A Jabulani foi um dos nomes de maior destaque na Copa da África do Sul, em 2010. Nunca uma bola de futebol despertou tanta polêmica na maior competição esportiva do mundo. Criticada pelos jogadores, vilã dos goleiros, defendida pela Adidas, Jabulani ganhou até vinheta da Globo, na voz de Cid Moreira. Para 2014, uma nova bola disputa essa vitrine. Trata-se da Gorduchinha, uma ideia que surgiu dentro da Rádio Globo, como forma de homenagear Osmar Santos, um dos maiores nomes da história da crônica esportiva brasileira e criador da expressão “pimba na gorduchinha”. Em 1994, Osmar sofreu um grave acidente de automóvel, o que o afastou do comando das narrações. O Esporte Fino entrevistou Thales Mendes, sócio-diretor da TK10 Marketing Esportivo Interativo, agência que abraçou o projeto e lançou a campanha nas redes sociais, com a participação de jornalistas, agências, jogadores, clubes e outros nomes de expressão, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o maestro João Carlos Martins e o cartunista Mauricio de Sousa.

Esporte Fino: Como surgiu a campanha para chamar a bola da Copa de 2014 de gorduchinha? Quais são as empresas ou entidades hoje diretamente envolvidas?
Thales Mendes: A ideia de nomear a bola da Copa de 2014 como Gorduchinha foi de Delen Bueno, publicitário e colega de trabalho de Osmar Santos no Sistema Globo de Rádio, em função do sucesso do nome Jabulani na Copa de 2010. Ele comentou com seus também colegas André Voltarelli e Mariangela Ribeiro e, juntos, iniciaram a campanha. O projeto tem como objetivo homenagear Osmar Santos por sua dedicação, criatividade e amor pelo futebol brasileiro, e por ser um modelo de superação pessoal, transformação e compromisso com o País. Gorduchinha é um nome forte e carinhoso, e carrega uma bela história para a bola da Copa no Brasil.
A campanha foi ganhando adeptos e, entre eles, interessados em contribuir com a proposta. Os primeiros foram os publicitários Renato Burtori e Henrique Polisel, responsáveis pela criação da logomarca. Depois veio a nossa agência, a TK10, uma agência de marketing esportivo recém-inserida no mercado. Para nós, participar da campanha foi uma oportunidade única, tanto pela honra de trabalhar com Osmar Santos quanto pela chance de a agência começar a ser reconhecida no mercado. Com a mesma crença veio o apoio da agência Full Haus, que cuida da produção do site e divulgação nas mídias sociais. Em seguida, tornaram-se parceiras a agência de conteúdo Dialoog e a empresa Mack Color, que garante a produção de material de divulgação. Outro grande apoio, desde o inicio, foi da Rádio Globo, empresa onde trabalha Osmar Santos, que ajuda a divulgar a ideia e liberou o radialista para representação pública da Gorduchinha.
Apesar de não formais, outros profissionais de comunicação, amigos e fãs vestiram a camisa e tornaram-se embaixadores, responsáveis pela disseminação da ideia nos quatro campos do mundo.
EF: Como é a participação do Osmar Santos na campanha, mesmo tendo em vista suas limitações de saúde?
TM: O Osmar é o símbolo dessa campanha. E ele se sente honrado e muito feliz em poder participar ativamente de tudo. Ele entende perfeitamente o seu papel na campanha e fica muito feliz por poder realizá-lo. Da nossa parte, é uma honra poder conviver tão de perto com um mito da comunicação que, além de ser uma figura fundamental na nossa história, também é um grande exemplo de superação e vitória.
EF: Além da homenagem, que objetivos a campanha busca atingir com o nome de Osmar Santos?
TM: O nome Gorduchinha vai além de uma homenagem ao Osmar. Esse nome representa, além de décadas de ouro do nosso futebol, a luta política que o Brasil travou. Para quem não sabe, Osmar Santos levou o seu carisma para além das quatro linhas e foi um dos locutores nos comícios das Diretas Já, movimento que reivindicava o nosso direito de votar para presidente. E o Osmar sempre usou, em suas transmissões, o poder do futebol para unir o povo.
Além disso, Osmar Santos é um exemplo de superação, como tantos outros brasileiros. Um sonho da coordenação da campanha, em especial da Mariângela, é poder unir a Gorduchinha ao projeto do cientista brasileiro Miguel Nicolelis. A ideia desse projeto, em linhas gerais, é fazer com que uma criança paraplégica possa dar o pontapé inicial da Copa de 2014, através de um mecanismo que responda aos comandos do cérebro. E aí nós pensamos: por que não fazer também com que a bola possa ser um exemplo de superação? A mensagem vai ser clara: em uma Copa no Brasil, que fala da alegria e da superação do nosso povo, qual seria a justificativa para os nossos jogadores não se dedicarem ao máximo e trazerem o hexa para casa?
EF: Quais as estratégias de marketing que estão sendo utilizadas para a divulgação da campanha?
TM: O mais importante que se diga é que essa é uma campanha do povo e não há nenhuma grande marca financiando-a. Por isso, nossa grande estratégia é reunir pessoas que queiram prestar a homenagem ao Osmar e juntar-se à Gorduchinha pelas diversas coisas que ela representa. Há quem participe da campanha por ser apaixonado por futebol e reconhecer o Osmar como a grande voz do esporte no nosso país. Há quem não goste de futebol, mas reconheça a força e o carisma do Osmar na época das Diretas. E há, finalmente, quem se identifique com a história de vida dele. A nossa função, como agência, é mostrar tudo o que a Gorduchinha representa em todos esses sentidos. Para isso, temos porta-vozes com grande aceitação que apoiam a campanha. Por exemplo: o maestro João Carlos Martins, também um grande exemplo de superação da nossa história, já juntou a sua voz à campanha. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, companheiro de palco do Osmar na época das Diretas, também já se mostrou favorável à Gorduchinha. Maurício de Sousa, pai da gorduchinha Mônica, é outra figura importantíssima que veio para mostrar que a campanha não é feita só para quem é apaixonado por futebol. E, claro, na esfera do futebol, temos apoio de grandes jogadores e ex-jogadores (Zico, Raí, Neto, Denílson, Cafu, Zetti) e de clubes como Portuguesa, Palmeiras e São Paulo.
Mas o mais importante é o apoio do povo. A nossa ideia é poder compartilhar com cada um todas as histórias que a Gorduchinha conta. Acompanhamos as mensagens que os fãs do Osmar enviam a ele e isso nos motiva muito. A principal forma de contato com os nossos apoiadores são o site www.gorduchinha2014.com.br e as redes sociais Facebook e Twitter. Por lá, conseguimos mostrar as novidades da campanha e ouvir ideias e apoio de brasileiros e estrangeiros. E conseguimos também medir os números da campanha: até agora, na fanpage, temos mais de 11 mil apoiadores e nossas publicações já foram vistas por mais de 4 milhões de pessoas.
EF: A campanha já entrou em contato com a Adidas e com a Fifa? Qual foi a recepção?
TM: Estamos atentos a todas as movimentações da Adidas nesse sentido. Embora a decisão final parta da matriz, na Alemanha, sabemos que a Adidas do Brasil terá uma grande influência nisso. Em entrevista ao portal da revista Veja, no final do ano passado, o gerente de futebol da Adidas Brasil, Daniel Schimid, falou sobre o tema. Ele disse que é uma proposta boa e é importante saber que a população está abraçando a ideia. A Adidas, portanto, não descarta o nome Gorduchinha, e isso nos motiva ainda mais a continuar fazendo barulho.
EF: Quando e como será decidido o nome da bola para a Copa de 2014? Haverá alguma votação pública?
TM: Não sabemos o dia em que essa decisão acontecerá nem do que ela depende. O nome Jabulani, por exemplo, foi baseado em uma série de estudos feitos pela Adidas, e tanto o nome quanto a bola têm um grande significado para a cultura africana. Já o nome da bola das Olimpíadas de Londres foi escolhido por votação popular (Albert foi o vencedor).

EF: Embora seja reconhecido nacionalmente, Osmar Santos e os termos por ele criados são muito identificados com o torcedor paulista. Isso é percebido na campanha? Se sim, como contornar?
TM: Isso acontece porque o Osmar trabalhou em São Paulo na maior parte de sua vida, então é uma coisa natural. Para contornar, é necessário mostrar que a história de vida dele vai muito além de São Paulo. Ele foi um dos que ajudaram o Brasil a chegar à democracia. Além disso, muitos dos termos que ele criou em suas transmissões são reconhecidos nacionalmente (Gorduchinha, por exemplo. Mas também o “Animal”, apelido do Edmundo, e o jargão “por que parou, parou por quê?”, entre tantos outros). E, finalmente, tem a grande superação que ele representa. Esses são conceitos nacionais, e nada melhor do que um evento como a Copa, em que o Brasil inteiro torce por um único time, para relembrá-los.
EF: Como as empresas de marketing esportivo estão se preparando para a Copa? Existe alguma previsão de qual quantia esse segmento vai movimentar até 2014?
TM: O esporte no Brasil movimenta, atualmente, cerca de 3% do PIB. Graças ao momento que vivemos, temos visto cada vez mais gente olhando para o setor esportivo no Brasil, e isso é muito bom. Novos entrantes buscam atender cada vez mais gente que quer investir em esportes por aqui. O fato de sediarmos Copa e Olimpíadas ajuda, pois as empresas veem um povo apaixonado por esportes às vésperas de vivenciar os dois maiores eventos esportivos do mundo. Como não ser otimista com um cenário como esse? A previsão é que essa indústria movimente cada vez mais. E a preocupação principal é como as empresas focadas em marketing esportivo podem se preparar para atender bem a toda essa demanda e continuar em alta mesmo após o término dos eventos.
EF: E qual o seu palpite para a Copa do Mundo de 2014?
TM: Não tem como não apostar na seleção brasileira para essa Copa. Por mais que o trabalho dos nossos treinadores seja sempre contestado (afinal, todo brasileiro é um treinador em potencial), quero acreditar que a seleção vai se acertar até 2014. Tenho certeza de que a Gorduchinha será tratada com muito carinho pelos nossos jogadores.
Crédito das imagens: Divulgação Gorduchinha 2014
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Bela entrevista. Eu ficaria muito feliz se o nome da bola fosse gorduchinha. Apoio essa ideia.