Ame-me até o último post

Por @FChiorino

Nunca gostei dessa história de apontar atletas como heróis. Principalmente porque é um cacoete normalmente fincado em duas condições: ser vitorioso e ter origem humilde. E daí surge a necessidade da imprensa e de torcedores em classificar os esportistas como guardiões da pátria. Até o momento que a perna bambeia, o braço endurece, o vento sopra e a medalha não vem.

Com o revés, o heroísmo automaticamente ganha forma de vidraça e surgem críticas de todos os lados. Algumas estúpidas e criminosas, como sofreu a judoca Rafael Silva; outras pertinentes, como quem apontou a fragilidade emocional de Fabiana Murer e Diego Hypolito, durante as provas de salto com vara e solo de ginástica, respectivamente. Obviamente que muitos questionamentos surgem de pessoas que ignoram o esporte durante quatro anos e assumem o papel de pacheco logo no primeiro dia dos Jogos Olímpicos. Mas é assim também no futebol, que é respirado em tempo integral pelos brasileiros. Torcedor e inteligência não obrigatoriamente caminham juntos.

Mas, afinal, por que a crítica incomoda tanto os atletas brasileiros? Talvez porque hoje as contestações são cada vez mais públicas e compartilhadas. É aí que o calo aperta. A revolta dos esportistas e os urros que os seus respectivos treinadores emanam a cada microfone que brota pela frente têm como necessidade vital combater os comentários que pululam pelas redes sociais e, consequentemente, ganham as páginas dos jornais e as salas de jantar. Como bem observou o jornalista Ricardo Henriques, “as redes sociais viraram os grandes vilões dos atletas olímpicos. Até parece que no cantinho do café ou na fila da padaria ninguém corneta”.

Qual a diferença entre um ginasta e um peão de obras? A visibilidade. O atleta precisa ter em mente que sempre terá mais espaço nos grandes canais de comunicação, o que, automaticamente, transforma o seu trabalho num objeto público de debate. A cada vitória, mais notoriedade, mais dinheiro, mais marcas subsidiando. E mais cobranças. Foi assim até com Gustavo Kuerten, um alienígena, um gênio numa modalidade praticamente ignorada no Brasil. Chegou a ser chamado de mercenário quando quase deixou de jogar as Olimpíadas de Sidney por conta do patrocínio do uniforme.

Falta maturidade aos atletas brasileiros. Assim que vencem, obedecem o script e anunciam que a medalha é de todo o Brasil. Mas a demagogia desaparece assim que fracassam. Se a vitória é de todos, por que com a derrota é diferente? E choram, esperneiam e reforçam as dificuldades pelas quais passaram durante toda a vida. Pelas quais passam milhões de pessoas, independente da profissão que decidiram seguir. Nem heróis nem vilões. Apenas humanos. E não há Twitter ou Facebook que prove o contrário.

Crédito da imagem: Matthew Diffee / New Yorker

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Jornalista, 31 anos. Considera a Javari o santuário do futebol. Introdutor do curling caseiro no Brasil.
Twitter: @fchiorino
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2 Palpites

  1. Eduardo Dias

    Penso exatamente o contrário (concordando com sua pena) – a vitória é do atleta, a derrota é que é de todos. Digo isso pois não vejo mérito do COB, da política desportiva de nosso país ou da nação como um todo em uma medalha conquistada por um conterrâneo. O mérito, em caso brasileiro, tem sido quase que exclusivamente do atleta. Já a derrota me parece um pouco mais minha, nossa. A derrota está nas precárias instalações em que treinam alguns atletas, nos parcos recursos que estes recebem, na dupla, ou tripla jornada a que são submetidos atletas “profissionais”, com mais de uma profissão. A derrota é visivel e não pode ser escondida com poucas ou muitas medalhas.

  2. Alexandre Rodrigues Alves

    sso de torcer pelo Brasil nas grandes competições me remete àquela frase: Infeliz do povo que precisa de heróis. Evidente que isso existe também em outros países, mas no Brasil isso é levado às últimas consequências, como se fosse algo para nos redimir de nossas frustrações em outras áreas da sociedade e da vida. Com isso vemos essa forçação de barra, principalmente na TV aberta. Em relação à questão mercadológica, concordo contigo, o “último grande herói” do Brasil sempre usava um boné azul, devidamente identificado com sua marca. O negócio é vender a imagem do vencedor, sendo que, em muitas modalidades, para os brasileiros e para outros competidores, chegar em oitavo já é ser um vencedor. Não analiso a coisa dessa forma maniqueísta (ganhou é bom, perdeu é porcaria), ainda que, muitos atletas que perderam (Murer, Hipólito), têm de ser cobrados, pois possuem condições para irem melhor. Esse discurso que “falta apoio” é relativo; falta maior divulgação durante os outros 11 meses do ano e, principalmente, falta BASE ESCOLAR, o que não significa que vamos fazer 150 campeões olímpicos imediatamente. O que vale é massificar o esporte e principalmente, promover a educação com a ajuda dele.

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