O Brasil venceu a Bósnia nesta terça-feira, por 2 a 1, e eu vi apenas três lances: os dois primeiros gols e um gol perdido por Hernanes ainda no primeiro tempo. Com isso, não posso dizer como foi o jogo, mas posso imaginar. O Brasil foi um time sem entrosamento, com alguns jogadores atuando bem, outros abaixo da crítica e outra parte sem qualquer interesse. Os erros de passes se acumularam e ficou aquela sensação de que falta um armador, um camisa 10. Os que entraram no segundo tempo se mataram para mudar o jogo (contrastando com os encostados que começaram a partida) e, no fim, por acaso, saiu um gol e o Brasil ganhou.
Foi assim ou não?
Não é difícil imaginar como foi a partida porque, fora o gol no final, é provável que 97% de todos os amistosos da seleção desde o fim dos anos 1980 (quando comecei a acompanhar futebol) tenham sido assim. É irritante demais, mas há uma coisa ainda mais chata: a corrente de ódio e ignorância que surge na internet, mais especificamente no Twitter, a cada partida.
Na fauna do Twitter tem de tudo. Tem o a) torcedor de time, que só torce para o jogador do time dele e para o ex-jogador que saiu sem deixar mágoas. Tem o b) que só fala asneira; o c) que tuíta #foramano desde o primeiro minuto porque é legal ser contra o técnico da seleção. Tem o d) torcedor (e jornalista também) especializado em ser ignorante. Estes costumam dizer que 100% dos adversários do Brasil são “alguma coisa entre o Ituano e a Catanduvense”. Esses ignoraram, nesta terça, que a Bósnia quase tirou a França da Euro 2012 e empatou com os azuis em St. Denis. Tem o e) torcedor que funciona como ombudsman express dos jornalistas. Geralmente estes são “brasilinos roxos” que não aceitam críticas à seleção.
Tem o f) comentarista que tem a escalação perfeita para o Brasil ganhar a medalha de ouro em Londres e a Copa do Mundo. Tem o g) jornalista menos convencido, que mesmo sabendo que o Brasil tem uma geração ruim atualmente pede “mais criatividade” e, para meu desespero, a volta do “futebol moleque”. Tem o h) comentarista otimista, para quem sempre é possível arrumar o time. Tem o i) sujeito que passou o Brasileirão pedindo o Ronaldinho na seleção e agora quer vê-lo pelas costas. E tem, por fim, j) aqueles que, talvez com a intenção de provocar um derrame nervoso nos outros, pedem uma seleção formada apenas por atletas que atuem no Brasil.
Cada jogo da seleção é uma espécie de Caixa de Pandora aberta. O jogo da seleção é a culminação de tudo o que está errado no futebol brasileiro: categorias de base desestruturadas, uma geração pior que as anteriores, calendário problemático, convocações sem nexo, corrupção na CBF e, o principal, o nosso espírito macunaíma de ser. O jogo libera esses males, e, ao mesmo tempo, exatamente como na lenda da mitologia grega, mantém a esperança presa dentro da caixa – é provavelmente a catarse coletiva provocada pela falta de esperança em tempos melhores no futebol brasileiro que estimula esta orgia de agressões verbais e asneiras sem tamanho.
No caso do futebol brasileiro, a esperança só sai da caixa na Copa do Mundo. Tudo para e o país espera a chegada de uma deusa grega, Panaceia, a deusa da cura. Será que ela chega em 2014 para curar todos os males?
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