“Dragão” voou alto, mas desaba como uma cachoeira

O Atlético Clube Goianiense será rebaixado neste ano. Foram três temporadas na elite do futebol brasileiro, algo inimaginável há cinco anos, quando o time era um recém chegado à Série C do Brasileirão e vinha de um período de 19 anos sem títulos estaduais. Como capítulo final desta ascensão, o “Dragão” fará seu primeiro jogo fora do Brasil nesta quarta-feira. Seu debut internacional será em Santiago, contra a Universidad Católica, pelas oitavas de final da Copa Sul-Americana. Não se sabe até onde vai esse Atlético Goianiense fora do país, mas a pergunta que fica é se o fogo do renascimento do Dragão já virou cinzas no nosso quintal.

 

Às portas da falência no início dos anos 2000, quando até uma fusão com o quase falido Goiânia foi cogitada, a história do Atlético tomou novo rumo quando o clube passou a ser comandado por Valdivino de Oliveira em 2005. Neste ano o Dragão ainda estava na segunda divisão goiana e não comemorava títulos desde a Série C de 1990. Valdivino era vice-prefeito de Goiânia e foi secretário da Fazenda do Distrito Federal nos governos de Joaquim Roriz e José Roberto Arruda. Em 2010, teve seus direitos políticos cassados quando tentava se eleger deputado federal.

A nova gestão do clube devolveu o orgulho aos ainda poucos torcedores em Goiânia. Revitalizou a sede atleticana, construiu um bom CT e montou em campo um time com base sólida capaz de sair do buraco para conquistar três estaduais (pela primeira vez desde 1988) e o bi da Série C em 2008.

O atleticano não tem dúvida. Estes foram os anos mais felizes da sua história. Temido em Goiás e respeitado fora do Estado. Porém, o preço pago para se chegar tão longe pode ter sido  alto demais.

Gestor que tirou o Atlético das cinzas, Valdivino foi cassado em 2010 por improbidade administrativa no Distrito Federal por conta de contratos entre o governo de Arruda e a Linknet, ex-patrocinadora do Atlético-GO. A empresa alugava computadores a preço de novos e faturou milhões com o aval da secretaria de Valdivino, que hoje mantém no Atlético suas principais atividades fora da política.

O presidente do clube, mesmo sem ocupar cargos públicos, viu o Atlético voltar a ser alvo da Polícia Federal quando contratações do clube foram flagradas em gravação da Operação Monte Carlo, que investiga o bicheiro Carlinhos Cachoeira. O contraventor levou Felipe Brisola da Anapolina para o Atlético-GO em negócio intermediado por Wladimir Garcêz, ex-vereador em Goiânia também envolvido nas investigações e preso em Brasília. Para piorar, a Construtora Delta, foco das investigações, era uma das patrocinadoras do clube. O Atlético, por meio de seu diretor de futebol, Adson Batista, nega qualquer irregularidade nestes acordos.

As investigações e a coincidência entre elas e a ascensão do Atlético nos últimos anos fazem com torcedores dos rivais de Goiânia tirem sarro da forma como o clube chegou tão longe. Em um clássico no Goianão, a torcida do Goiás revisitou o hit de Ivete Sangalo com “Bicheiro ôô… Bicheiro ôô… Time de bicheiro”.

A humilhação é enorme, mas o Atlético-GO ao menos desperta hoje algum tipo de sentimento dos rivais locais. Mesmo rebaixado, não se deve tirar o mérito do “Dragão” em conquistar algo que tradicionais clubes do futebol brasileiro como Santa Cruz e Paysandu foram incapazes nos últimos anos mesmo tendo uma fiel massa de torcedores enchendo estádios (longe da realidade atleticana).

A viagem ao Chile é a primeira além das fronteiras brasileiras para o time do bairro de Campinas, em Goiânia. Pode também ser a última em muito tempo. Resta saber se a gestão que fez o Atlético ressurgir será capaz de devolvê-lo à Série A sem os parceiros tão mal falados no noticiário.

Foto: Felipe Furtado (Assessoria de Imprensa do Atlético-GO)

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Jornalista, 30 anos. Fã do Finazzi, maior ídolo da história recente do Goiânia E.C. É tão craque quanto.
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