidão enlouquecida, que gritava, cantava, vibrava e sofria. Rezava, amava, conversava com o radinho de pilha, se abraçava. Flertava com todo tipo de superstição e recorria em desespero a qualquer deus que estivesse disponível. Numa hora se agigantava, na outra encolhia os ombros. Uma multidão que vivia, em 90 minutos, uma montanha russa de fortes emoções, capaz de fazer daquele momento uma grande ocasião.

Já à sua frente estavam 22 homens. Corriam à exaustão, suavam até a ficarem próximos da desidratação. Saltavam para grandes cabeceios, atiravam-se sobre a bola, lançavam o próprio corpo no espaço vazio para se antecipar ao adversário e evitar o gol indesejado. Gritavam de emoção, choravam de tristeza. Num minuto desfrutavam do orgulho da vitória, no outro se encontravam com a ferida profunda da derrota. Celebravam com socos no ar, lamentavam com mãos cobrindo os olhos. Eram heróis, eram vilões.

Os 60 mil à sua volta e os 22 à sua frente eram, definitivamente, os donos do espetáculo. Empenhavam-se de corpo, pulmões e alma para serem os melhores. Os que estavam no campo sonhavam receber a reverência dos que estavam na arquibancada. E os da arquibancada não viam a hora de ouvir o craque agradecer pelo apoio entusiasmado e dar à torcida uma porção do mérito pela conquista.

Jogadores e torcedores eram todos protagonistas. E ele, apenas um coadjuvante invisível, pago com alguns tostões para não atrapalhar o espetáculo. Todos o viam, mas ninguém tinha olhos para ele. Um nada, um indesejável.

Ao sentir o calor que vinha da multidão e a energia que vinha do campo, ele era tomado por um calafrio e uma insegurança que o faziam se sentir pequeno e sem voz. Quem era ele, afinal, para dizer aos donos da festa o que estava certo e o que estava errado?

Após 90 minutos daquela estranha sensação, soou o apito final. Metade do estádio explodiu em comemoração e a outra submergiu em depressão profunda. Ele, por sua vez, se dirigiu ao vestiário silenciosamente. Tomou sua ducha e voltou para casa sem ser notado. Nada de congratulações, nada de reverência.

Mais uma vez, ele saiu de campo invisível. Era, no entanto, sinal de que tudo correu perfeitamente bem. E que mais uma batalha havia sido vencida, nessa solitária vida de bandeirinha.

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Na semana passada, o mundo foi apresentado aos “ultras” egípcios graças ao massacre de mais de 70 pessoas em Port Said. Há uma série de teorias a respeito deste episódio e, como afirmei em participação no Arena SporTV, acredito que há um pano de fundo político por trás da matança, além de uma mera rivalidade esportiva. Analisar esses torcedores organizados e seu papel na sociedade egípcia ajuda a entender por que o país, um ano depois da queda do ditador Hosni Mubarak, continua tão instável politicamente.

Junto com o massacre, o mundo descobriu que os torcedores organizados do Egito, especialmente do Al-Ahly e do Zamalek (ambos clubes do Cairo, onde os protestos se concentram), tiveram papel fundamental na derrubada de Mubarak. Este papel não foi pequeno. Na hora em que o pau quebrou e que era preciso enfrentar a brutalidade da polícia egípcia (uma instituição que redefine o termo brutal) foram os ultras que surgiram com suas táticas aprimoradas desde 2007, quando começaram as brigas com a polícia no futebol egípcio. Para isso, os ultras deixaram de lado sua rivalidade histórica (o Zamalek era o clube dos britânicos e da monarquia e o Al-Ahly, “O Nacional”, era o clube dos locais) para defender religiosos, cristãos e muçulmanos, e seculares que pediam o fim da ditadura.

Os ultras têm em comum características e semelhanças com um setor importante da sociedade egípcia: os jovens urbanos egípcios. Foram eles que iniciaram a revolução, que deram a cara para bater. Nas brigas com as forças de segurança – durante os 18 dias do levante e desde então – jovens de várias estirpes – sem qualquer ligação com torcidas organizadas, religiosos, seculares, etc também protestaram e brigaram. E por quê eles brigaram? Para a juventude inconformada do Egito, a revolução é a única forma de interromper o destino de alguém que nasce e cresce em um país autoritário no qual um terço da população é analfabeto e metade vive abaixo da linha da pobreza.

Nas eleições parlamentares de dezembro e janeiro, esses grupos simplesmente não foram ouvidos. Pouco organizados e muitas vezes sem filiação política, muitos jovens passaram o período eleitoral pedindo o fim do regime militar enquanto a Irmandade Muçulmana, os ultraconservadores salafistas (que antes da revolução classificavam a democracia como heresia) e grupos seculares montavam partidos e organizavam campanhas. São esses setores que hoje dominam o Parlamento.

Nos últimos 12 meses, a junta militar se provou um fracasso político estrondoso. Não fez nenhuma reforma, nem mesmo a das forças de segurança, que ajudaria muito na estabilização do Egito. Para muitos jovens, especialmente os torcedores organizados, os palcos para as reivindicações políticas serem feitas continuam sendo a praça Tahrir, as ruas Muhammed Mahmoud e Mansour e tantas outras no Cairo e em outras cidades egípcias.

Entender o universo dos ultras não é complicado. Basta imaginar uma torcida organizada brasileira, cuja base é formada também por jovens sem muita perspectiva, colocá-los num ambiente ainda mais podre e autoritário do que o das classes baixas brasileiras, adicionar um governo autoritário, uma polícia incompetente e impune e uma demanda política que parece ser inatingível. A violência surge naturalmente, e qualquer coisa serve de estopim – especialmente um massacre de semelhantes, provavelmente arquitetado politicamente e que teve sucesso em aflorar as rivalidades esportivas entre Port Said e Cairo.

Não é preciso ser um cientista político experimentado para saber que a falta de uma plataforma legítima para fazer reivindicações (Judiciário e Legislativo independentes, por exemplo) dá à violência uma oportunidade perfeita para atuar. Enquanto o Egito não lidar com os problemas que fazem a juventude vislumbrar um futuro de penúria, a instabilidade política, e a força violenta dos ultras, estarão nas ruas.

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O torcedor respira ao lado

Faltava uma hora para o jogo. Eu já estava perfeitamente preparado. Cerveja gelando, sofá livre, TV da sala com todas as polegadas reservadas para mim. Mas surgiu o imprevisto e o esquema ruiu. Minha mulher reclamou de dores nas costas e lá fomos nós para o Hospital São Luiz.

Restou-me o rádio do celular para acompanhar a partida entre Palmeiras e Santos. Na recepção, disseram que o atendimento estava rápido naquele domingo. Acendeu a esperança de voltar pra casa e ao menos ver o segundo tempo.

Balela. A fila só aumentava, as senhas se acumulavam e nada de chegar a nossa vez. Fim da primeira etapa. Jogo disputado, poucas chances reais de gol. Enfim, nos chamam e somos transferidos para outra sala. Eu sempre penso que essa é uma estratégia dos hospitais para que a conta do estacionamento vá aumentando consideravelmente.

Começa o segundo tempo e engulo um pão de queijo em duas mordidas. Nervosismo puro. Palmeiras cresce no jogo, mas aí vem Neymar, sempre ele, e faz o gol de cabeça. Centésimo gol, dancinha ridícula, cabelo ridículo. Um craque, aquele puto. Dou um murro no braço do sofá e assusto a senhora que está atrás de mim. Quarenta minutos e nada de empate. Eis que aos 43 vem o gol. Fernandão, monstro. Minha mulher olha para o lado e pareço um mímico prestes a ter um troço.

Não aguento e aviso: “Preciso ver o final do jogo”. Acho a guarita dos seguranças e manobristas e consigo um lugar na arquibancada improvisada. Ao meu lado, um segurança que é a cara do Galeano, palmeirense e que sofre tanto quanto eu. Aos 46, o chute fraco de Juninho, que desvia no zagueiro santista e morre no fundo do gol. Eu grito, Galeano grita ainda mais forte. Os torcedores rivais se afastam e ficamos lá, eu e Galeano (vou chamá-lo assim para o resto da vida), esperando o apito final.

O juiz levanta os braços e a vitória é do Palmeiras. Movido pela emoção, não consegui enxergar outro movimento possível. Abracei o segurança, que foi pego de surpresa, mas correspondeu. Eu sempre prometo que vou tentar controlar os ânimos. Afinal, é só uma rodada do Campeonato Paulista. Mas o torcedor é um maluco que transforma qualquer partida em uma final. É como se o sentido da vida estivesse completamente intrínseco àquele resultado.

Não prometo mais nada. É mais divertido assim.

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O Flamengo está de parabéns

O Flamengo está de parabéns.

Em pouco mais de um mês, num surto de idiotice incontrolável, conseguiu executar com excelência toda a coleção de erros mais primários e estúpidos possíveis a um clube de futebol.

Se alguém tinha a obrigação de estar motivado e cuidar da pré-temporada com carinho, esse alguém é um clube que está na Libertadores e que tem no seu elenco um fora-de-série capaz de arrastar multidões ao estádio, desequilibrar partidas decisivas e trazer milhões aos clubes do cofre via ações de marketing.

Ou seja, o Flamengo abriu o ano em posição privilegiada, podendo brigar pelo título mais importante do continente.

Mas mal a bola começou a rolar em 2012 e o Fla já praticamente jogou tudo ladeira abaixo. Porque o clube se tornou uma grande baderna e se parece cada vez mais com aquele Rubro-negro desordenado que flertou com o rebaixamento anos atrás e cada vez menos com aquele time renascido de 2009, que conquistou o Brasileirão depois de 17 anos.

Em apenas 33 dias deste novo ano, o Flamengo já foi objeto de notícias sobre atraso de pagamentos, noitadas de jogadores, racha no elenco, brigas entre comissão técnica e diretoria e desligamento de jogador por indisciplina.

Cândido que sou, pensei que a cereja no bolo fosse a vultosa contratação de Vagner Love quando o clube mal consegue pagar o salário dos seus jogadores. Mas não era a cereja; no máximo um suspiro. A cereja veio hoje, com a demissão do treinador, mesmo após a classificação na Libertadores.

Tudo faz tanto sentido na Gávea quanto a frase de Patrícia Amorim, tentando explicar a saída de Luxemburgo. “Futebol é resultado e o time venceu. Mas tomamos essa decisão em função de outros problemas.” Oi?

E assim o Flamengo, de elenco forte e vaga na Libertadores, percorre um caminho seguro em direção ao fracasso. O clube joga no lixo a oportunidade de ter um grande ano para, em troca, revisitar um período pouco glorioso da sua história.

O Flamengo está realmente de parabéns. Só que ao contrário.

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