Do fundo do baú para março, 2012

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Chamou atenção esta semana a ótima reportagem do canal Sportv a respeito do ex-goleiro argentino Andrada, ex-Vasco. Aquele mesmo que soca o chão, desesperado, ao levar o milésimo gol de Pelé no Maracanã.

Hoje com 73 anos, mas profundamente debilitado, Andrada vive em Rosário, na Argentina, ciente de que jamais vai se livrar de uma sombra. A sombra terrível dos assassinatos cometidos pela ditadura militar.

O ex-goleiro é acusado de ter integrado grupos de agentes civis da inteligência do exército. Tais grupos tinham papel fundamental para os militares ao delatar militantes da oposição ao regime. Isso para não falar na ajuda para armar emboscadas e assassinatos.

“El Gato”, o apelido de Andrada, teria participado da execução de Osvaldo Cambiasso e Eduardo Pereira Rossi, em 1983. Os dois militantes políticos foram sequestrados em um bar de Rosário e levados a um galpão por um grupo de brutamentos. Lá, foram torturados e assassinados.

Com dificuldade para falar e se locomover, Andrada nega a acusação, sem oferecer elementos concretos que poderiam inocentá-lo. Para complicar, até mesmo o Rosário Central, clube do qual é (foi) ídolo, virou-lhe as costas.

Como se sabe, a ditadura militar na Argentina (1976-1983) cometeu crimes imperdoáveis. Foram cerca de 30 mil civis mortos com requintes de crueldade, tais como ser atirado vivo de aviões sobre o mar. Bebês, filhos de militantes, foram sequestrados e muitos até hoje não conhecem seus verdadeiros pais.

À sombra da Operação Condor, união dos governos militares da região, há denúncias relevantes de que, de fato, o Peru entregou o jogo que classificou a Argentina para a final da Copa de 78. Uma Copa organizada enquanto toda essa gente padecia nos porões da ditadura.

Cabe à Justiça decidir se Andrada é ou não culpado de ato tão vergonhoso.

Em tempos de uma nova (e curiosa) polarização ideológica, para a qual as redes sociais parecem funcionar como um parque de diversões (vide o teor de comentários em blogs de política e portais noticiosos), que o caso do ex-goleiro sirva para refletirmos sobre o terror das ditaduras. Que nunca, em hipótese alguma, podem ser chamadas de “brandas”.

Não à toa, por aqui a Comissão da Verdade anda incomodando muitos setores…

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Pouco mais de três anos depois de ir ao ar, o Esporte Fino ganhará uma nova versão, agora em livro. “Esporte Fino – O Esporte Além dos Resultados” será publicado ainda no primeiro semestre pela Editora Multifoco e reunirá alguns dos melhores textos publicados de 2008 a 2012 pelos cinco jornalistas responsáveis pelo blog: Fabio Chiorino, José Antonio Lima, Luiz Augusto Lima, Otavio Maia e Rodrigo Borges.

Estarão no livro os 50 posts que tiveram maior destaque desde outubro de 2008. Desde que foi ao ar, o blog teve como intuito abrir um espaço para um diálogo sobre tudo que envolve o esporte, atletas, times, dirigentes, torcedores e a própria imprensa. “Nós acreditamos que a informação pode ser independente e bem humorada”, dizia o primeiro post do blog.

“Esporte Fino – O Esporte Além dos Resultados” terá prefácio de Flávio Gomes e orelha escrita por Everaldo Marques, ambos jornalistas dos canais ESPN e da rádio Estadão/ESPN. O ilustrador Diogo Salles assina a capa da obra.

Data e local de lançamento serão divulgados em breve aqui no blog.  E você, leitor, é desde já nosso convidado.

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por @FChiorino

A discussão aqui não é se Lionel Messi pode ser considerado o melhor jogador de futebol da história. Já é difícil chegar a uma conclusão baseada em números atuais, imagine então a complexidade de comparar gênios de épocas tão diferentes, como é o caso de Pelé e Maradona.

A questão é que Messi sempre será lembrado como “um dos maiores”, mas ainda falta uma Copa do Mundo que faça esse valor histórico não ter qualquer contestação. Impossível imaginar que essa cobrança não exista na cabeça do jogador. E é algo que faz uma enorme diferença para a Argentina, que espera dele a consagração vestindo a camisa da seleção.

Os argentinos não enxergam Messi como enxergam até hoje Maradona. Primeiro porque Lionel pouco jogou no país. Apenas uma rápida passagem pelo Newell’s Old Boys, quando logo chamou a atenção dos olheiros do Barcelona. Além disso, Messi ainda não conseguiu ser protagonista de uma seleção repleta de bons talentos. Venceu uma Olimpíada, é verdade, mas torcedor de verdade sabe que nada se compara a uma Copa do Mundo.

Enquanto isso não acontecer, os argentinos ainda olharão para Messi como o craque do Barcelona. Uma Copa é o maior cenário para um jogador assombrar o mundo. Foi o que Pelé (1958), Maradona (1986) e Romário (1994) fizeram. A prova dessa importância que se dá aos vencedores é o mar de lamentação que até hoje envolve as seleções da Hungria (1954), da Holanda (1974) e do Brasil (1982). Uma nostalgia que sempre esbarra na decepção de tanto brilho não ter sido concretizado em títulos.

O Barcelona pode jogar bonito, manter 99% de posse de bola e golear adversários com facilidade. Se não traduzir isso em campeonatos conquistados, certamente o torcedor catalão começará os protestos na arquibancada. Porque ser campeão é algo inerente ao futebol. É o que separa os bons times dos times realmente vencedores. Então, é natural que isso seja espelhado para uma Copa. Caso contrário, estaremos também desvalorizando o maior evento esportivo do mundo.

Tudo indica que 2014 se aproxima como a oportunidade perfeita. O jogador atingiu um nível técnico e físico que beira à perfeição. O planeta estará com os olhos voltados pra ele. Lionel Messi precisa vencer uma Copa do Mundo pela Argentina. Eu poderia apostar que não há uma noite em que esse gênio não durma sonhando com o caneco dourado.

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Minha filha, meu clube

por @FChiorino

Eu sou palmeirense praticante. Que sofreu com a fila dos 16 anos sem título, sugou até a última gota de leite da parceria com a Parmalat, foi ao estádio escondido dos pais, quebrou rádio e veneziana com gols decisivos. E tenho guardado até hoje o macacão do Palmeiras que ganhei de algum parente no dia do meu nascimento.

Então a regra é clara. Filho meu tem que ser palmeirense. É um dos meus desafios como pai, até porque a mãe é aquela corintiana que não tem muita certeza se o Marcelinho Carioca ainda joga pelo time. Ou seja, se eu não conseguir transmitir essa preferência para a Maria Eduarda, no caso, vou colocar isso na lista dos fracassos.

Estamos evoluindo. Maria Eduarda já divide o fone comigo em alguns jogos que acompanho pelo rádio. Canta “Olê, porco!” e está quase tirando de letra uma musiquinha que criei em homenagem ao Barcos, o novo ídolo. Ela ainda se atrapalha com alguns “Rs” no meio do caminho, mas é questão de tempo.

Claro que existe a preocupação de não colocar o fanatismo na herança. Mas considero importante compartilhar com ela a adoração que cultivo pelo meu time. Até pra ficar mais fácil de entender porque o pai dela comemora gols dando socos no ar ou ajoelhando no meio da sala agradecendo ao Jesus do Futebol (sim, ele de novo!).

É um barato comemorar um gol com a Maria Eduarda. Jogo ela pro alto, canto o hino da torcida, faço ela beijar o escudo. Ela dá risada, chama a mãe e diz que o “papai é maluquinho”. E quem não é, quando se respira futebol? E esse relacionamento me faz lembrar como isso aconteceu comigo. O periquito de cobre que ganhei de um bisavô. A primeira partida que meu pai me levou pela mão ao Palestra Itália. Eu e meu irmão voltando a pé para casa depois de um título no Morumbi. Meu avô com lágrimas nos olhos quando ganhamos o Paulistão de 93.

Os pedagogos que me perdoem, mas vou realmente tentar influenciar a decisão da minha filha. É uma espécie de missão que vai interferir diretamente na autoavaliação do meu desempenho como pai. Porque nessa vida poucas coisas são tão genuínas quanto compartilhar um amor verdadeiro. Amor entre pais e filhos, amor pelo seu clube de coração. Agora, resta misturá-los.

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Se você acha que Anderson Silva não perde uma luta há quase oito anos porque é por completo inatingível, está redondamente enganado. Afinal, convenhamos, no MMA é praticamente impossível não levar umas bordoadas vez ou outra. Mas, já que não pode escapar dos socos e chutes, o brasileiro tem como diferencial um queixo de aço capaz de agüentar as maiores bombas dos adversários.

O vídeo abaixo mostra cenas impressionantes, em lutas e treinos, nas quais Anderson chega a “oferecer a face” para uma sequência de socos do sparring ou adversário e sai ileso. Destaque para o trecho aos 46’, em que ele toma 26 socos diretos, de cima para baixo, em apenas 9 segundos – e parece não sentir nada.

Incrível mesmo é que, além de agüentar as pancadas, o brasileiro dificilmente aparece com o rosto inchado ou cortado, o que o levou a ter o apelido entre os seguidores de MMA na internet de “Pele de Jacaré”. Confira abaixo a resistência do Rei do UFC.

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Bellucci, o indecifrável

Por @maia_otavio

Nada me tira da cabeça que a coisa mais perigosa para a crônica esportiva é o senso comum. Porque, ao contrário dos clichês, que sempre soam desgastados, o senso comum é venenoso e insinuante. A corroboração da maioria nos provoca a acreditar que determinada premissa está correta sem antes examiná-la a fundo.

É sempre o que penso quando alguém diz que Thomaz Bellucci perdeu algum jogo por causa da “cabeça” – ou, usando outra expressão comum, por conta da falta de “força mental para enfrentar a pressão”. Recentemente até criaram um twitter chamado @Belluccisbrain, aliás bem engraçado, que reflete essa percepção sobre o brasileiro.

Não que Bellucci tenha a força mental equiparável aos melhores do mundo, mas discordo da forma como o argumento tem sido utilizado, no sentido de que ele é incapaz de lidar com a pressão.

Explico:

O paulista tem uma característica pessoal, que o acompanha desde o juvenil, que é de ser muito mais intuitivo e impetuoso em quadra do que racional e estratégico. Ele joga quase num piloto automático, guiado acima de tudo pelos seus instintos e pelo seu talento. Às vezes é o suficiente, Às vezes não.

O torcedor que observar com atenção vai perceber que o nosso número 1 reinicia os pontos praticamente sem parar para respirar, pensar no que vai fazer ou buscar a concentração mais adequada. Em contraponto ao que fazem Rafael Nadal e Novak Djokovic, conhecidos por quicar incansavelmente a bolinha antes de um saque, Thomaz simplesmente pega a bola e saca, sem nenhum ritual, a seco. Aposta tudo nos seus instintos. E mesmo nos pontos decisivos.

Vale dizer que esse modelo meio kamikase de encarar o jogo tem vantagens e desvantagens. Desse jeito, Bellucci certamente sente menos aquela pressão terrível que atormenta o tenista quando ele começa a pensar demais e que faz o braço travar. Além disso, muitas vezes surpreende o adversário com uma soltura inesperada para momentos-chave (quem assistiu ao duelo com Federer se espantou quando Bellucci, no game final, se recuperou com um segundo saque na linha quase indefensável, por exemplo). Por outro lado, o paulista nos leva à loucura porque joga os pontos decisivos sem o mesmo capricho e prudência dos rivais e muitas vezes paga o preço.

Demorou, mas depois de alguns anos acompanhando Thomaz – às vezes viajando ao lado do próprio -, entendi que o fator preponderante que atua sobre o desempenho dele é a intensidade, e não a capacidade de lidar com a pressão. Quando está intenso, seu talento e seus instintos dão trabalho a qualquer um, em qualquer momento; caso contrário, se torna irregular, incapaz de traçar uma estratégia mais segura, quase uma presa fácil. Isso faz com que ele oscile absurdamente no ano e dentro de um mesmo jogo. E explica porque ele deixa escapar tantos jogos no terceiro set, quando está mais ofegante.

O que dá para dizer sem medo de errar é que Bellucci vai sempre continuar nos surpreendendo para o bem e para o mal e nos desafiando com suas peculiaridades. Certamente é um dos mais difíceis de se decifrar. Mas quanto mais embarcarmos no senso comum, mais vamos ser pegos de surpresa.

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por @FChiorino

Ainda é cedo para avaliar o impacto, mas, ao dispensar Adriano, o Corinthians subiu um degrau para conquistar a Libertadores. A decisão da diretoria corintiana atinge um alvo preciso: o próprio elenco. É uma demonstração pública de que será valorizado quem treina todo dia, quem concentra no horário certo, quem não sofre com IMC alto.

É verdade que a decisão foi tardia. Gastou-se uma fábula, sem retorno algum. Poucos jogos, dois gols e nenhuma ação de marketing que justificasse o risco. Em algum momento, esperou-se que Adriano fosse uma continuação natural de Ronaldo, o que logo se mostrou impossível. Adriano praticamente não fala. Parece não ter vontade para coisa alguma. Um estado vegetativo que afugenta qualquer patrocinador em potencial.

Ronaldo viveu um ótimo primeiro semestre de 2009. E nada mais. Não conseguiu manter a vontade nem o nível técnico. Pra piorar, desestimulou-se ao não ser convocado para a Copa de 2010. A partir de então, passou a atrapalhar o Corinthians. Precisava estar sempre em campo, o time jogando em função de um único jogador. E o clube perdeu um Brasileiro que estava nas mãos e, no começo de 2011, protagonizou um vexame ao ser derrotado pelo Tolima na pré-Libertadores. Com Ronaldo em campo.

O Fenômeno aposentou e tudo clareou para o Corinthians. Não havia mais a necessidade de reverenciar um ídolo. O time ficou solto, ganhou uma nova formação tática e levou o Brasileiro. E chegou novamente a tal da Libertadores, taça que há muito é uma obsessão para clube e torcida.

Tite agora respira aliviado. Não viverá sob a sombra de escalar Adriano a partir do primeiro resultado adverso, ou colocá-lo em campo quando o gol teimar em não sair. E isso permitirá que os atacantes que lá estão (e não são poucos) briguem a cada treino em regime de meritocracia. Acabaram as discussões sobre Adriano ser ou não ser relacionado. Isso jamais poderia suplantar a participação do Corinthians na principal competição sul-americana.

Para ser campeão, não basta o fim do contrato com Adriano. O Corinthians de hoje não é brilhante, mas, ao mesmo tempo, é um time que toma poucos gols e que dificilmente perde. Talvez seja o necessário para a inédita conquista. Só as próximas rodadas poderão dizer. O que já se pode dizer é que o Corinthians retoma o foco ao que realmente interessa.

É o fim de uma era que, na prática, não existiu. A ausência de Adriano tem tudo para ser o grande reforço corintiano do ano.

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Hugo Hoyama, 42 anos, disputará em Londres os Jogos Olímpicos pela sexta vez. É um feito notável, poucos foram os atletas no mundo que alcançaram a marca. Hugo tem muito a comemorar. O esporte brasileiro, o tênis de mesa, especificamente, nem tanto.

Em duas décadas como atleta de alto rendimento, Hoyama jamais teve um resultado expressivo internacionalmente. Sim, ganhou três toneladas de medalhas em Pan-Americanos, mas não é preciso repetir que o Pan não é referência para desempenho de atleta algum. O mesa-tenista tem como melhor resultado da carreira um nono lugar nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, quando chegou a derrotar o campeão mundial. É isso.

Hoyama é um batalhador, um atleta apaixonado pelo seu esporte, um sujeito que merece aplausos por conseguir se manter como jogador de tênis de mesa durante tantos anos – afinal, aqui é o Brasil, não é a China ou a Suécia. Mas é preciso dizer que nunca foi um atleta de ponta. E se ele disputará os Jogos Olímpicos pela sexta vez, significa que por aqui não apareceu, em tanto tempo, um grupo de jogadores capaz de superá-lo.

Hugo vai jogar em Londres. E não será surpresa se jogar também no Rio, quando terá 47 anos – Hugo faz a aniversário em maio. Mas, enquanto estiver disputando os principais torneios do mundo, estará provando que o tênis de mesa no Brasil está parado no tempo.

Mais sobre a classificação de Hugo Hoyama e o momento do tênis de mesa brasileiro estão neste post do blog do jornalista e amigo Marcelo Laguna.

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Por @maia_otavio

Desde que o futebol é futebol, certos tipos de jogadores são bem-sucedidos em iludir a crônica esportiva, os torcedores e seus próprios treinadores. Sem falar, é claro, em cartolas endinheirados, que muitas vezes acabam comprando gato por lebre, a preço de ouro.

Basta ter um pouco mais de plasticidade para executar determinados movimentos que o dito cujo já vira candidato a craque, novo Pelé, novo Zico, novo isso, novo aquilo. Vez ou outra o entusiasmo se mostra justificado. Em muitas outras, exagerado.

E Lucas, a nova pérola são-paulina e da Seleção? Seguirá os passos de Neymar, a promessa que se firma como realidade, ou, a exemplo do que já se cochicha, terá um futuro mais ao estilo Denílson, que tinha verniz de craque e produtividade de coadjuvante?

Lucas é tratado como estrela de primeira grandeza. Já é jogador de Seleção e considerado uma das esperanças para 2014. Não à toa, faz brilhar os olhos do seu empresário e de clubes europeus.

Seu protagonismo não pára por aí. Convicto do sucesso vindouro, faz cursos de idiomas e etiqueta a fim de preparar a sua jornada na elite da bola. Além disso, adota uma gestão de carreira e imagem “profissional”, que inclui um pomposo site pessoal lançado com festa em entrevista coletiva.

Técnicos, cartolas, legiões de adolescentes, todos querem Lucas. Tudo parece perfeito. Mas, enquanto o jogador projeta um futuro brilhante no imaginário popular, dentro de campo as coisas não vão tão bem.

O São Paulo vai mal e Lucas, pior. Pouca eficiência, em especial nos jogos mais importantes. Muitos dribles, poucos gols e poucas vitórias. Como conseqüência, aqui e ali começam a surgir críticas, cada vez menos tímidas.

Ocorre que não basta lapidar o extra-campo quando ainda há muito a aprender dentro das quatro linhas. Lucas se prepara cuidadosamente para ter uma carreira brilhante no exterior, mas esquece do mais importante, que é lapidar seu próprio futebol.

Se existe uma diferença entre o que ele é e o que a imagem grandiosa dele projeta é culpa da crônica esportiva, dos treinadores, do empresário e dele próprio, que acreditou que era “diferente” antes de provar muita coisa.

A verdade é que Lucas subiu rápido demais. Após algumas – sim, algumas – boas apresentações no São Paulo, foi para a Seleção sub 20. Fez um bom campeonato Sul-americano e uma final excelente. De lá pulou para a Seleção principal. Conseguiu duas arrancadas no segundo tempo contra gringos desavisados e aí já foi o suficiente para que o jogador ganhasse no nosso imaginário uma envergadura que ainda não tem.

Lucas tem iludido muita gente, mas não porque é ardiloso ou uma farsa, e sim porque nós somos bobos e gostamos de exagerar as coisas. Ele faz jogadas de craque eventualmente, é verdade, mas isso não faz dele um craque. Porque craque não é simplesmente aquele que tem habilidade, mas quem sabe empregar essa habilidade como uma ferramenta eficaz para decidir jogos (alguém falou Messi?). Essa capacidade quase intelectual separa os que entram para a História dos que entram para a história das falsas promessas.

E não dá para discordar de que o jovem são-paulino, até o momento, não se mostrou capaz de usar suas habilidades com sapiência. É egoísta e tenta ser protagonista em todos, sim, todos os lances, o que no balanço final prejudica sua equipe. Porque se torna previsível e acerta uma jogada espetacular para dezenas de outras tentativas em vão.

Mas nós, os crédulos, assistimos aos dribles do camisa 7 e damos mais importância à sua habilidade do que à sua falta de sagacidade para usa-la – como se fosse mais fácil desenvolver a segunda do que a primeira. Tratamos a virtude mais rara e valiosa do futebol como se fosse um simples ajuste a ser feito ou um bônus natural da maturidade no futuro.

Lucas é talentoso e pode alcançar tudo o que espera, mas ainda tem muito a aprender. E sua curta trajetória deixa claro que nós, os cândidos e otimistas, temos muito mais.

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Atualização: Post atualizado em 12 de março de 2012, após a renúncia de Ricardo Teixeira

O afastamento definitivo de Ricardo Terra Teixeira do comando da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) deve ser comemorado pelo torcedor brasileiro, sim, mas sem arroubos de ingenuidade.

Comemorado, porque a roda da história do futebol brasileiro volta a andar. É o fim de 23 anos ininterruptos de poder concentrado nas mãos de figura obscura, afeita aos vícios políticos menos elogiosos. Houve avanços, como o campeonato nacional de pontos corridos, mas os clubes são economicamente reféns da CBF e o produto futebol brasileiro está muito aquém daquilo que poderia ser.

Os primeiros giros desta roda estarão a cargo das figuras que sustentaram Teixeira no poder. São os presidentes das federações estaduais e dos clubes.

E este grupo, como todos sabemos, também não está comprometido com mudanças positivas na maneira como se administra o futebol.

Assumiu José Maria Marin, de 80 anos, ex-presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), o vice-presidente mais velho, como manda o regulamento. Marin ficou famoso recentemente ao ser acusado de furtar uma medalha do Corinthians campeão da Copa São Paulo. Marin é uma figura em nada comprometida com qualquer tipo de inovação – é aliado de Marco Polo Del Nero, atual presidente da FPF e por sua vez aliado de Teixeira.

Marin já tem opositores. Reportagens mostraram que Francisco Novelletto, presidente da Federação Gaúcha e aliado fiel de Teixeira, já movimentava nos bastidores ação para forçar a realização de eleições imediatas. Tal grupo já contaria com 15 assinaturas de presidentes de federações estaduais. São 27 ao todo. Segundo o Estadão, Weber Magalhães, “homem de confiança de Teixeira”, é a alternativa favorita deste grupo. Hoje não se sabe se este grupo continua unido ou se perdeu força.

O anseio popular está distante desta movimentação dos dirigentes arcaicos. Há alguns dias, o deputado Romário (PSB-RJ), tuitou: “Tem que colocar uma pessoa técnica, que seja profissional, honesta e capaz.” Para o ex-atacante tal figura deveria ser escolhida, no momento, pela presidente Dilma Rousseff. Ou seja, o governo federal deveria intervir no comando do futebol.

Embora Romário se referisse ao atual período como emergencial, difícil apoiar tal intervenção. Simplesmente porque o governo tem assuntos mais importantes para tratar, como por exemplo a infraestrutura para 2014. Isso sem contar que tal intervenção provavelmente poderia gerar uma punição ao Brasil por parte da Fifa.

A saída pela modernização, portanto, deve partir dos clubes. Este é o momento ideal para as agremiações se articularem, criarem enfim uma Liga de fato e cortarem o cordão-umbilical do assistencialismo da CBF.

Embora o atual quadro de dirigentes não inspire otimismo, é fato que o futebol brasileiro vive agora um vácuo de poder. É a situação ideal para uma união improvável dos clubes que, após comerem na mão da CBF por décadas, podem agora almejar um futebol diferente, mais racional, mais profissional e digno da história do esporte no Brasil.

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