A agonia do jornalismo esportivo

O colega Victor Martins, editor-executivo do Grande Prêmio, foi criticado no Twitter por uma seguidora por conta de seus comentários a respeito do Rally de São Paulo, um torneio disputado no Parque São Jorge e organizado por Rubens Barrichello. Disse a moça: “Parece que o brasileiro gosta eh de criticar e nao de incentivar o novo e diferente!”.

O evento foi um fiasco. Arquibancadas vazias, parte técnica abaixo da crítica, carros sem velocidade e sem preparo para correr na terra (que virou lama com a chuva). Alguns atolaram. Flavio Gomes fez um relato completo do fiasco.

Mas voltemos à crítica feita ao Martins, o popular Vitonez. A moça que o critica diz que brasileiro não gosta de “incentivar o novo e o diferente”. Incentivar. Há uma perigosa confusão no ar a respeito da função de um jornalista. Obrigação de um repórter, com microfone ou teclado nas mãos, é informar, reportar, noticiar e sempre, sempre ter um olhar crítico. O que não significa obrigatoriamente falar mal, mas ter a capacidade de observar e contar ao público o que está vendo.

Quem apoia ou incentiva é patrocinador e organizador. Quem torce é torcida. Jornalista que torce não é jornalista. O jornalismo esportivo, não é exagero dizer, vive uma crise. Quer ser leve, o que é ótimo, mas vira engraçadinho e se esquece da informação. E, de alguns anos para cá, alguém decidiu que jornalista esportivo é aquele que defende os atletas brasileiros. É aquele que briga pelo que “é bom para o Brasil (ou brasileiro)”. Não é. Jornalismo não é jogador pedir música no Fantástico quando fizer três gols.

Esta postura deu ao público a visão equivocada de que jornalista tem de apoiar e incentivar, como citou a tuiteira em sua crítica ao Victor. Aqueles que se mantêm imparciais e fazem seu trabalho de informar são inimigos da pátria. Outro erro comum, aliás: confundir esporte com patriotismo. Ai de você se torcer contra a seleção brasileira de futebol ou se achar que Schumacher foi melhor que Senna.

O jornalismo esportivo vive uma luta diária para não deixar de existir. Aos trancos e barrancos, luta pela própria vida. Mas não será uma surpresa se um dia aparecer nos trending topics do Twitter a hashtag #RIPjornalismoesportivo.

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Jornalista e tocador de guitarra, 35 anos. Assume que gosta de Bee Gees sem sentir vergonha.
Twitter: @estadodecirco
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8 Palpites

  1. Basta assistir a qualquer jornalzinha do SporTV, e depois um da ESPN Brasil para entender a diferença.

  2. Alexandre Rodrigues Alves

    É algo sofrível isso, com poucas excessões o que vemos são transmissões ufanistas, com qualidade perto de zero (qdo temos brasileiros envolvidos). É algo realmente que precisa de ser discutido seriamente, o jornalismo esportivo não pode ser refém da torcida, é uma editoria como todas as outras, que trabalha com emoção, mas não pode ser contaminada apenas por ela.

  3. Marz

    Parabéns pelo post, poucas vezes se vê uma crítica assim entre “iguais”. O pior é que não é só o jornalismo esportivo que tá ficando assim. Basta assistir ao SPTV 1ª edição e ao Jornal Hoje (argh!) que se verá um desfile de gracinhas e palhaçadinhas nauseantes.

  4. Alan

    O problema é que estão confundido ter um olhar crítico com falar mal de tudo. Isso sem contar aqueles que criticam e quando alguém questiona eles dão xiliques. E isso ocorre no SPORTV, ESPN, TV aberta, rádio, o que for.

    A informação ou análise imparcial sobre o assunto é o que eu espero, pois acredito que mo profissional especialista naquele esporte tem condições para isso. Quando ele se torna um animador de arquibancadas (tão chato quanto um. Quem vai ao engenhão sabe como é mala, alguém que está mais preocupado com o show ou parece uma tia velha rabugenta mais interessada em fazer os outros pensar igual a ele do que informar e deixar o público decidir como pensar eu coloco na minha lista de jornalistas que devem ser evitados por mim sempre.

  5. Dizer que talvez o maior responsável por isso seja o Galvão Bueno seria exagero?

    É uma dúvida real que tenho. Muitos culpam a Rede Globo por isso, mas não sei até onde a postural global influenciou Galvão Bueno ou até onde foi o inverso.

    Pelo que sei, as transmissões esportivas da Globo e das demais emissoras nunca foram tão exageradamente ufanistas até a metade dos anos 80, com o advento do combo Galvão Bueno+Ayrton Senna. Uma coisa levou à outra, o sucesso descomunal de um praticamente resultou no sucesso do outro, naquela época o Brasil descontou sua falta de auto-estima neste casamento bem-sucedido entre o ídolo e o homem que tentou transformar o ídolo em herói, etc.

    Osmar Santos e Luciano do Valle, em seus tempos de Globo, não passavam nem perto da postura de tiete que Galvão Bueno popularizou na F-1 e depois levou para o futebol. Pode ter sido a partir daí que a Globo, vendo tamanho sucesso, abraçou a ideia e agregou isso ao famigerado “Padrão Globo de Jornalismo” e, como maior potência da comunicação no país, acabou formando uma tendência que contaminou os que queriam unicamente audiência, sem no entanto alterar a forma de trabalho de quem quer fazer – e faz – jornalismo sério.

    Desculpe por me alongar, mas acho o debate válido. Não se trata de achar um culpado, mas sim a origem do problema.

  6. Glauber

    Blá blá blá…
    Se o cara quiser ele torce, o problema este em quem ouve, que não tem a capacida de criticar o que o jornalista esportivo está dizendo.

  7. No início dos anos 2000 a MTV criou o Rock & Gol, um programa de humor que falava sobre o futebol e fazia graça com o “lado B” do esporte. Assim, jogadores, técnicos e dirigentes participavam do programa que não era, nem nunca foi jornalístico. Aliás, era feito por comediantes e não jornalistas. E, como era um bom programa, divertido dentro da sua proposta, deu audiência.

    Na minha opinião, começou aí a pior desgraça do jornalismo esportivo, que já vinha mal, é verdade. Porque, a partir disso, além da necessidade de se criar mitos intocáveis para cada modalidade esportiva (Senna, Guga, Oscar, etc), a imprensa entendeu que incluir o humor no jornalismo daria mais audiência.

    E aí surgiram o Thiago Leifert, Tadeu Schimidt, Milton Neves e mais uma penca de gente que acha que fazer “jornalismo leve” é produzir um programa cheio de gracinhas, piadinhas, desenhinhos, tratando o espectador como se ele fosse um idiota.

    Hoje, tirando a ESPN Brasil (que de vez em quando tem seus momentos engraçadinhos, mas ainda prima por programação de qualidade na maioria das vezes) não temos mais opção de ver um programa de qualidade, com profissionais sérios. Aliás, não conseguimos sequer, ver os gols da rodada do brasileirão de uma forma sóbria. Em qualquer programa eles são passados com algum gracejo sem graça.

    Saudades do tempo de Léo Batista.

  8. Como o Hugo Becker comentou, talvez seja interessante tentar encontrar a origem do problema. Não vejo o combo Senna+Galvão como uma espécie de “big-bang” da idiotice jornalística que se vive hoje em dia. Creio que é mais uma consequência da “evolução” da sociedade brasileira, que saiu de uma ditadura militar para o regime democrático. Veja, não estou fazendo apologia ao regime ditatorial. Eu apenas entendo que uma de suas consequências foi criar uma cultura da crítica, mesmo que fosse ao próprio regime. A partir da abertura, o que se viu foi o nascimento de gerações acostumadas a ouvirem sempre sim, sem serem contrariadas. Aí, quando alguém faz uma crítica, reagem desta forma. O pensamento crítico deixou de ser ensinado nas escolas (se é que um dia foi) há muito tempo. Televisão virou apenas entretenimento. Por isso os programas esportivos, e não só eles, se transformaram nestes pastelões, sem conteúdo. Uma pena.

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