O futebol da Espanha é chato sim

É provável que a divisão entre as pessoas que acham a Espanha chata ou não seja uma questão de definição sobre a chatice em si. Para uns, chato é perder. Para mim, chato é ver um jogo de futebol sem animação e com técnicos covardes. Se o meu time está em campo, quero vê-lo ganhar, a qualquer custo, mas se eu vou ver um jogo de alto nível, mesmo que inclua a seleção brasileira, eu gostaria de ver bom futebol. Por bom futebol, leia-se futebol ofensivo.

Em 2008, com Luís Aragonés, a Espanha proporcionou bom futebol. Foi encantador ver o time jogando com dois atacantes (Torres e Villa), apoiados por três meias (Xavi, Iniesta e Silva) e um volante (Marcos Senna) em ótima forma carregando o piano. Com a entrada de Del Bosque, as coisas mudaram. Como muitos perceberam, a Espanha de Del Bosque, na África do Sul e na Polônia/Ucrânia, virou uma reprodução do Brasil de 1994. É fácil entender o porquê. Para tanto, reproduzo trecho de reportagem que escrevi para a Época em 2010:

Na África do Sul, consagrou-se sem sombra de dúvida uma máxima imortalizada por Sepp Herberger, o técnico que levou a Alemanha a seu primeiro título mundial, em 1954. Segundo ele, vence no futebol quem “impõe ao adversário seu estilo de jogo”. Para isso, é fundamental ter a bola nos pés a maior parte do tempo. Não é um conceito novo – foi empregado com sucesso pela própria Seleção Brasileira, em 1994. Nesta Copa, ninguém fez isso tão bem quanto as finalistas Espanha e Holanda.

A Espanha de 2012 é uma “involução” da Espanha de 2010. Ao chegar ao São Paulo, em 1996, para desespero da torcida órfã do gênio Telê Santana, Carlos Alberto Parreira (o técnico de 1994) prometeu adotar o esquema 4-6-0. Não conseguiu, mas hoje deve se deliciar vendo a Espanha de Del Bosque atuar neste esquema. Eu, em contrapartida, tenho vontade de dormir ou mudar de canal.

Chata o escambau. A Espanha é a equipe mais legal do mundo

Não sei se na Espanha alguém reclama disso, mas no Brasil e na Holanda, cujas torcidas estão acostumadas com um futebol ofensivo e divertido, o questionamento é grande. Numa coletiva antes da final de 2010, o técnico da Holanda, Bert van Marwijk, explicou calmamente sua opção tática.

“Quando se joga como antigamente, é mais difícil vencer”, diz. “As pessoas precisam entender que o esporte e o futebol mudam. Os jogadores estão cada vez mais em forma, e os times cada vez mais organizados.”

O fato de o futebol da Espanha, ou da Holanda ou de qualquer outra seleção, ser chato não o torna ilegítimo. Cada seleção usa as armas que tem. A Grécia ganhou a Euro 2004 numa das mais fenomenais retrancas de todos os tempos. A pena de ver times bons como o da Espanha jogar desta forma é o desperdício de talento. O grande medo do sucesso deste tipo de estratégia é que o futebol de seleções se torne uma repetição em loop eterno da Copa do Mundo de 1990.

É por isso que, neste domingo, minha torcida é para a Itália de Cesare Prandelli. Mesmo sem grandes talentos, ele abandonou o maldito catenaccio e está fazendo a Azzurra jogar um futebol bem mais divertido que o normal.

Foto: Steindy / Wikimedia Commons

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30 anos, jornalista. Gostaria de viver em um mundo em que as SUVs não existissem, especialmente as brancas.
Twitter: @zeantoniolima
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2 Palpites

  1. Alan

    Concordo. Exceto para espanhois é um futebol chato demais. Se não fosse a seleção da Espanha e sim do Brasil, seria chato também para parte dos brasileiros.

  2. João Paulo

    Perfeito… Penso igualmente a você. Eu gostava mais da Espanha de 2008… Com o Del Bosque, ficou uma seleção que não toma gol, mas “não gosta de fazer gol”.

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