O arrependimento eficaz de Klose é uma bonita exceção, mas que apenas comprova a regra

Há um instituto na teoria do Direito Penal chamado arrependimento eficaz. Imagine que alguém mexa nos freios de um carro para causar um acidente mas, momentos antes do motorista sair, o autor faça algo para impedir a consumação do crime. Está previsto lá no artigo 15 do Código Penal brasileiro: se o agente agir novamente para evitar o resultado ele vai responder apenas pelos atos praticados.

Guardadas, obviamente, as proporções, foi o que Klose fez nesta quarta-feira. Todo mundo já deve ter visto que o alemão marcou um gol com a mão em partida contra o Napoli, mas diante da possibilidade do tento ser validado, o atacante da Lazio disse ao árbitro a verdade. Na imagem fica claro que ele realmente quis fazer o gol irregular e, por isso, receber o cartão amarelo seria o suficiente.

Klose arriscou. Companheiros de time, torcedores (dos mais radicais do mundo, inclusive), dirigentes e comissão técnica poderiam ir contra ele, partir pra cima. Fico matutando se fosse uma final de campeonato ou de Copa do Mundo. Também por isso, sua atitude foi sensacional, principalmente para o nosso tempo. Merece ser divulgada, apreciada, elogiada, mas comprova que tentar levar vantagem em tudo, enganar, prejudicar e olhar para o próprio umbigo são atitudes que dominam o futebol.

Aliás, não só no futebol. Analisar ou cobrar que o esporte seja uma ilha de boas atitudes cercada de patifaria por todos os lados é partir de um princípio equivocado. Está tudo no pacote. Um pacote que tem como destinatário uma sociedade falida em que um raro momento de arrependimento precisa virar notícia.

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Jornalista, 39 anos. Entre uma feijoada e outra arruma um tempo até mesmo para trabalhar.
Twitter: @fgraziani
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