Cadê o País do futebol que estava aqui?

Por @maia_otavio

Mais duro do que assistir ao futebol grosseiro deste Brasileirão tem sido acompanhar os resultados de bilheteria.

Eu cresci ouvindo os adultos dizerem que o Brasil é o País do futebol; que a seleção é diferente das outras porque joga um futebol mágico e artístico; e que somos a “pátria de chuteiras”, porque o futebol é o legítimo esporte do povo. O grande problema de crescer é que algumas verdades tão doces se mostram farsas tão dolorosas. As três idéias acima foram legítimas um dia, mas estão completamente de ponta cabeça na atualidade.

País do Futebol não somos mais, porque essa denominação pressupõe algum tipo de domínio. E no momento ocupamos só a vexatória 12ª colocação no ranking da FIFA, que traduz a escassez de vitórias importantes.

Futebol arte também se foi. Já nos acostumamos a ver a Seleção e os grandes clubes locais praticarem um futebol grosseiro, ao mesmo tempo em que outros países se afirmam com um toque de bola muito mais qualificado e vistoso. Ainda perdemos a primazia de ter o melhor jogador do mundo, seja na era Zidane ou na era Messi, essa em vigência.

E, para sepultar de vez minhas ilusões de infância, a idéia de Pátria de Chuteiras desmorona como um castelinho de cartas que perde a peça a sustentar sua base.

Começou com o desinteresse indisfarçável do País pelo jogo. Ainda existe um fanatismo claro pelos clubes, mas paixão pelo futebol, em si, fica cada vez mais difícil de encontrar e de defender. A figura do brasileiro que dorme abraçado à sua bola já não faz mais nenhum sentido, uma vez que há outros povos muito mais fanáticos pelo esporte bretão.A perda do domínio não é tão gritante quanto a perda da identidade.

Alem disso, a cada ano o conceito de “esporte do povo” se esvazia um pouco. Ao mesmo tempo em que os preços praticados ficam mais elitistas, as massas se distanciam das arquibancadas. Sim, foi revoltante ver as entradas custando um mínimo de R$ 80 nos amistosos do Brasil contra África do Sul e China, assim como é uma extorsão os preços cobrados em jogos decisivos nos campeonatos locais.

Em 2012, o valor médio do ingresso nos jogos do Corinthians na Libertadores ultrapassou o patamar de R$ 60,00. Não foi um impeditivo de vermos o Pacaembu de casa cheia, porque eram ocasiões muito especiais, mas ilustra o que foi feito do esporte do povo. O preço da entrada, lisa, superava 10% do salário mínimo. Acrescente condução, ida e volta, mais um lanche, e lá estamos nós passando dos 15% numa única partida. Na final, entradas chegaram a custar mais de R$ 300,00.

No Brasileirão, que vem amargando bilheterias pífias, como os 2 mil de Palmeiras versus Vasco, entre 2005 e 2010 o preço médio dos ingressos sempre subiu acima da inflação, como mostra estudo da BDO RCS consultoria. A curva ficou um pouco abaixo do IPCA em 2011, mas por conta do fechamento de grandes estádios para obras dirigidas à Copa do Mundo. Fora de suas casas originais, alguns clubes recorreram a promoções para não ver as arquibancadas ainda mais às moscas e enviezaram os dados. Em 2012, no entanto, os preços seguem altos e as tribunas, desocupadas.

Quando existem problemas no “microcosmos”, lampejos, como uma jogada de craque ou uma campanha inspirada, podem dar brilho ao espetáculo e fazer o Brasil momentaneamente reviver o gostinho da glória – de ser o País que ama o futebol e que é amado por ele. Mas quando os infortúnios estão no plano macro, infelizmente a solução se encontra na gestão, na infraestrutura, e não dentro de campo, área na qual andamos a passos de tartaruga.

O tempo, esse iconoclasta, desconstrói, mas nos dá a chance de reconstruir. Terrível ver que até que agora fizemos muito pouco para reverter o quadro. Mas ainda há esperança, distante, de acreditar naquelas doces histórias da infância.

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Jornalista, 29 anos. Da última vez que jogou vídeo-game, chovia forte numa acirrada disputa de Enduro.
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4 Palpites

  1. Marcos Lima

    Quanto a questão do preço dos ingressos acrescenta aí meia entrada. Há eventos no Brasil hoje que para se tornar economicamente viável considera um percentual de carteirinhas falsificadas e daí o preço sempre tende a ser acima do real.
    O Brasil não está se tornando um país rico, está se tornando um país caro.

  2. Há vezes em que acho que o Brasil vai precisar perder feio a Copa de 2014 (não ir à final) para que algo mude; na maioria das vezes acho que nem assim, uma vez que o plano macro é gerido por pessoas que misturam incompetência com interesses pessoais – muito disso entenda Globo e federações estaduais – e não parece haver perspectivas de mudança.

    Há coisas que não têm efeito imediato, mas conforme se acumulam, geram esse desânimo, esse descrédito, ainda mais, como bem disse o autor, quando se tem exemplos de fora. Porra, será que esses caras não veem Bundesliga? Não sentem inveja de ver TODOS os estádios lotados? Eu sei que resposta eles dariam: diferença econômica Alemanha-Brasil. Eles pararam no tempo, não adianta.

    “Brasil, o país do futebol” é uma mentira absoluta, à parte toda pedância da frase. Ou há como acreditar nisso constatando que a média de público da Major League Soccer é maior que a do Brasileirão? Diferença econômica EUA-Brasil, dirão, mas adoraria saber a opinião dos dirigentes quando lhes disserem que Mexicano e Argentino também têm maior média.

  3. salvador

    Se é uma várzea, reclamam.

    Se tratam o futebol como PRODUTO, que tem a missão de arrecadar para os ofertantes o valor que os consumidores estão dispostos a oferecer, também reclamam.

  4. Otávio Maia

    RES: Caro Salvador, entendo que você usou a expressão “tratar como produto” como um sinônimo de profissionalizar, dar caráter mercadológico. Isso poderia ser bom, desde que viesse acompanhado da valorização do espetáculo, que é o verdadeiro produto, e que s relações de consumo fossem justas. Pagar 10% do salário mínimo e não ter nem um banheiro digno, ficar amassado na fila para comprar entrada, não ter assento marcado… É uma conta que não fecha. Trata-se de um produto que cobra muito mais do que entrega, a meu ver. Além disso, elitizar a ponto de afastar o público do estádio não é o melhor jeito de gerar receita. Pode ser em jogos pontuais, mas como prática permanente não é sustentável. De qualquer forma, o post não discute se é justo ou injusto: só constata que essa tendência ajuda a desmontar o tripé apresentado no lide e reforça a nossa perda de identidade. Um abs.

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