Esporte Fino: bastidores e impressões sobre o livro

Por Diogo Salles *
Chargista do Jornal da Tarde e autor da capa do livro ‘Esporte Fino’

Antes de abrirmos a mesa redonda sobre o livro Esporte Fino, o esporte além dos resultados, quero contar a vocês rapidamente um pouco dos bastidores de minha pequena participação neste livro: a capa. Pela imagem acima, o leitor pode ver o esboço inicial da ideia que propus aos autores, depois uma evolução dessa ideia, e o resultado final, que foi para o prelo.

Mas, para um ilustrador/artista gráfico, o processo entre o esboço e a arte final costuma ser um pouco mais complicado. E nesse drama, os motivos costumam variar sobre os mesmos temas: clientes que não sabem direito o que querem, que mudam de opinião toda hora, que acham que entendem mais de arte do que o próprio artista (isso sem falar dos maus pagadores — aí o buraco é muito mais embaixo).

Pois na criação dessa capa, experimentei um processo que, infelizmente, é pouco usual: tudo transcorreu de uma forma absolutamente linear, correta e aberta. Conforme eu ia mandando o material, eles iam aprovando o que gostavam e pedindo alterações do que podia melhorar. Dava para ver a capa do livro tomando forma a cada dia. Num país onde artista é tudo vagabundo e trabalha degraça, uma experiência como essa beirou o surreal.

Bom, ao livro. Todo mundo já falou da necessidade de termos uma visão além dos números e das análises robotizadas que tomaram conta da crônica esportiva. Não apenas porque esse tipo de análise engessa o esporte, mas porque também coloca uma visão muitas vezes enviesada. Afinal, de que adianta o jogador ter índices impecáveis de roubadas de bola, arremates e acerto de passes, se ele, no mesmo jogo, errou um único passe — justamente o passe que originou o gol da vitória do adversário? Percebe o problema?

Outro problema, este mais recente, é o da infantilização da informação, onde todos tentam bancar o engraçadinho e se acham celebridades. Penso que é aí que espaços como este Esporte Fino ganham em importância. Sim, o esporte é feito, de resultados. E sim, ele precisa ser apresentado de uma forma leve e descontraída. Mas também é preciso entender em que contexto esses resultados acontecem. Por exemplo, como entender a rivalidade quase mortal que se criou entre Egito e Argélia em jogos de eliminatórias da copa? É aí que os textos de José Antônio Lima nos situam dentro de um contexto geopolítico, nos ajudando a entender como o histórico de conflitos entre países transforma um jogo de futebol numa guerra santa.

Além do contexto, temos também de ressaltar o questionamento, a reflexão, já que esse é o tipo de coisa que menos se faz hoje na sociedade da informação “em tempo real”, onde mal conseguimos digerir tudo o que lemos. Nesse setor do campo, onde usamos o esporte como válvula de escape para nossas próprias derrotas na vida, o titular absoluto é Rodrigo Borges. Brasileiro gosta de esporte ou gosta só de ganhar? Rubinho tem culpa por ser tão achincalhado? Nós temos inveja do Tom Brady? Essas e várias outras questões estão no livro para nos perturbar (e cada um pode vestir a carapuça que quiser).

Ao lado dele, para formar dupla de ataque, Luiz Augusto Lima lança artilharia pesada contra o politicamente correto, a pasteurização do esporte e as nossas patriotadas (tão brasileiras). Como contraponto, ele areja as ideias com textos mais contemplativos, sempre ao som dos Beatles.

Falando em contemplações, nada como ler as crônicas urbanas do Otávio Maia. Peladas no terrão, brigas entre classes sociais pela posse da bola e olhares mundanos — e demasiado humanos — para o esporte. Mas nada disso faria sentido se não pudéssemos rir de nossas próprias falhas. A ironia está espalhada por todo o livro, com diferentes abordagens. Mas nesse certame, Fabio Chiorino foi campeoníssimo com seu dicionário do futebol, dissecando todas as mentiras escondidas por trás da vaidade e do cinismo de nossos boleiros macunaímicos.

Enfim, da mesma forma que não pude citar tudo o que gostei de ler aqui, os autores tampouco puderam selecionar todos os textos que gostariam, mas o espírito do livro é esse. Informação, sim, mas com contexto, reflexão, observação, ironia. Um caldeirão de referências culturais que, unidas aos resultados, transformam o esporte nessa coisa tão fascinante. Os craques da palavra estão aqui reunidos em suas melhores jogadas. De vez em quando eles me convidam para bater uma bola aqui no blog, como agora. E digo a vocês: me sinto honrado em ter descolado um lugarzinho aqui no banco de reservas.

A grande pergunta agora é: com a chegada dos novos reforços Bruno Winckler e Fernando Graziani, quando teremos o segundo volume do Esporte Fino?

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2 Palpites

  1. Que bacana, Diogo! Também seriam mais ou menos essas minhas palavras sobre o Esporte Fino.

  2. Valeu, Chicão! O banco de reservas do Esporte Fino não é o mesmo sem você!

    abs
    Diogo

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