É tradição nas tragédias recentes do Palmeiras: o caixão é sempre fechado pela torcida quando o doente ainda está na UTI. Foi assim em 2009, quando a equipe estava na briga pelo título e bateram no Vagner Love, o melhor atacante na época (e o único da linha de frente que ainda corria). Foi assim em 2011, quando pegaram o João Vitor do nada e conseguiram rachar o elenco e colocar medo em quem ainda estava disposto a pelo menos brigar por uma Libertadores (mágoas à parte, não é possível entender a bronca do Kleber, e com o Kleber, sem passar por esse episódio). E é o que acontece agora, quando, num delírio coletivo, torcedores quebraram o Pacaembu depois de assistirem a um jogo duro contra o Corinthians, um time hoje muito superior ao Palmeiras, contra quem todo mundo correu. Não venceu, e daí?
Ainda tinha todo o tempo do mundo pra mudar a história, com paciência, apoio e honestidade.
A resposta, em vez disso, foi dada por meio da hostilidade. Nos muros do Parque Antártica, ameaçaram: agora é o terror. Sobrou para os frequentadores do restaurante do presidente, que nada tinham a ver com a brincadeira de mau gosto chamada Arnaldo Tirone.
A situação foi se agravando e chegou ao ápice no jogo contra o Náutico, quando torcedores invadiram o hotel em Recife para pressionar o elenco. O resultado, óbvio, foi mais uma derrota. Por quê? Porque, assim como nenhum médico, jornalista ou engenheiro opera, escreve ou constrói casas com uma arma apontada na cabeça, nenhum atleta consegue se concentrar em seu trabalho sem ter o mínimo de paz. E paz, neste caso, é diferente de conforto – e, até segunda ordem, ninguém no elenco parecia confortável com a situação.
Disso só os torcedores parecem não saber. Porque, ao prometer terror contra o mau futebol, fizeram com que os jogadores que corriam pelo time parassem de correr. Porque não vale a pena correr quando se tem uma arma apontada na cabeça. Eu não correria.
Esse time é limitado, teve desfalques graves, problemas de todo tipo. A maior aposta, um meia de criação de 21 milhões de reais, se estourou e não jogou a temporada. O cofre secou e, não fosse este detalhe, a história de 2012 poderia ser outra. Há elementos dentro e fora de campo que escapam da compreensão. Mas, salvo um ou outro mau exemplo, este não é um time de vagabundo – é só lembrar o quanto correram na Copa do Brasil, e o quanto brigaram e o quanto vibraram depois da conquista. Disso boa parte da torcida não se lembra. Porque ela é pior que o time. E rebaixou o Palmeiras muito antes de o campeonato acabar. Como sempre.
Por essas e outras ninguém, hoje, quer se arriscar a jogar no Palmeiras (E por “outras” leia-se a incompetência de um presidente que não distingue uma capivara de um lateral esquerdo).
Não é preciso assinar um contrato com adicional de insalubridade para se jogar futebol. Mas o Palmeiras, com o seu “não ganhou apanha”, consegue quebrar o que tem de melhor em sua tradição: o clube hoje não é nem será num futuro próximo o que já foi, um depósito de talento. Por quê? Porque não se cultiva talento sem paz.
Futebol, vale lembrar, não é tortura, e algo está errado quando não se tem prazer em jogar ou em assistir a um simples jogo de futebol no estádio ou pela TV (seja na Série A, B ou Z).
Ao botar terror dentro e fora de campo, o palmeirense copia as piores experiências dos maiores rivais. O Corinthians se apequenou quando expulsou no tapa o Edílson, talvez o melhor atacante da história recente do clube. O que conseguiram? Uma crise. O São Paulo fez o mesmo com Kaká, e levou muito tempo para perceber que a seca de títulos não tinha rosto, mas circunstâncias.
No Palmeiras, essas crises (e ingratidões) ficaram recorrentes. Visitam o clube mês sim, outro também. Só vão desaparecer de vez quando os torcedores, os bons e os maus, perceberem que os jogadores têm menos culpa nessa história recente de tragédias do que imaginam. Quando perceberem que a pressão organizada, sem quebradeira nem terror, é a única ferramenta capaz de implodir a crise de dentro pra fora. Caso contrário, a tragédia será sempre cíclica. E 2002 será para sempre um ano jamais acabado.
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