
Por uma série de razões pessoais, pela primeira vez na vida acompanhei as Olimpíadas de um modo distante, sem muita chance nem de assistir nem de me envolver com os Jogos. Me informei mais pelos outros do que pela televisão. Embora não seja o melhor jeito de vivenciar uma competição tão grandiosa, essa posição me proporcionou a chance de ver de outra perspectiva o evento e, principalmente, a sua repercussão nas pessoas aqui no Brasil.
Isso posto, deixo algumas rápidas observações sobre o que pude perceber:
• As Olimpíadas são sensacionais, seja de perto ou de longe. O ambiente que se cria e a sensação de que toda hora vai acontecer alguma coisa histórica é única. Pena que os jogos só aconteçam a cada quatro anos. Mas temos que encarar a verdade: se ocorressem em periodicidade menor, não seria tão especial.
• Os Jogos definitivamente realçam a contradição do brasileiro que (in)define sua identidade: de um lado o Complexo de Vira-Lata, de outro a soberba do Pachequismo – doenças que se alternam numa velocidade alucinante nessas três semanas de disputas.
• A bipolaridade que toma conta dos brasileiros nos Jogos potencializa também o discurso mais conveniente de todos: “nós ganhamos a medalha de ouro no vôlei feminino, eles perderam o título no futebol masculino”. De súbito descobrimos vários fãs de infância da Sarah Menezes e visionários que “sempre souberam do destino fracassado da seleção do Mano”.
• Em linha com esse discurso tão conveniente, transitamos com a maior facilidade do “brasileiro não desiste nunca” para o “brasileiro pipoca sempre”.
• Aliás, existe uma fixação com essa questão do “amarelar” em decisões, como se fosse algo particular do brasileiro. Mas a verdade é que não existe nenhum estudo que mostre com alguma metodologia que nós falhamos mais do que os outros em decisões. Até que esse estudo apareça, são só palavras ao vento. A posição e o envolvimento de um observador em qualquer experiência podem comprometer a sua objetividade. E é isso o que acontece quando o nosso ginasta cai de bunda: por termos uma expectativa em relação à sua performance, aquilo nos marca muito mais do que tombos de outros atletas, que a nós passam despercebidos.
• Por alguma razão que desafia a lógica, mas que se ajusta bem ao “nós ganhamos, eles perderam”, brasileiros aos montes de repente tratam o futebol como se fosse um ditador imperialista que oprime os esportes olímpicos de pouca visibilidade por aqui, caso do recém-descoberto Pentatlo – esse sim disputado por “gente batalhadora” e que portanto “merece muito mais apoio”. Mas muitas dessas mesmas pessoas grudam na TV para ver futebol durante o ano e jamais na vida procuraram informação ou assistiram às modalidades olímpicas fora dos Jogos. Provavelmente imaginam que a iniciativa privada investe em esporte por benevolência, e não por expectativa de visibilidade e retorno. Lembrar a cada quatro anos que uma modalidade existe e, no caso de medalha, oportunamente torná-la um mártir é algo bastante inconsistente.
• As redes sociais no período olímpico viram (ou se confirmam como) um espaço de exibicionismo pessoal. As pessoas, no fundo, falam mais sobre si mesmas do que sobre o evento. Querem mostrar que são as mais entendidas de cada modalidade ou as que encontraram as lições de moral mais bem escondidas em cada medalha. Um exercício bastante entediante para quem lê a timeline.
• Onde, afinal, foi parar Cuba, que em todas as Olimpíadas brilhava e acendia aquele tradicional debate de boteco entre os amigos fidelistas e os não-fidelistas?
• Eu não vi quase nada ao vivo, mas a final dos 100m com o Bolt, ah, essa eu posso me orgulhar que não deixei passar. E quem poderia?
• A participação do Brasil no encerramento dos Jogos de Londres foi um bom prenúncio: samba, capoeira e todos os clichês, sim senhor; mas com bom gosto, sem gente pelada rebolando e com uma bachiana para deixar tudo mais elegante. Que venha 2016, mas que antes, claro, venha 2014. Já estamos no aguardo!
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Concordo do primeiro ao último item. (Mas, felizmente, eu pude ver outras tantas competições ao vivo, não só os 100 metros rasos)
Sinto o mesmo pela participação brasileira no Encerramento. Fiquei feliz em ver que não apelaram pra passistas peladas, sem deixar de lado o samba, o maracatu…