Desde que Raí pendurou as chuteiras, todo são-paulino anseia por ver em ação um novo ídolo com as mesmas características do antigo camisa 10: um atleta formado em casa, bom de bola e com capacidade de liderar o time num ciclo vitorioso.
Nós, torcedores, temos boa vontade e fazemos de tudo para dar uma força aos muitos que se candidatam a esse papel; basta notar que sempre acreditamos que o próximo a brilhar na Copinha de Juniores será o tal do novo ídolo. E aí gritamos seu nome, ressaltamos suas virtudes e até entramos num processo de auto-engano, hiperbolizando suas qualidades e minimizando seus defeitos.
Ao longo dos últimos 15 anos, nos entusiasmamos com jogadores como Edu, Renatinho e Montezine, que passaram longe do que prometiam. Também tivemos Kaká e Hernanes, é verdade, mas esses também não conseguiram lugar entre os maiores da história do clube, apesar de fazerem parte importante dela.
Em 2008, comecei a acompanhar alguns jogadores da base do São Paulo. Lá estava o novo novo Raí: com 16 anos, era rápido, inteligente e não tinha medo de fazer gol. Chamava-se Oscar.
Fui pegando simpatia e botando fé no menino. Até que ele foi escalado para um jogo na Copa Sul-Americana que valia classificação. A decisão foi para os pênaltis e ele perdeu o seu. O São Paulo acabou eliminado em casa. Fatalidade, disse eu. O menino terá muito a festejar com a torcida no futuro.
Veio a Copinha de Juniores em janeiro e o São Paulo chegou firme à semifinal. Oscar agora era a estrela do time. Com o time perdendo o jogo por 2 a 1, ele teve a seu favor um pênalti aos 47 minutos do segundo tempo. Oscar pegou a bola, como era natural que acontecesse… E desperdiçou de novo. Outra eliminação.
Não desanimei com o novo novo Raí e tentei ver os infortúnios pelo lado positivo. “Além de craque, esse vai se sentir em dívida e fazer de tudo para retribuir o apoio”.
Ao longo do ano, Oscar começou a ganhar oportunidades no time de cima e a diretoria se mantinha irredutível na sua confiança no jogador. Achei que minha profecia ia se concretizar.
Feliz da vida e curioso para ver o novo craque, estive no Morumbi num dos jogos finais do Brasileirão de 2009 – contra o Vitória. Oscar entrou e a torcida enlouqueceu com cada arrancada. A vontade de que ele se transformasse no novo Messias era enorme. O time venceu aquele jogo e por pouco não foi campeão algumas rodadas depois.
Eis que então de repente, não mais do que de repente, tudo azedou. E nada pareceu fazer sentido.
Com só 18 anos, Oscar era tratado a pão de ló no Morumbi: desfrutava da melhor estrutura de categorias de base do País, gozava da confiança da diretoria e do carinho da torcida e já ganhava espaço no time principal, no qual por pouco deu a sua primeira volta olímpica profissional no Brasileirão. Além disso, estava selecionado para jogar a sua primeira Libertadores.
Parecia um casamento promissor… Mas aí o mundo deu suas voltas e o jogador entrou na justiça para mandar o clube às favas. Decepção geral na arquibancada.
Difícil entender e julgar. Mas já está claro que a versão de Oscar para forçar a saída do clube apresenta contradições importantes e está diretamente ligada a dinheiro e à influência do empresário, interessado em atingir seus desafetos na diretoria do clube. Por isso, não se pode olhar o caso com maniqueísmo, como se fosse uma briga entre um clube poderoso e um atleta oprimido. Se o jogador ficou fora de campo por insegurança jurídica durante tanto tempo, parece ter sua parcela de responsabilidade.
Os fatos até agora públicos me levam a acreditar em duas alternativas sobre Oscar – que não vão mudar a não ser que fique claro que o São Paulo realmente pisou na bola: ou o jogador é um fantoche de seu empresário sem nenhuma capacidade de emitir opinião própria ou é alguém que topou um jogo ardiloso para ganhar um dinheiro fácil (R$ 1 milhão do seu empresário, como disse Casemiro) e está se escondendo atrás de um papel de vítima.
Seja um ou seja o outro, o fato é que Oscar é bom de bola, mas falta a ele, por enquanto, algo que nunca faltou a Raí: a postura de ídolo – aquele jogador que fica na história não só por gols e troféus, mas porque inspira dentro e fora das quatro linhas. Vai precisar comer muito arroz e feijão para ser comparado ao camisa 10 de Telê Santana.