O antigo Vale Tudo ganhou regras, categorias e mudou de nome – virou MMA (Mixed Marcial Arts). Nesse processo, mudaram, também, os personagens que levam à loucura os milhares de torcedores acomodados ao redor do octógono ou na frente da televisão. Uma coisa, todavia, continua igual: o Brasil conta com um representante que, mais do que vitórias, traz mística ao esporte.
Na década de 90, nos primeiros passos do Ultimate Fighting, a principal competição da categoria, Royce Gracie lutava de kimono contra adversários muito mais fortes e pesados e vencia baseado em dois fatores principais: a técnica do seu Jiu-jitsu e a grande concentração.
Por trás de Royce estava a história da família Gracie, que representava, no imaginário coletivo desse meio, uma fábrica de super-homens. Não necessariamente os mais fortes, mas aqueles que detinham técnicas desconhecidas que os protegiam de conhecer o sabor amargo da derrota. Àquela altura, os adolescentes sonhavam ser um Gracie e começavam a lotar as academias que ensinavam jiu-jitsu, recém-promovido a estrela.

Por divergências com a organização do UFC, interessada em dar novas regras às lutas, os Gracie deixaram a competição, que então viveu de outros grandes atletas, competentes, porém sem a mesma mística. Mas eis que, agora, o baiano radicado no Pará Lyoto Machida resgata o mistério e ajuda a alvancar popularidade do MMA.
Na madrugada de sábado para domingo, Lyoto derrotou o compatriota Maurício Shogun e alcançou sua 16ª vitória em 16 lutas no UFC, revalidando o cinturão dos Médios. Em Belém, milhares de pessoas se aglomeraram na frente de telões e televisores nos bares da capital para acompanhar o ídolo. E teve até avenida interditada.
Mas o que faz do campeão um personagem diferenciado não é sua invencibilidade. Para começo de conversa, ele subverteu a ordem do UFC e fez do caratê a principal arma em suas lutas no octógono, batendo especialistas em Jiu-jitsu, Muay-Thay e outras artes consagradas no torneio. Desse jeito, tornou-se comum dizer que o atleta tem um “estilo que ainda não foi decifrado”. É o mistério que dá sustentação a qualquer mística.
Além disso, Lyoto é um lutador de porte físico mediano que faz da força mental sua grande aliada. Tanto é que usa a meditação como forma de otimizar seu desempenho. Se for necessário, ele espera, espera, espera pacientemente e só ataca no momento mais apropriado – e sempre vence.
Já as declarações, cheias de espiritualidade e focadas muito mais em estratégia do que em força, intensidade ou raiva, fazem lembrar aqueles antigos filmes orientais, em que os lutadores são devotos da tradição e dos ensinamentos dos velhos mestres.
Para completar, o brasileiro usa estranhas técnicas para se manter em forma, caso da urinoterapia. Isso significa, acreditem, beber a própria urina. Vejam o que diz matéria dos jornalistas Jorge Correa e Maurício Dehó no portal BOL:
No caso de Lyoto Machida, por exemplo, a prática foi transmitida pela própria família, desde o tempo de seu avô. Na época da Segunda Guerra Mundial, um general japonês indicou a urinoterapia, já que os remédios estavam em falta. “Muita gente que tinha doenças como sífilis, gonorreia e doenças de pele conseguiu ir melhorando. Eu já vi pessoas com diabetes que tiveram uma grande melhora no índice glicêmico no sangue, então eu acredito nisso e faço diariamente”, explicou o lutador.
Hoje Lyoto é o cara. O homem a ser batido e o ícone a ser desconstruído.
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Concordo. Mas a vitória sobre Shogun foi no mínimo contestável. O próprio Dana White, dono do UFC, acha que Lyoto foi derrotado. Shogun surrou Lyoto, o homem que ninguém conseguia acertar, como jamais outro foi capaz de fazer. Acho que uma revanche é inevitável.
É verdade, Rodrigo. Também concordo e também com uma ressalva. Apesar de a luta ter sido muito apertada para o Lyoto, a mais difícil da sua carreira, eu vejo nas palavras do Dana White mais uma forma de promover a revanche como uma superluta do que uma avaliação crítica da coisa.
Mistico mesmo foi a vitória dele, racionalmente ninguém consegue explicar ela. Deve ter sido algo místico dos juizes, que pelo jeito tomam urina tb