O homem que quebrou um jejum de 88 anos

Atletas não são heróis. Os heróis da vida real são outros. Mas, pensando bem, talvez seja justo chamar Ronald Julião de herói. Um herói solitário. Um homem daqueles que gostam de enfrentar moinhos. No caso de Julião, usando um disco. Em Londres, o paulista de 27 anos se tornará o primeiro brasileiro a disputar o lançamento de disco em uma edição dos Jogos Olímpicos desde 1924.

Ronald vai a Londres quase como um anônimo. Suas chances de medalha são remotas. Ele não se importa. “Eu estarei lá, não estarei? Só não teria chance se não estivesse lá”, disse em uma breve conversa telefônica com o blogueiro. A ida às Olimpíadas foi garantida apenas em abril, em uma competição em Long Beach. Com 63,01 metros, superando o índice por 1 centímetro. Era então a melhor marca de Julião. Em maio, conseguiu 65,41 metros, 91 centímetros pior que o recorde sul-americano, cravado em 2006 pelo argentino Jorge Balliengo.

Julião só disputou o torneio em Long Beach graças a uma ajuda de Joaquim Cruz, campeão olímpico dos 800 m rasos em 1984 e hoje técnico da equipe americana paraolímpica de atletismo. “Ele indicava onde eu poderia competir, conseguia que eu me inscrevesse e ainda ajudava com o inglês, porque nem meu técnico e nem eu falamos inglês”, lembra.

Apesar de melhorar a marca pessoal ano a ano, Julião precisará fazer mágica em Londres para colocar uma medalha no peito. O alemão Robert Harting, dono do melhor resultado do ano, conseguiu lançar em maio duas vezes acima de 70 metros. O brasileiro, orgulhoso pelo sucesso em uma prova sem qualquer tradição em seu país, prefere insistir na teoria. “Eu estarei lá”, diz. Se é assim, por que duvidar do seu disco voador?

Foto: Agência Luz/BM&FBOVESPA

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Jornalista e tocador de guitarra, 35 anos. Assume que gosta de Bee Gees sem sentir vergonha.
Twitter: @estadodecirco
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