O futebol está moderno demais?

Por @zeantoniolima

Na última semana, vi duas manifestações que me chamaram a atenção. Em texto no GloboEsporte.com, Márvio dos Anjos afirmou que a adoção da tecnologia para ajudar a arbitragem no futebol seria a “última morte” de Nelson Rodrigues, a “vitória dos idiotas da objetividade e dos piores cegos – os que só veem a bola e o preço que pagaram pelo ingresso”. Depois, Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil, contou que havia uma faixa com a inscrição “Against Modern Football” na torcida do Hearts contra o Liverpool. Pesquisando, descobri que esse é um movimento ultrarradical de torcedores organizados europeus, mas é fácil perceber que há torcedores normais também irritados com o que é interpretado como excesso de profissionalismo. Isso me faz perguntar: Será que o futebol ficou moderno demais?

Abordemos primeiro a questão da tecnologia do futebol. Entendo os refratários à adoção de replay, chips e coisas do tipo, mas vejo espaço para a adoção de um modelo de tecnologia que não tire o dinamismo do futebol e, ao mesmo, impeça a concretização de absurdos, como o gol anulado da Inglaterra contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2010. Entendo quem ama o folclore futebolístico, e ache o gol roubado mais gostoso, mas lances como o ocorrido na África do Sul servem hoje mais como motivo de indignação do que regozijo. Um chip na bola e a possibilidade de cada técnico ter um pedido de revisão por jogo, por exemplo, não tirariam do futebol sua capacidade apaixonante de ser um microcosmo da vida e, portanto, o esporte mais divertido do mundo.

Se na questão da arbitragem estou ao lado dos “modernistas”, na do excesso de profissionalismo é preciso ser mais ponderado. Por um lado, temos o futebol europeu, onde a transformação do futebol em negócio teve consequências positivas e negativas. Entre as positivas, o futebol europeu se consolidou como principal polo de atração dos melhores jogadores e hoje dá a seus torcedores os melhores estádios, gramados, uniformes e organização. O único desprazer de ir a jogos de futebol na Europa é a possível derrota do seu time. O lado negativo é a desigualdade entre os times que possuem donos e os outros, e a transformação dos jogadores em “mercenários” sem espírito esportivo, o que fez um colunista do Guardian questionar se, depois dos Jogos Olímpicos, o futebol tinha perdido sua altivez.

No caso do Brasil, o profissionalismo trouxe apenas a parte ruim, notadamente a extinção dos ídolos e o surgimento dos jogadores mercenários. O espetáculo (estádio, gramados, uniformes e organização) é uma porcaria e a única coisa positiva em consumir futebol in loco é a possível vitória de seu time.

O que, então, deve-se fazer? No caso da arbitragem, encontrar uma fórmula que não mate o futebol, mas responda aos anseios por menos absurdos. No caso do profissionalismo, há duas respostas. A parte que se mantém amadora no Brasil precisa ser profissionalizada, algo possível com um pouco de inteligência e investimento bem feito. No caso da Europa, é preciso regulamentar o capitalismo selvagem do futebol. Quem viu a última rodada da Premier League 2011/2012 viu, pela alegria dos torcedores do City, que é perfeitamente possível ter um imenso prazer com seu time, mesmo que ele pertença a um investidor bilionário. É preciso garantir, entretanto, que essa alegria esteja disponível para todos.

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30 anos, jornalista. Gostaria de viver em um mundo em que as SUVs não existissem, especialmente as brancas.
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6 Palpites

  1. Agá Romeu Pinto

    Eu sou a favor do chip na bola apenas para lances onde não tem meio-termo. Como na linha lateral e na linha de fundo. E claro no gol. O chip na bola tem que ser para isso. Agora para impedimento. Ai o critério é todo do bandeirinha.

  2. Francisco Monteiro

    Esse belo texto me fez lembrar de uma cena pitoresca das Olimpíadas: um bom velhinho de bandeira na mão na prova do salto em distância masculino. A essa altura do campeonato, com toda tecnologia disponível, e esse pobre velhinho segurando essas bandeiras amarela e vermelha, por vezes se atrapalhando, para aferir a validade dos saltos. Se o cara que inventou o recurso dessas bandeirinhas fosse vivo, após uma breve passada d’olhos em toda tecnologia contemporânea, certamente diria: “Que diabos vocês estão fazendo?”.

    Concordo com tudo dito no post e digo mais: para tudo isso, para as duas posições, um fundamento comum: a Ética!

    Tecnologia para evitar tanta patifaria no futebol e uma bandeira do “Ódio Eterno ao Futebol Moderno” com o mesmo propósito!

    Valeu pelo belo texto.

  3. neder

    O pior do futebol moderno é o jogo mesmo. Faz o basquete parecer um thriller de Hitchcock…

  4. Bruno Camargo

    mas o velhinho com a bandeira fica olhando para uma linha de argila.
    Repare no replay tem uma tabua branca com 10cm, e uma linha vermelha, naquela linha é argila.
    Oq o juiz faz é olhar se há alguma marca naquela argila, ele não precisa acompanha nada em uma fração de segundo, pode chamar outro caso tenha duvida, etc etc.

  5. Belo texto, Zé. Particularmente não entendo esse “medo” da tecnologia no futebol. Por acaso o futebol seria menor se nao houvessem erros de arbitragem?? Que diabo de raciocínio é esse? Tem que subestimar demais a magia do esporte, ou como você colocou muito bem, desse “microcosmo da vida”, pra achar que tecnologias que evitem erros clamorosos e arbitragem vão tirar a graça da coisa. Quanto aos problemas do excesso de profissionalismo no futebol europeu, talvez a única coisa que acho que mereça ser levada em consideração é o fato de que, com o encarecimento dos ingressos houve uma certa “elitização” do público nos estádios, o que para alguns resulta em uma maior “bunda-molice” dos torcedores, que parecem se comportar mais como espectadores de teatro do que como torcedores, que vibram, xingam e se exasperam.

  6. Alan

    Não seria a morte do Nelson Rodrigues, ele simplesmente iria ignorar o chip e escrever sobre o jogo… rs.

    Não gosto do modernismo no futebol mas simpatizo com o chip.

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