Era um fim de domingo na zona norte de São Paulo. Mais especificamente na Nunes Garcia, uma rua sem saída onde meu avô Rafael tinha casa. Foi lá que o vi comemorando uma vitória do Palmeiras carregando um porco congelado, história já contada aqui no blog. Mas hoje a lembrança remete ao bisavô Salvador, que morou nesta casa quando já estava próximo de seus últimos dias.
Nono Salvador (era assim que o chamávamos) tinha transformado parte da garagem em uma oficina particular. E naquele dia, me chamou de lado e disse “Quero te mostrar uma coisa”. Passou a mão por algumas prateleiras, pegou uma chave e abriu uma enorme caixa de ferramentas que já começava a enferrujar. E tirou de lá um objeto que demorei alguns segundos para decifrar: um pequeno troféu de um Periquito dourado, com a camisa do Palmeiras, uma bola no pé e um cachimbo na boca. “A partir de agora, esse é o seu time”, sentenciou Salvador.
Salvador, filho de italianos, ainda me contou sobre a época do Palestra Itália. “Se te perguntarem na escola, você diz que é palestrino”. Na hora de ir embora, minha mãe sugeriu guardar o troféu dentro da bolsa dela, mas não aceitei a oferta. Voltei para casa segurando o troféu com as duas mãos e tateando todas as texturas do metal. Palestrino, palestrino, palestrino. Eu tentava decorar aquela palavra que me acompanharia por todos os anos seguintes.
Nono Salvador se foi, e a casa da Nunes Garcia foi vendida anos depois. O troféu também sofreu os efeitos do tempo. A base de madeira caiu e ficou só o Periquito de bronze. Para minha profunda tristeza, perdi o Periquito quando deixei a Mooca e fui viver do outro lado da cidade. Remexi todas as gavetas e armários possíveis, mas não o encontrei. Perdia também um pedaço do meu bisavô, com quem infelizmente convivi por menos de uma década.
Foi impossível não lembrar do Nono nessa segunda-feira. Hoje, completo 31 anos de vida e trouxe para casa Matheus, meu segundo filho, nascido na última sexta-feira. Mas foi naquele domingo de 1986 que ganhei a consciência do que era o Palmeiras e passei a entender por que aquele time despertava uma paixão irracional em boa parte da família, Paixão que não escolhi ter. Quem escolheu foi o Nono Salvador, ao abrir a caixa de ferramentas. “A partir de agora, esse é o seu time”. Nunca uma ordem me serviu tão bem.
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depois de jogos como o do Palmeiras no último domingo as vezes eu me pergunto por que eu gasto minha paciência com estas coisas, mas depois de ler relatos como este eu me lembro por que eu gosto tanto de futebol e, especialmente, do Palmeiras!
Para quem te conhece, consigo imaginar a cena perfeitamente descrita no brilhante texto acima. Imagino a sua mae querendo tirar aquele periquito da sua mao(corinthiana que e) tentando salvar o rebento de ser palmeirense que esta no sangue da familia desde o seu bisavo. Parabens em dobro para voce, pelo seu aniversario e pelo seu novo filho.
Abracos a voce e as familias