Matheus, me escuta

Por Fabio Chiorino

Matheus, me escuta. Você só tem 20 dias de vida, mas não vou te enganar. A fase não é nada boa. Mas eu acredito que você é um amuleto. Afinal, nasceu no ano em que o Palmeiras saiu da fila de títulos. Iluminado. Assim como a sua irmã, nasceu um dia depois de o Palmeiras vencer o Sport, numa partida dramática. Isso tem que significar algo. Desde já, vamos deixar as coisas bem claras. Você é palmeirense. Palmeiras, Palestra, Olê Porco.  Matheus, me escuta. Não dê bola para esse papo de rebaixamento. Todo mundo vive momentos difíceis na vida. Você, por exemplo, passou nove meses sem conseguir esticar direito os pés. Nós temos um camisa 10 que não joga três partidas seguidas. Cada um com sua dificuldade. O importante é entender o valor desse verde. Deixa eu te mostrar. Olha aqui o kit Palmeiras que os amigos do Esporte Fino te deram de presente. Olha quanta coisa bonita, cor viva. Verde é vida. As outras cores são como cocô na fralda. Você gosta de cocô? Claro que não. Então foque no verde. Matheus, me escuta. Sua mãe é corintiana, mas não sabe nada de futebol. Quanto ela tocar nesse assunto, diga que só responde na presença do seu pai. Ela conhece a regra do impedimento? Claro que não. Então não lhe dê ouvidos. Palmeirense, meu filho. O papai vai te levar no estádio assim que você crescer. Arena Palestra. Será o palco de muitas conquistas. Vamos gritar juntos, chorar juntos, atacar amendoim juntos. Porque ali será a nossa segunda casa. A terceira sempre será a escola. E você vai entender que a paixão por um time é uma das poucas coisas que carregamos para a vida toda. Matheus, me escuta. Temos ídolos incríveis. Ademir da Guia, Romeu Pellicciari, Waldemar Fiúme, Mazzola, Oberdan, Chinesinho, Luís Pereira, Leivinha, César Maluco, Evair O Matador, Edmundo Animal, Zinho, Marcos. São Marcos, meu filho. A gente pode rezar pra ele toda noite. Já lutamos contra tudo. Não nos queriam Palestra, pois fomos Palmeiras e nascemos. Formamos um time inteiro para a seleção brasileira. Batemos sem dó no Pelé, o maior jogador do mundo depois do Ademir da Guia. Você é a nova geração palestrina, meu filho. Aquela que verá os ditadores do clube caindo um a um. Aquela que verá um time gigante fugindo de dirigentes minúsculos. Matheus, me escuta. Não dorme agora. Vamos ensaiar o hino. Quando surge o alviverde imponente. No gramado em que a luta o aguarda. Sabe bem o que vem pela frente. Que a dureza do prélio não tarda. Meu filho, esse é o seu batismo. Palmeiras. O seu time do coração. Tenha sempre orgulho de ostentar essa fibra. Vamos sair dessa má fase. O importante é não desistir nunca e torcer. Ainda vou te mostrar revistas, pôsteres, recortes de jornais velhos, fitas com narrações históricas. Vou te ensinar a jogar botão e vamos colar o distintivo como quem prega a alma. O resto é migalha de pão. Matheus, me escuta. Está bem, pode dormir. Mas não se esqueça. Palmeirense, Matheus. Palestrino.

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Jornalista, 31 anos. Considera a Javari o santuário do futebol. Introdutor do curling caseiro no Brasil.
Twitter: @fchiorino
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5 Palpites

  1. Brilha demais, esse Chiorino!

  2. Bruno Mendes

    espetacular !!!

  3. Léo 1914

    Ainda vou ter o meu moleque palmeirense! Felicidades!

  4. Porra, meu, eu não sou palestrino e estou quase chorando aqui!! Vamos tomar uma cerveja…

  5. Muito legal esse texto! Realmente, essa é uma das belezas do futebol: unir gerações. Acho que realmente as novas gerações vão ver um esporte diferente, mais limpo, mais bonito. Tomara que o futebol não acabe perdendo muitos fãs nesse caminho, mas vale a pena passar esse amor às outras gerações.

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