A entrada do Maracanã antes de México x Itália

A entrada do Maracanã antes de México x Itália

O fato de a Copa do Mundo ter se transformado em símbolo das reivindicações de parte dos manifestantes que têm ido às ruas do país pegou alguns de surpresa. O Brasil recebeu o direito de sediar o torneio há muito tempo, então por que só agora os problemas chegaram às ruas? Ora, porque graças à movimentação contra os preços das passagens de transporte público o agora se tornou o momento certo de expor as insatisfações.

A Copa do Mundo, e a Copa das Confederações por tabela, são a mais perfeita representação do problema que, como expressei em outro texto, está na raiz das manifestações: o distanciamento entre os atos do poder público e os anseios da sociedade.

O mundial de futebol adquiriu essa característica não pelo que ele é. Organizar a Copa do Mundo é uma oportunidade perfeita para um país justificar investimentos. Com a Copa, não só o futebol, mas também a infraestrutura de um país pode passar por melhorias, importantes para o crescimento duradouro. A Copa do Mundo de 2014 se tornou símbolo dos manifestantes pela forma como ela vem sendo conduzida nas três esferas de poder – municipal, estadual e federal.

O último balanço oficial do Ministério do Esporte sobre as obras da Copa foi revelado em maio de 2012, quatro anos e sete meses depois de a Fifa escolher o Brasil como sede. Naquele momento, apenas 5% das obras estavam completas. O novo balanço será divulgado após a Copa das Confederações, mas as perspectivas não são boas.

As obras do legado (mobilidade urbana e aeroportos), aquelas que a população quer, não andam. Os estádios, aqueles que a Fifa quer, estão quase prontos. Ao menos dois, o Mané Garrincha e o Maracanã, custaram mais de R$ 1 bilhão. O primeiro é parte do quarteto de elefantes brancos que o ministro Aldo Rebelo (PCdoB) insiste em negar. O segundo vai para a iniciativa privada por um preço ridículo, e ainda terá de ser reformado para as Olimpíadas de 2016.

Mesmo os estádios que serão usados posteriormente se impõem como arautos da desigualdade – tanto a social quanto a que existe entre o poder dos lobbys organizados, como o da Fifa, e o da população. São obras magníficas, postas, muitas vezes, no meio do nada, como é o caso da Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata, região metropolitana do Recife.

A coincidência entre os protestos e o início da Copa das Confederações contribuiu para fazer do torneio um símbolo, ao aprofundar o distanciamento governo/sociedade. No iG, o colega Bruno Winckler mostrou que, em Fortaleza, cidade onde a violência é cada vez mais marcada, o reforço do policiamento apenas para a Copa indignou moradores. Em Belo Horizonte, o Exército tomou as ruas da capital.

Também de Minas Gerais vem um exemplo da falta de tato político, que corta os partidos de forma horizontal. Atendendo pedido do governador Antonio Anastasia (PSDB), o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo (PT), enviou tropas da Força Nacional de Segurança para conter os protestos. Enquanto isso, Aldo Rebelo reafirmava o discurso duro contra manifestações em oposição à Copa das Confederações.

O que o brasileiro tem diante de si são governantes que falham miseravelmente ao prestar serviços públicos, que perderam a chance de tirar proveito (público) da Copa do Mundo e que não pestanejam ao seguir os ditames da Fifa e agir de forma truculenta para conter manifestações contra os torneios. Não é possível imaginar uma conjunção de fatores tão perfeita para fazer muitos brasileiros, ainda que torçam para a seleção, odiar a Copa do Mundo.