Por @maia_otavio
A evolução inequívoca do São Paulo de Ney Franco é mais um daqueles recados em letras maiúsculas a nos lembrar de como o futebol tem sido olhado pela crônica esportiva e por nós, torcedores, de maneira superficial e cheia de clichês.
Em poucos meses, o São Paulo ganhou volume de jogo, consistência e, acima de tudo, competitividade. Ainda tem um longo caminho a percorrer, mas claramente deixou de ser um catadão de 11 jogadores para se comportar verdadeiramente como equipe.
E como Ney Franco colocou em prática essa alquimia silenciosa?
Vejam que não foi necessário recorrer a nenhum dos clichês que ecoam das nossas cornetas tão frequentemente.
O treinador não realizou “expurgos” contra jogadores considerados de nível técnico insuficiente pela torcida e pela imprensa; não substituiu um elenco “sem alma” por outro mais vibrante; não fez grandes contratações nem se desfez de atletas antes chamados de amarelões; e tampouco alterou o esquema tático.
Ocorre que existe muita coisa no futebol além desses lugares-comuns preferidos da crônica esportiva.
Ney Franco acertou o São Paulo com o execrado Paulo Miranda de titular, com o desvalorizado Denílson de comandante do meio-campo e com o pouco aproveitado Osvaldo infernizando as defesas pelo lado esquerdo. Para isso, nem teve de abandonar o 4-2-3-1 e o 4-3-3, que já vinham sendo usados desde Leão. Basicamente, ele fez quatro ajustes principais:
• Reduziu a exposição a bolas aéreas corrigindo o posicionamento em bolas paradas e travando mais as laterais para evitar jogadas de linha de fundo. Com Douglas e Cortez juntos, ambos péssimos marcadores, a situação era insustentável. Mas, ao colocar Paulo Miranda fixo na direita e racionalizar os avanços de Cortez, os flancos ficaram mais protegidos e os volantes, menos sobrecarregados. Assim, Denílson cresceu de produção assombrosamente e o meio-campo também se fortaleceu.
• Definiu duas formas de marcação (sob pressão e atrás do meio-campo) e as treinou exaustivamente, até que o grupo conseguisse alterná-las durante o jogo, a ponto de surpreender o adversário por meio da troca de ritmo.
• Diminuiu o espaço entre as três linhas principais na ocupação dos espaços.
• Intensificou a movimentação dos jogadores sem bola e aproximou os atletas um do outros.
Ao poucos, apenas com ajustes finos, discretos e silenciosos, o São Paulo passa a ser um time mais fácil de se jogar. A subida de produção de certo atletas mostra que o desempenho individual é tão influenciado pelo desempenho coletivo quanto o desempenho do grupo depende de boas atuações de cada jogador.
Dessa forma, quanto mais maduro o São Paulo fica, maiores a chances de Ganso, no seu retorno, voltar a brilhar e justificar o investimento. Um maestro de mais de R$ 20 milhões provavelmente não renderá numa orquestra bagunçada e despreparada, mas, num conjunto mais afinado, terá melhores condições de mostrar seu valor.
Ganso e os são-paulinos têm motivos, enfim, para se animar. E a crônica esportiva, não é de agora, tem razões de sobra para mudar o disco e se atualizar…
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Fui um dos que, rodeado de corneteiros, pedi que tivessem calma com o Ney Franco. É cedo pra afirmar que terá grande sucesso, títulos, etc, mas com toda certeza é um treinador discreto e aplicado. Bacana o texto, Otávio, apontou muito bem as características fundamentais dessa mudança tática do São Paulo, coisa difícil de encontrar na web esportiva.