Já ouvi argumentos a perder de vista, mas até agora não entendi a verdadeira razão pela qual nós, torcedores comuns, reclamamos tanto do melhor jogador brasileiro em atividade.
Tudo bem, Neymar pode não ser perfeito, pode não ser o homem que sonhamos para casar com a nossa filha, mas não dá fechar os olhos ao fato de que ele sintetiza tudo aquilo por que clamamos tanto nos últimos anos.
Senão vejamos:
(i)No momento em que o Brasil sente falta do seu futebol genuíno e amarga um festival de chutões, chuveirinhos e volantes cabeças-de-bagre, o camisa 11 dá espetáculo, com direito a dribles geniais, assistências desconcertantes (que a gente tende a ignorar) e gols de placa.
(ii)No momento em que estamos de saco cheio de atletas descomprometidos e sem brilho nos olhos, o atacante mostra uma fome de bola e um prazer de jogar futebol inquestionáveis, que resultam em atuações sempre vibrantes, mesmo nos dias em que falta inspiração.
(iii)Justo na hora em que o torcedor se ressente de ter na Seleção ou no nosso clube do coração um craque legítimo, daqueles que decidem nas horas mais importantes, o santista cansa de desequilibrar partidas cruciais.
(iv)Num contexto em que nos tornamos coadjuvantes no futebol internacional e estamos longe dos holofotes, Neymar mostra que é uma estrela de primeira grandeza, daquelas com capacidade para chegar ao topo do mundo e ficar marcada na história do esporte.
(v)Nessa dura entressafra, em que além de tudo nossos poucos bons nomes passam longas temporadas no estaleiro, o craque apanha, dá o sangue, mas nunca se contunde e jamais fica de fora de jogo algum, nem da pelada mais irrelevante.
Neymar é a melhor notícia do futebol brasileiro em muitos anos. Para mim, isso é fato consumado, sem margem para discussão. O que não entra na minha cabeça é que, quando finalmente surge um atleta com tantos atributos, nós não ficamos satisfeitos. Em vez de apreciarmos e celebrarmos o novo talento, fazemos beicinho e mostramos indignação com coisas completamente sem importância para o esporte. Faz diferença se ele corta o cabelo tigelinha ou com topete? Se usa chuteira rosa ou preta? Se fala bem ou mal numa entrevista?
Não custa lembrar que outros grandes nomes do futebol, como Romário, Pelé e Ronaldo, também não eram símbolos da humildade, do bom gosto ou da simpatia. Mesmo assim, marcaram seus nomes na história e foram reverenciados por todos nós.
O talento de Neymar não casa com a nossa implicância. Pelo menos não com esse nível de implicância. E só vejo três explicações para isso: ou somos recalcados porque o atacante samba na nossa cara toda vez que enfrenta nosso time, o que é uma alternativa lógica e viável; ou não gostamos de futebol, tese que considero bastante frágil; ou somos todos velhas fofoqueiras disfarçados de entendidos de futebol – opção que me parece a mais provável.
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