Do fundo do baú para maio, 2012

É cedo para dizer se algo relevante mudou na Seleção de Mano Menezes.

Mas é fato que as partidas contra a Dinamarca e EUA serviram para colocar uma pulga otimista atrás da nossa orelha.

Três pontos saltaram aos olhos:

1. Como se espera de uma seleção muito jovem, os jogadores mostraram grande amadurecimento num curto período de tempo. Neymar, Marcelo e Oscar, por exemplo, são hoje jogadores muito mais prontos do que há um ano.

2. O esquema tático não só está em linha com o futebol mais moderno que se pratica na Europa como está em linha com as características dos jogadores escalados – o que é um casamento imprescindível.

3. Nos mais variados esportes existe o tal do “turning point”, aquele momento da virada de uma equipe ou atleta. Às vezes um time insosso muda de cara com uma leve pitada de sal, e assim se torna subitamente mais forte e inicia uma arrancada. Não dá para descartar que essa excursão, com as novidades de Oscar, Hulk e da marcação por pressão, seja esse turning point.

Seguindo a melhor cartilha tucana, pode não ser nada, mas pode ser tudo.

Então a gente não solta fogos, mas acompanha com bem mais atenção e otimismo o que vem pela frente – a começar por México e Argentina.

Compartilhe!

Liguem as máquinas! O livro do Esporte Fino já está na gráfica. É o momento, então, de convidarmos todos os leitores e colaboradores do blog para o lançamento de “Esporte Fino – O Esporte Além dos Resultados”, que terá prefácio de Flavio Gomes e orelha escrita por Everaldo Marques, ambos jornalistas dos canais ESPN e da rádio Estadão/ESPN. O ilustrador Diogo Salles (Jornal da Tarde) assina a capa da obra.

Anote data e local do lançamento: você será muito bem-vindo!

Compartilhe!

O inexplicável Coritiba

Crédito: Divulgação VIPCOMM

por @FChiorino

O torcedor do Coritiba pode reclamar de qualquer coisa. Menos de rotina. Poucos times do futebol brasileiro oscilaram tanto na última década. O detalhe é que o Coxa não encontrou uma zona de equilíbrio e se tornou um dos grandes mistérios do futebol brasileiro.

As conquistas estaduais pouco revelam, principalmente em relação ao estado do Paraná, onde poucos clubes realmente disputam algo. Ainda assim, foram seis títulos nos últimos dez anos. Entretanto, nesse mesmo período, o clube amargou três anos na Série B. Venceu as edições de 2007 e 2010, mas trouxe ao torcedor um sentimento de profunda desconfiança.

Ao que tudo indica, o Coritiba descobriu uma brecha para viver alguns períodos mais gloriosos. Investir em um bom time no estadual, que já entra embalado na Copa do Brasil. A estratégia vem dando certo. O clube foi no mínimo semifinalista em três das últimas quatro edições da Copa do Brasil, já contando 2012. Em 2011, foi à final (algo inédito entre os clubes do estado), quando acabou derrotado pelo Vasco.

Em 2011, o Coritiba também se destacou ao bater o recorde brasileiro de vitórias seguidas. Foram 24 ao todo, superando o Palmeiras de 1996 (21 vitórias). E ainda, pela Copa do Brasil, obteve uma histórica vitória de 6 a 0 – justamente contra o Palmeiras.

O Coritiba está longe de ser um clube nanico do futebol brasileiro. A última pesquisa sobre as maiores torcidas, realizada pela Pluri Consultoria, colocou o clube na 18ª posição, com 1,1 milhão de torcedores, logo atrás do maior rival – o Atlético Paranaense (1,2 milhão). No ano passado, atingiu a considerável marca de 32 mil sócio-torcedores. O sucesso do programa Sócio-Coxa foi tão repentino que o clube teve que suspender as vendas, por conta da capacidade de assentos do Couto Pereira. Deve-se também destacar o bom trabalho das categorias de base, de onde saíram nomes de impacto (mesmo que não duradouro), como Keirrison, Adriano, Miranda e Henrique.

Nenhuma pista clara sobre o futuro do Coritiba. Nada o impede de vencer o São Paulo e disputar mais uma final da Copa do Brasil. Já no Brasileiro, dois jogos e duas derrotas até agora. A dois passos do paraíso ou a 36 de um retorno ao inferno. O Coritiba é hoje a mais enigmática montanha-russa do futebol brasileiro.

Compartilhe!

O equilíbrio e a eficiência do Corinthians na Libertadores da América têm levado os torcedores rivais ao desespero.

“Nada será igual se não pudermos tirar um barato dos corintianos por nunca terem conquistado uma Libertadores”, afirmou à reportagem uma fonte anônima.

“Corinthians com estádio e com Libertadores será uma tragédia de proporções inimagináveis”, reforçou uma pessoa com unhas roídas.

Escutas de autoria não-identificada já flagraram conversas de um grupo clandestino anticorintiano que se mobiliza para minimizar uma possível conquista alvinegra.

A facção – “Os Contras do Jardim Irã e da Vila Nicarágua” – estaria preparando um manual sobre como se conformar caso o Corinthians levante a taça continental.

Investigações interceptaram um rascunho desse manual, que listava os seguintes argumentos para tentar acalmar os companheiros:

1. O título foi roubado (anotação – escolher lances polêmicos nos próximos jogos)

2. O Corinthians continua na rabeira de títulos importantes entre os paulistas, atrás de Santos e São Paulo e ao lado do Palmeiras (anotação – se está igual ao Palmeiras não está bem).

3. Até o Once Caldas já ganhou Libertadores.

4. Todo time médio ganha uma Libertadores. Mas só os grandes ganham mais de uma vez.

5. O título foi roubado.

6. Passaporte tem validade.

7. O Itaquerão foi construído com dinheiro público.

8. O título foi roubado.

9. O título foi roubado

Fonte ligada à Secretaria de Segurança Pública admite preocupação para conter os ânimos em São Paulo no dia da festa do eventual título.

“Será uma energia explosiva. A intensidade da alegria dos corintianos será a mesma intensidade da raiva e depressão dos Contras. É riscar fósforo em posto de gasolina”, explicou .

É esperar para ver…

Compartilhe!

Desde que Raí pendurou as chuteiras, todo são-paulino anseia por ver em ação um novo ídolo com as mesmas características do antigo camisa 10: um atleta formado em casa, bom de bola e com capacidade de liderar o time num ciclo vitorioso.

Nós, torcedores, temos boa vontade e fazemos de tudo para dar uma força aos muitos que se candidatam a esse papel; basta notar que sempre acreditamos que o próximo a brilhar na Copinha de Juniores será o tal do novo ídolo. E aí gritamos seu nome, ressaltamos suas virtudes e até entramos num processo de auto-engano, hiperbolizando suas qualidades e minimizando seus defeitos.

Ao longo dos últimos 15 anos, nos entusiasmamos com jogadores como Edu, Renatinho e Montezine, que passaram longe do que prometiam. Também tivemos Kaká e Hernanes, é verdade, mas esses também não conseguiram lugar entre os maiores da história do clube, apesar de fazerem parte importante dela.

Em 2008, comecei a acompanhar alguns jogadores da base do São Paulo. Lá estava o novo novo Raí: com 16 anos, era rápido, inteligente e não tinha medo de fazer gol. Chamava-se Oscar.

Fui pegando simpatia e botando fé no menino. Até que ele foi escalado para um jogo na Copa Sul-Americana que valia classificação. A decisão foi para os pênaltis e ele perdeu o seu. O São Paulo acabou eliminado em casa. Fatalidade, disse eu. O menino terá muito a festejar com a torcida no futuro.

Veio a Copinha de Juniores em janeiro e o São Paulo chegou firme à semifinal. Oscar agora era a estrela do time. Com o time perdendo o jogo por 2 a 1, ele teve a seu favor um pênalti aos 47 minutos do segundo tempo. Oscar pegou a bola, como era natural que acontecesse… E desperdiçou de novo. Outra eliminação.

Não desanimei com o novo novo Raí e tentei ver os infortúnios pelo lado positivo. “Além de craque, esse vai se sentir em dívida e fazer de tudo para retribuir o apoio”.

Ao longo do ano, Oscar começou a ganhar oportunidades no time de cima e a diretoria se mantinha irredutível na sua confiança no jogador. Achei que minha profecia ia se concretizar.

Feliz da vida e curioso para ver o novo craque, estive no Morumbi num dos jogos finais do Brasileirão de 2009 – contra o Vitória. Oscar entrou e a torcida enlouqueceu com cada arrancada. A vontade de que ele se transformasse no novo Messias era enorme. O time venceu aquele jogo e por pouco não foi campeão algumas rodadas depois.

Eis que então de repente, não mais do que de repente, tudo azedou. E nada pareceu fazer sentido.

Com só 18 anos, Oscar era tratado a pão de ló no Morumbi: desfrutava da melhor estrutura de categorias de base do País, gozava da confiança da diretoria e do carinho da torcida e já ganhava espaço no time principal, no qual por pouco deu a sua primeira volta olímpica profissional no Brasileirão. Além disso, estava selecionado para jogar a sua primeira Libertadores.

Parecia um casamento promissor… Mas aí o mundo deu suas voltas e o jogador entrou na justiça para mandar o clube às favas. Decepção geral na arquibancada.

Difícil entender e julgar. Mas já está claro que a versão de Oscar para forçar a saída do clube apresenta contradições importantes e está diretamente ligada a dinheiro e à influência do empresário, interessado em atingir seus desafetos na diretoria do clube. Por isso, não se pode olhar o caso com maniqueísmo, como se fosse uma briga entre um clube poderoso e um atleta oprimido. Se o jogador ficou fora de campo por insegurança jurídica durante tanto tempo, parece ter sua parcela de responsabilidade.

Os fatos até agora públicos me levam a acreditar em duas alternativas sobre Oscar – que não vão mudar a não ser que fique claro que o São Paulo realmente pisou na bola: ou o jogador é um fantoche de seu empresário sem nenhuma capacidade de emitir opinião própria ou é alguém que topou um jogo ardiloso para ganhar um dinheiro fácil (R$ 1 milhão do seu empresário, como disse Casemiro) e está se escondendo atrás de um papel de vítima.

Seja um ou seja o outro, o fato é que Oscar é bom de bola, mas falta a ele, por enquanto, algo que nunca faltou a Raí: a postura de ídolo – aquele jogador que fica na história não só por gols e troféus, mas porque inspira dentro e fora das quatro linhas. Vai precisar comer muito arroz e feijão para ser comparado ao camisa 10 de Telê Santana.

Compartilhe!

E dá-lhe Porco!

Por @FChiorino

- Esse juiz é um ladrão
- Vô, nem começou o jogo
- Depois não diga que eu não avisei

(Diálogo real que tive um dia com o meu avô Rafael)

Difícil precisar a época. Sei que era final da década de 80 e o Palmeiras vivia uma crise sem fim. Naquele tempo, meu avô Rafael tinha um cargo de extrema responsabilidade na Sadia, e a minha mãe sempre pedia para que eu e meus irmãos não o chateássemos nas visitas aos domingos.

Palmeiras e Corinthians se enfrentavam e meu avô estava extremamente tenso, como eu nunca havia visto. Não valia título, não valia nada. Eu só sei que Edu Manga fez um gol, o Palmeiras venceu aquela partida e o meu avô sumiu por alguns instantes.

Os netos todos comportados no sofá. Meu pai preparando a dose do uísque. Minha mãe e minha avó discutindo amenidades. Eis que meu avô irrompe a sala carregando um enorme porco congelado e gritando: “E dá-lhe Porco! E dá-lhe Porco! Olê, olê, olê”.

Os netos levantaram do sofá e começaram a pular ao redor do meu avô, batendo palmas e cantando o hino da torcida. Fiquei anestesiado e encantado. A partir daquela cena, eu sabia qual seria o time que carregaria para o resto da vida.

Alguns anos depois, Palmeiras e Corinthians disputavam o histórico Paulista de 93. Fomos passar o feriado de Corpus Christi em um hotel-fazenda de Jundiaí e meu avô também estava lá. Foi a primeira vez que chorei por causa de um jogo de futebol.

Eu acompanhava pela TV, mas ouvindo pelo radinho de pilha. Quando Evair fez o gol de pênalti e o locutor José Silvério anunciou “E agora eu vou soltar a minha voz…”, cai em prantos e fui procurar o meu avô, que preferiu ver a final sozinho em seu quarto. Ele me abraçou e revelou: “Não via nada na hora do pênalti. Me fechei no armário do quarto e só sai quando ouvi os gritos”.

Vieram novas conquistas e outras decepções. E os netos casaram e não estão mais lá todos os domingos. Mas eu continuo enxergando aquele porco congelado, erguido ao céu como um troféu. Naquela noite meu avô sorria e, sem perceber, transmitia a mais valiosa herança que um garoto de 5 anos pode desejar.

Compartilhe!

Daí você pensa em um campeão olímpico e imediatamente imagina um sujeito alto e musculoso ou magro e com físico bem cuidado ou então gordo e forte, como um judoca da categoria salve-se quem puder. Joe De Pietro não era nada disso. O americano foi campeão olímpico no levantamento de peso nos Jogos de Londres 1948. E tinha 1m40 de altura. Era um anão.

Na categoria até 56 quilos, De Pietro, campeão mundial em 1947, encerrou a competição com 307,5 quilos, contra 297,5 quilos do britânico Julian Creus, medalhista de prata. O americano Richard Tom completou o pódio (295 quilos).

De Pietro morreu em 1999, aos 84 anos.

Compartilhe!

A Revolução do Apito Amigo

Por @FChiorino

Quem não torce pelo Corinthians vai morrer falando em “apito amigo”. E o corintiano, por sua vez, vai esperar qualquer oportunidade em que o rival for favorecido pela arbitragem para equilibrar a discussão. E assim sempre será. Porque assim é o comportamento do torcedor. Porque assim a provocação vira tradição.

O problema é que essas duas vertentes entraram em ebulição na noite de ontem. Um lance dificílimo, que até agora ninguém chegou a uma conclusão. Foi gol do Vasco? Estava impedido? Jogador do Corinthians dava condição? E o #apitoamigo passou a liderar os tópicos do Twitter.

Mas não parou por aí. Surgiram então os Sommeliers de Tira-Teima. Especialistas em frames, retas, diagonais, ângulos, côncavo, convexo. Traçaram linhas imaginárias para sustentar a defesa de que foi ou não foi impedimento. Convocaram os universitários, a família, a Soninha Francine, a Nasa para opinar. E até jornalistas esportivos renomados entraram na ilha de edição para elucidar a dúvida e brigar com os torcedores.

Ou seja, a piada entre os torcedores virou troca violenta de acusações e a graça se foi. Se o gol foi legal, não é possível condenar juiz, bandeirinha, a mãe de ambos, o papa. Assim como também não se pode usar apenas um vídeo da Globo para desqualificar a dúvida. Cada um com sua opinião e vamos para os próximos 90 minutos de bola rolando.

A questão que realmente importa é que a tecnologia acabou com qualquer resquício de tolerância do torcedor. Ele está lá, munido de satélites, um advogado de plantão para defender o seu cliente. E esquecemos que o erro é intrínseco a esse esporte. O craque do time perde o pênalti decisivo. O goleiro erra o tempo de bola e toma o gol aos 47 do segundo tempo. O bandeirinha levanta a bandeira mais por medo do que por convicção.

E amanhã estaremos aqui novamente discutindo, sem enxergar o óbvio. Esquecemos que o futebol é perpetuado por grandes conquistas e grandes polêmicas. Desejamos uma precisão milimétrica, um aval, um laudo técnico. Não torcemos mais por instinto. Estamos preocupados agora com a justiça tecnológica. Mau sinal.

Compartilhe!

Por @zeantoniolima

Com o fim dos campeonatos nacionais, as atenções do futebol europeu vão se voltar para a Eurocopa e, mais especificamente, para o “boicote” que dirigentes da União Europeia planejam impor à Ucrânia. Serão tempos de notícias tolas. O boicote é, na verdade, um arremedo de boicote, reflexo de um mundo sem ideologias.

O “boicote” é a ameaça de diplomatas da UE de não viajarem para a Ucrânia, sede da competição ao lado da Polônia. O motivo é o tratamento que a ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko (acima) estaria recebendo na prisão por parte do governo do atual presidente Viktor Yanukovych (abaixo). Em outubro, Tymoshenko foi condenada a sete anos de prisão por abuso de poder, em um julgamento classificado como “meramente político” pela UE e pelos EUA.

E o que está por trás da condenação? Há suspeitas de que Tymoshenko não seja mesmo flor que se cheire, mas o julgamento tem toda a aparência de vingança por parte de Yanukovych. Tymoshenko é uma das líderes da chamada Revolução Laranja, que em 2004 evitou a posse de Yanukovych após uma eleição considerada fraudulenta. Em 2010, os dois disputaram a eleição presidencial e ele venceu (aparentemente sem irregularidades). E onde entram a UE e a Rússia? A Ucrânia é um país divido. A grosso modo, o oeste é católico, pró-ocidente e fala ucraniano. O leste é ortodoxo, pró-Rússia e fala russo. Há uma grande disputa por influência na Ucrânia, e Tymoshenko colocou o país no caminho desejado pelos europeus ocidentais.

Assim, Tymoshenko virou queridinha da UE. Mas será que isso vale o boicote? Um boicote eficiente, como o sofrido pela África do Sul por conta da nojeira do Apartheid, precisa de apoio popular. A ausência de um, dez ou 20 diplomatas e governantes não fará rigorosamente diferença nenhuma para Tymoshenko, Yanukovych ou qualquer outra pessoa. E como sustentar um boicote popular (e portanto eficiente) se pairam dúvidas também sobre o motivo do boicote? Com o continente em crise, o torcedor europeu quer é aproveitar a Euro para se divertir um pouco, e não perder a Eurocopa por conta de um boicote sugerido justamente pelo establishment político que inventou a crise.

Um boicote de verdade é uma arma poderosa. Ele é capaz de levar uma situação política para uma imensa quantidade de pessoas que, normalmente, não estariam interessadas no assunto. É publicidade ruim, humilhação e pressão política sobre um governo. A UE acusa Yanukovych de fazer justiça “seletiva”. Mas, num mundo cheio de hipocrisia, como é o nosso, que causa poderia promover um boicote? Que país, depois de se calar com a realização do GP do Bahrein e de celebrar “um mundo, um sonho” nos Jogos de Pequim em 2008, pode boicotar a Ucrânia?

Fotos: Alexander Prokopenko / Divulgação e UN Photo

Compartilhe!

As escolhas de Tite

Por @FChiorino

O Corinthians é um gigante do futebol brasileiro. Ainda assim, historicamente, o clube acostumou-se a viver cercado por crises e insatisfação da torcida. A cobrança excessiva dos fieis ainda existe, mas o ambiente mudou significativamente nos últimos anos.

O Corinthians é hoje um clube que é protagonista das competições que disputa. Chega quase sempre às rodadas finais com chances reais de título. O que mudou? O que se vê é um time que perde poucos jogadores a cada ano e consegue manter os destaques por um período maior. As reposições são rápidas e as mudanças contínuas de treinadores desaceleraram.

Ambiente mais pacífico, investimentos certeiros do departamento de marketing, apoio político, construção do estádio. Tudo relativamente em ordem. Mas ainda falta a Taça Libertadores, objeto de desejo de 11 a cada 10 corintianos. Essa obsessão começa a ganhar contornos mais claros. E um dos grandes responsáveis por essa guinada é Tite.

O treinador venceu o último Brasileiro sob uma chuva de críticas e contestações. Os mais fanáticos acreditavam que para Libertadores seria necessário um técnico de maior bagagem. E hoje é possível enxergar um Corinthians extremamente eficiente. O esquema de jogo proposto é pragmático. Uma defesa que passa diversos jogos sem tomar gol, a melhor dupla de volantes do país e um ataque que funciona na base do revezamento.

Havia falhas graves no time titular. E Tite soube reger as mudanças com a Libertadores em movimento, o que normalmente é visto como um suicídio. O goleiro Júlio César abusou das falhas nos momentos decisivos e deu lugar a um seguro Cássio. O volante Edenilson ganhou vaga na lateral-direita e desbancou rapidamente o combalido Alessandro. Alex era considerado titular antes de assinar o contrato, mas Tite insistiu com Danilo, que se mostrou fundamental nos momentos mais críticos. Liedson, até então imexível no ataque, foi sacado após evidente deficiência física e técnica. E promoveu-se um rodízio entre Jorge Henrique e Willian, em que o time ganhou mais mobilidade pelas pontas e deixou de centralizar as finalizações. Foi-se Adriano, um peso morto com regalias inaceitáveis.

Caminho árduo ainda deverá ser percorrido para a conquista da Libertadores. De fato, nessa edição, o Corinthians ainda não foi testado por um grande clube do continente e viverá agora o primeiro embate contra um brasileiro. Mas nada indica que entrará em campo um time aflito e desequilibrado emocionalmente. Esse Corinthians parece ter incorporado a frieza de Tite. Até o sofrimento é calculado.  Um treinador que ganha de 1 a 0, sem qualquer constrangimento. E que não para de ganhar. A América nunca esteve tão perto.

Compartilhe!

Compre o livro "Esporte Fino - O Esporte Além dos Resultados"