Por Fabio Chiorino
“Creio que a melhor definição que possa dar do homem é a de que se trata de um ser que se habitua a tudo”.
A frase acima está logo nas primeiras páginas de Memória da Casa dos Mortos, livro do escritor russo Fiódor Dostoiévski, com recordações sobre o período em que se livrou do pelotão de fuzilamento por conta de suas atividades anticzaristas e foi cumprir prisão na Sibéria.
O torcedor também se habitua a tudo. Até mesmo à falência moral do futebol brasileiro. O que aconteceu na tarde de ontem no estádio Couto Pereira foi um exemplo claro de que o torcedor inclusive ajuda a tornar esse colapso em um fenômeno praticamente irreversível. Na saída do campo, Lucas, jogador do São Paulo, avistou Milena. Uma garota de 13 anos, aos prantos, tentando chamar a sua atenção. Acompanhada pelo pai, a menina pedia insistentemente a camisa do seu ídolo. A garota é torcedora do Coritiba, o que foi suficiente para ser cercada e ofendida por outros torcedores do Coxa.
“Presenciei uma cena lamentável hoje. No final da partida, fui presentear uma fã que estava na torcida adversária e gritou meu nome o jogo inteiro (…) Ao jogar a camisa, torcedores do Coxa voltaram e tentaram agredir ela e o pai. Sei que fui meio ingênuo, mas jamais imaginei que torcedores teriam essa atitude, ainda mais com uma criança. Muito triste mesmo. Temos de tornar o nosso país digno de receber uma Copa do Mundo e demonstrar que somos civilizados para que o mundo possa mudar o conceito sobre nós”, disse Lucas em seu perfil no Twitter, expondo com maturidade a perplexidade diante de um episódio grotesco.
“Faltou bom senso ao pai”, “Ela é são-paulina!”, “Garota estúpida. Tinha que apanhar mesmo” e “Foi uma falta de respeito ao Coritiba” foram algumas das manifestações nas redes sociais em defesa dos torcedores que ameaçaram Milena. Há ainda os catedráticos que explicam as regras de conduta dentro de um estádio de futebol. Ou seja, muitos alegam que a culpada é justamente a menina, que não soube se comportar na arquibancada como regem os manuais do torcedor velho de guerra.
Minutos antes de ler sobre o incidente, jogado sobre o sofá da sala, tirei uma foto tosca. Fiquei surpreso ao ver jovens torcedores gremistas eufóricos por estarem perto de Neymar, o maior jogador brasileiro da atualidade. Idolatria infantil, claro, mas tão comum à idade. A foto abaixo é a exceção. As cenas do Couto Pereira retratam tudo aquilo a que nos habituamos. A intolerância e a estupidez são o que nos move atualmente. Dostoiévski tinha razão. Milena, a garota de 13 anos que deixou o estádio acuada como um bicho, é a nossa Sibéria particular.

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E olha que nem comentou sobre o escocês hostilizado por Corintianos no Pacaembu por estar usando uma camisa verde, outro episódio lamentável sobre o qual sobraram alegações do tipo: “Ah, quem manda usar verde?”, etc
E também, menos agressiva, mas não menos grotesca foi a decisão do árbitro Vuaden de não dar início à sua partida enquanto não fosse retirada uma faixa da torcida do Náutico que protestava pacificamente contra a arbitragem. Que semana, amigos.
Esse episódio foi de uma imbecilidade enorme e pelo que eu sei,o Couto Pereira não é um exemplo de civilidade e boa educação.
Li por aí a comparação desse episódio com o escocês em SP e discordo. Acho que que em qualquer país do mundo, um turista teria problemas de está com as cores de um rival.
A torcida podia passar batida ao perceber que se tratava de um estrangeiro com a camisa do time dele, mas é querer demais de um povo que não preza muito pela boa educação em qualquer lugar do país.
Imbecilidades como esse entristecem qualquer um que tenha o mínimo de apreço por futebol. Acontecimentos como esse me fazem pensar em desistir de ir aos estádios.
Por sorte tem algumas pequenas coisas que me fazem querer continuar, além é claro da paixão, como num Vasco e Palmeiras de 2010 em São Januário, quando dois garotos entre 12 e 15 anos no máximo comentavam orgulhosos como era legal ter um goleiro campeão do mundo (Marcos do Palmeiras) jogando bem alí diante deles.
A bola tá contigo Neymar, que você seja bem orientado para que consiga quebrar um pouco dessa imbecilidade clubística exacerbada que assola nosso futebol!
Defender os torcedores do Coritiba é ter a mesma atitude de quem defende um estuprador pelo fato da vítima usar roupas provocantes. Ainda mais no Couto Pereira, palco de cenas recorrentes.
Não dá pra imaginar que estes torcedores estarão em nossos estádios durante a Copa. Pior é lembrar que até lá teremos mais 2 Campeonatos Brasileiros com a presença deles torcendo (sic) pro Coxa.
O senso comum da rivalidade esportiva é tão boçal quanto o senso comum sobre racismo, homofobia.
Tem se tornado cada vez mais difícil curtir um jogo de futebol. A baixa qualidade fica minimizada perto de toda ignomia entorno do esporte.
Triste.
Só faltou um detalhe que não vi em lugar algum, eram torcedores “organizados”? Aqueles que nunca pagam ingresso para ver o jogo, pois ganham dos times para dar “apoio”?
Enfim, tanto no caso da menina, quanto do escocês, dá uma certa pontinha de felicidade de saber que esses tipos não estarão nos estádios da Copa. E, se estiverem e fizerem algo do tipo, sabemos que terão punição dura.
Pena que vai ser a excessão, não a regra…
O episódio é no mínimo lamentável… queria ver se um desses babacas que comentaram contra tivessem uma filha nessa situação e um marginal travestido de torcedor colocasse o dedo na cara dele e ameaçando a menina, o que fariam…
E o Alan ali em cima está um pouco equivocado, creio. Em outros países, cores de rivais são usadas nas camisas away e third de clubes por aí. Manchester City é azul claro e a camisa reserva é vermelha e preta, cores do rival United. E o ManUnited tem a camisa reserva azul. A Internazionale adotou uma camisa reserva vermelha, uma das cores do rival Milan.
É só aqui mesmo esse tipo de babaquice.
Faltou também citar o episódio em que a polícia obrigou a torcida do Palmeiras a retirar uma faixa que pedia “Direts Já” nas eleições do clube, como bem lembrou o Felipe Portes (@portesovic) aqui: http://revistatotalfootball.blogspot.com.br/2012/09/que-venha-o-homosapiens.html
Fala ae Saulo… Então, eu pedi a opinião de um irmão que curte torcidas europeias e escreve sobre isso em um blog. Ele concordou comigo que o escocês teria problemas em outros lugares. Vou procurar saber mais sobre, já que não me ligo muito no futebol desse continente.
Abs.