Desde o sucesso na Copa do Mundo, se convencionou lembrar o diminuto tamanho da população do Uruguai (3,3 milhões) para elogiar a Celeste. Desconfio que esse elogio partiu da imprensa americana que, acostumada ao cartesianismo das estatísticas, procura racionalizar aspectos do futebol que brasileiros, argentinos, italianos, alemães e outras populações que acompanham o futebol há mais tempo nem se importam. De todo modo, analisemos o sucesso uruguaio sob esse prisma.
Quem comenta o tamanho da população e o sucesso dos times de futebol do país – seleção na final da Copa América, quarta colocada na Copa do Mundo, sub-17 vice-campeão mundial (3 a 0 no Brasil na semifinal) e Peñarol vice da Libertadores – deixa implícito que é alta a proporção de talento dentro da população. O Brasil, em contrapartida, com 190 milhões da habitantes, não conseguiu produzir talento suficiente para ficar na frente do Uruguai em vários desses torneios.
Esse raciocínio poderia ser invocado também em momentos ruins do futebol uruguaio. A tese seria “como a população é muito pequena, eles não conseguem formar grandes times”. A mim, o que parece é que o tamanho da população é apenas um fator (bem pequeno) na equação do sucesso. O que conta mais é a cultura esportiva que ali existe.
No Uruguai, a cultura futebolística é dominante no cenário esportivo, mais do que no Brasil, onde há muita gente que não gosta (gostar e entender são coisas diferentes) de futebol e muitos outros que preferem outros esportes. Assim, como é grande a proporção de futuros esportistas que se dedica ao futebol no Uruguai, é normal que eles tenham uma seleção de alto nível. O tamanho da população seria, apenas, uma barreira para que a renovação se desse de forma mais rápida.
Isso tudo faz pensar no que seria da seleção brasileira se o Brasil tivesse uma população pequena como a do Uruguai. Provavelmente o Brasil seria uma equipe, como o Uruguai, com sucessos intermitentes. Lá, como aqui, o jogador de futebol surge apesar (e não graças a) da estrutura existente no país.
Se o Brasil tratasse pelo menos o futebol como os Estados Unidos tratam todos os seus esportes (criando uma estrutura profissional, racional, baseada nos colégios e universidades) é certo que teríamos campeonatos muito melhores, seleções de base muito mais preparadas e uma seleção principal sempre dominante. Isso sem contar os benefícios sociais que essa estruturação traria para o país.
O problema é que a estrutura atual (das favelas, da chuteira rasgada, do semi-amadorismo) é lucrativa para empresários e dirigentes que dela se aproveitam. Não fosse a CBF comandada por certo tipo de gente, seria papel da própria entidade, em parceria com o governo, criar um sistema “americano”.
Hoje, a situação (precária) atual do futebol brasileiro parece imutável. Mas há uma perspectiva para médio prazo com a saída de Ricardo Teixeira da CBF, que ele promete para 2014. Resta saber o que precisa acontecer até lá para que as coisas mudem para melhor.
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Se o Ricardo sair outro tomará o seu lugar e continuará a mesma coisa. Só mudará algo quando mudarmos a estrutura do futebol brasileiro. Fim das reeleições que eternizam dirigentes, redução drástica dos estaduais, novo calendário, democratização dos clubes, mudança no processo eleitoral das federações e confederações.
Somente assim muda algo. Caso contrário, sai o Ricardo entra o Andres, Zezé, Roberto, Juvenal…
Eu sou o único que acha que não vai mudar nada com a saída do Ricaço? Ele já foi escolhido a dedo por alguém tão… “questionável” quanto, que foi quem começou com tudo, apesar de contar com a simpatia da galera devido ao seu shape de vovô gente-fina, e já pôs a filha na roda facinho, por exemplo.
Sobre a relação Uruguai x Brasil, tem me dado a impressão de que a Celeste é formada por atletas (e vou ficar só nisso pra não entrar no mérito do tesão de vestir o manto) e a Canarinho, por meros boleiros.
José,
infelizmente dessa vez vou ter que discordar de você. Acho um equívoco imenso afirmar que se “o Brasil tivesse uma população pequena como a do Uruguai. Provavelmente o Brasil seria uma equipe, como o Uruguai, com sucessos intermitentes.”
O sucesso na renovação em um esporte não está no tamanho da população, mas no apego que essa mesma população tem pelo esporte.
O Uruguai tem sucessos intermitentes porque dedicam-se de igual maneira a uma série de outros esportes, assim como a Argentina, em virtude do contexto histórico distinto que essas nações possuem frente ao Brasil.
Tendo como correto o seu pensamento não teriamos a Jamaica (população 2,7 milhões) sempre dispontando com velocistas espetaculares e batendo recordes, como na úlima olímpiada que foram com Usain Bolt e Asafa Powell.
A Nova Zelândia (população inferior a 5 milhões de habitantes) não seria a maior potência do Rugby mundial, que é o segundo esporte coletiva mais praticado no mundo. Vale lembrar que apesar de ter apenas um título mundial em toda a história somente cinco seleções conseguiram vencer a Nova Zelândia, ainda assim todas elas são freguesass.
Ótima análise. Me abriu os olhos para entender com mais propriedade esse sucesso momentâneo do Uruguai. Sobre o futebol no Brasil… bem, nada parece ter mudado substancialmente nas últimas três décadas
Também acho que a saída do Ricardo Teixeira não significa nada, pois ele fará um sucessor à altura dele próprio. E ótimas observações sobre o Uruguai! Vai, Celeste!
Uma questão interessante nessa oscilação da Seleção em jogos oficiais que penso não ter sido abordada ainda:
A troca para um campeonato de pontos corridos.
Digo isso pois não vejo mais nas equipes a serenidade ou aqueles jogadores que sabem lidar com pressão e se entregam no jogo.
Acabamos convocando estrelas de momento que vão bem dentro de grandes elencos, mas falta aquele paralelo ao humor dos trapalhões de 1980… o Didi só era engraçado porque o Dedé era o “escada”, enquanto Mussum e Zacarias faziam coisas que não se viam em outros lugares.
Acredito que o que a CBF fez ou faz transcreve muito do que é priorizado a nível de país… mas rendimento de elenco, acredito que esteja oscilando desta forma pois eles não são mais “forjados” em duros embates por um título de renome…
Ou priorizam estrutura como fonte para o Brasileiro, ou descartam a Copa do Brasil em busca da Libertadores e, nessa última, quando perdem é pela falha própria mas sempre reconhecendo a “raça” da outra equipe, “guerreira” que só ela…
Enfim – aos jogadores de grande Talento, falta aquela pequena dose de tropeços no início da jornada que cria aquele diferencial, o estado mental onde o jogo que interessa é o que vence.
P.S.: Quanto ao assunto real da cultura, faço paralelo com a CBA… é difícil mudar estrutura mudando um nome. Mas tomara que algo mude.