
Chamou atenção esta semana a ótima reportagem do canal Sportv a respeito do ex-goleiro argentino Andrada, ex-Vasco. Aquele mesmo que soca o chão, desesperado, ao levar o milésimo gol de Pelé no Maracanã.
Hoje com 73 anos, mas profundamente debilitado, Andrada vive em Rosário, na Argentina, ciente de que jamais vai se livrar de uma sombra. A sombra terrível dos assassinatos cometidos pela ditadura militar.
O ex-goleiro é acusado de ter integrado grupos de agentes civis da inteligência do exército. Tais grupos tinham papel fundamental para os militares ao delatar militantes da oposição ao regime. Isso para não falar na ajuda para armar emboscadas e assassinatos.
“El Gato”, o apelido de Andrada, teria participado da execução de Osvaldo Cambiasso e Eduardo Pereira Rossi, em 1983. Os dois militantes políticos foram sequestrados em um bar de Rosário e levados a um galpão por um grupo de brutamentos. Lá, foram torturados e assassinados.
Com dificuldade para falar e se locomover, Andrada nega a acusação, sem oferecer elementos concretos que poderiam inocentá-lo. Para complicar, até mesmo o Rosário Central, clube do qual é (foi) ídolo, virou-lhe as costas.
Como se sabe, a ditadura militar na Argentina (1976-1983) cometeu crimes imperdoáveis. Foram cerca de 30 mil civis mortos com requintes de crueldade, tais como ser atirado vivo de aviões sobre o mar. Bebês, filhos de militantes, foram sequestrados e muitos até hoje não conhecem seus verdadeiros pais.
À sombra da Operação Condor, união dos governos militares da região, há denúncias relevantes de que, de fato, o Peru entregou o jogo que classificou a Argentina para a final da Copa de 78. Uma Copa organizada enquanto toda essa gente padecia nos porões da ditadura.
Cabe à Justiça decidir se Andrada é ou não culpado de ato tão vergonhoso.
Em tempos de uma nova (e curiosa) polarização ideológica, para a qual as redes sociais parecem funcionar como um parque de diversões (vide o teor de comentários em blogs de política e portais noticiosos), que o caso do ex-goleiro sirva para refletirmos sobre o terror das ditaduras. Que nunca, em hipótese alguma, podem ser chamadas de “brandas”.
Não à toa, por aqui a Comissão da Verdade anda incomodando muitos setores…
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