“Não há remédio certo que resolva um diagnóstico errado.”
Quem acompanha o noticiário econômico tem ouvido com freqüência a expressão “Custo Brasil”. Esse conceito representa um conjunto de deficiências estruturais da economia brasileira que encarecem a produção das empresas locais, desestimulam novos investimentos no País e colocam nossa indústria em posição de inferioridade em relação às indústrias estrangeiras. Entre esses fatores estão, por exemplo, a tarifa elétrica mais cara do mundo, a tributação estratosférica e os juros altíssimos.
E o que isso tem a ver com futebol?
À primeira vista nada. Mas um rápido exame mostra que a economia e o esporte preferido da “Pátria de Chuteiras” padecem exatamente do mesmo mal.
Eu explico: é que assim como no âmbito econômico, existe no futebol nacional um Custo Brasil, que consiste em fragilidades estruturais e que são muito particulares do País. O mais grave é que em ambos os casos os remédios diagnosticados depois de um resultado negativo combatem mais os sintomas do que as causas do problema. Em outras palavras, atingem o conjuntural, e não o estrutural, e perpetuam a deficiência.
No lado esportivo, isso fica claro pelo lugar-comum e falta de profundidade das análises veiculadas pela imprensa. Quando a Seleção vai mal, a crítica dos dirigentes e dos cronistas sempre giram em torno dos mesmos desgastados assuntos: o (pouco) talento e a (baixa) capacidade técnica dos jogadores; a (falta de) determinação do elenco; a escalação de um jogador em detrimento de outro; e o esquema tático. Mas será que são esses os maiores problemas do futebol nacional ou apenas os aspectos mais aparentes do jogo?
Fiz uma pequena lista dos fatores que, na minha visão, compõem o Custo Brasil do nosso futebol.
• Baixo preparo emocional para enfrentar adversidades em grandes decisões
Geralmente os times brasileiros são pouco estratégicos e frios em partidas decisivas, especialmente quando estão em adversidade. Lembremos de Brasil versus Holanda, Brasil versus México, Brasil versus França, entre outros… É mais comum ver a equipe tomada pelo desespero, atacando sem organização e apelando para a violência do que se armando para pressionar o rival. Você não vê isso na seleção de basquete dos EUA, na seleção de vôlei do Brasil nem em Roger e Federer e Rafael Nadal. Quem quer ser o melhor precisa de um pacote completo de habilidades, que inclui frieza e estratégia, e não só talento e disposição.
• Despreparo para gerenciamento de carreira
É absolutamente triste ver que jogadores desperdiçam a chance de construir uma carreira que poderia ser brilhante simplesmente porque não sabem gerenciá-la. Nossos atletas não investem em si mesmos, não se informam sobre o mercado para planejar uma evolução profissional e muitas vezes não respeitam os códigos de conduta do ambiente de trabalho. No mundo corporativo, quem não se dedica a uma pós-graduação, não escolhe boas empresas como meta e não se adapta ao que elas esperam, fica estagnado. No futebol, quem não lapida seu jogo, não atua em grandes equipes e não tem disciplina, também. Alguém lembra do Jucilei, que perdeu a chance de jogar na Fiorentina porque numa reunião com dirigentes italianos demonstrou não conhecer o clube e aí foi parar num time do Quirguistão? Ele que vinha sendo convocado para vestir amarelinha e fazia sucesso no Corinthians…
• Baixa compreensão do jogo
Faltas desnecessárias, para não dizer burras; pouca movimentação sem bola; baixa capacidade de fazer uma leitura do adversário com a bola em jogo e articular uma alternativa tática para superá-lo; pouca versatilidade dos atletas… Tudo isso leva a crer que nossos atletas têm baixa compreensão do jogo, o que aliás dá para notar quando viram comentaristas na televisão. Parece que simplesmente entram em campo e jogam, apostando muito mais no talento e na intuição do que na estratégia e no estudo do futebol. Sempre digo que os nossos jogadores de Futsal parecem entender muito mais o esporte que praticam do que os de futebol (até porque se não souberem marcar, atacar, passar e se posicionar, afundam a equipe).
• Atraso da nossa cultura futebolística em relação a aspectos táticos
São poucos os treinadores que estudam o que está sendo feito no centro do futebol mundial. E alguns deles acham que o jogo não se transforma. Por isso até agora tem gente escalando time em 3-5-2, mesmo que o rival use um único atacante e um trio que chega (livre) em velocidade do meio-campo. Até a imprensa escorrega ao noticiar as escalações. Muitas vezes os jornalistas se limitam a somar quantos jogadores há em cada setor de acordo com a sua posição de origem e, num passe de mágica, chegam ao bom e velho 4-4-2, quando na verdade o time está posicionado num 4-2-3-1 ou 4-3-2-1. Sinal de que não nos atualizamos…
Em resumo, nossos maiores problemas e suas respectivas soluções giram em torno da EDUCAÇÃO. Tanto educação de base quanto educação para o futebol. É um reflexo da maior carência do País, que traz implicações sociais e que certamente resultará num gargalo econômico no futuro.
Nossa seleção tem o zagueiro e o lateral-esquerdo mais badalados do futebol internacional; possui um beque e um meia campeões da Champions League e protagonistas no Chelsea; conta com um lateral direito absoluto na equipe mais vitoriosa da Europa; aposta num dos atacantes mais talentosos desta geração; e tem um leque de jovens talentosos que qualquer seleção gostaria de ver em seu elenco. De quebra, joga no esquema tático mais moderno que poderia, em linha com as principais forças européias. Não é pouco. Mas, enquanto não resolvemos nossos problemas estruturais, esses jogadores são mais valiosos separados do que reunidos. Brilham mais quando se tornam peças dentro de engrenagens bem montadas nos seus clubes, especialmente na Europa, do que juntos vestindo a amarelinha.
A educação para o futebol é um problema sistêmico e que deveria ser abraçado pelos clubes. Ninguém pode esperar que a CBF vá criar uma escola de futebol, o que não faria sentido. Mas cada clube pode investir no desenvolvimento intelectual dos seus jogadores, especialmente na base, sabendo que assim vão valorizar seu patrimônio. Assim como podem incentivar o intercâmbio de seus treinadores e promover simpósios integrados, que é o que mundo faz nos mais diversos esportes, afinal.
É hora de acertar na identificação dos problemas e atacá-los de frente. Não há, definitivamente, remédio certo que resolva um diagnóstico errado.
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É isso!!
Queria ter escrito isso! ehheheheh
Se eu que nem gosto lá muito de futebol gostei, imagina quem curte?
Parabéns Otávio! =)
Excelente post. Os dois últimos itens são pouquíssimo comentados na imprensa.
Excelente.
Muitos dirigentes, tecnicos e jogadores deveriam ler seu post.
E a imprensa especilaizada deveria mudar um pouco o foco de apenas procurar o talento e tentar incentivar um pouco mais o homem desde a base para o esporte.
Abraços.