
Na sexta-feira, poucas horas depois de o Brasil esmagar a Itália nas semifinais do torneio olímpico masculino de vôlei, eu palpitei nas redes sociais que as duas seleções, independentemente dos resultados das decisões, deveriam passar por uma renovação completa, que inclui a troca dos dois treinadores.
Não vou entrar na discussão idiota de saber qual dos dois é melhor. José Roberto Guimarães, três vezes campeão olímpico, e Bernardinho Rezende, seis medalhas nos Jogos (uma como atleta, cinco como treinador, nas últimas cinco edições), fizeram um trabalho excepcional e creio que ainda podem contribuir muito com o vôlei brasileiro, mas isso não precisa acontecer necessariamente na condição de técnicos.
Bernardinho está há quase 20 anos ininterruptos como técnico da seleção – de 1993 a 2000 no time feminino, e de lá para cá à frente da equipe masculino. Foram 12 anos espetaculares, de vitórias em profusão, mas, hoje, parece que esse modelo “glory or die” está um pouco esgotado, como se os gritos já não fizessem efeito – algo que já foi visto durante o quarto set da decisão de domingo. Além disso, o técnico carrega consigo uma grande rejeição, potencializada pela derrota proposital no Mundial de 2010, explicada com mais detalhes alguns dias atrás, e pelo lado “autoajúdico” estimulado pelo técnico em palestras, livros e afins.
A dolorida medalha de prata serve como um canto do cisne para uma geração vencedora, mas que não soube a hora de sair de cena. Um grupo com jogadores de alta qualidade técnica, mas já longe de seu auge físico e técnico, como ficou escancarado na decisão, quando Giba entrou no quarto set, no lugar de Dante, e praticamente não conseguiu jogar – como havia acontecido, aliás, em jogos anteriores.
A meu ver, a presença de Giba no elenco foi um dos grandes erros de Bernardinho para os Jogos de Londres. O atacante passou quase um ano sem jogar, por causa de uma lesão na canela, e não poderia voltar de cara numa Olimpíada. Se Giba era uma pessoa importante para o grupo, poderia ter sido levado como um membro da comissão técnica, abrindo uma vaga para alguém capacitado a jogar – mais ou menos como a seleção inglesa fez com David Beckham, que se contundiu às vésperas da Copa do Mundo de 2010 e acompanhou todos os jogos do banco de reservas, em ternos bem-cortados e sem ocupar uma vaga de alguém que poderia contribuir mais durante os jogos.
Além disso, o técnico também fechou um grupo e pareceu pouco aberto a experiências. O oposto Lorena, maior pontuador das duas últimas Superligas, só fez parte de uma pré-convocação, mas nunca chegou a trabalhar de fato com o grupo. O levantador William, do campeão Cruzeiro, é um caso semelhante. Além disso, as categorias de base não vingaram como antes: embora o Brasil tenha sido campeão mundial juvenil em 2007 e 2009, o único jogador realmente aproveitado na seleção principal foi o oposto Wallace, do time de 2007. O retorno de Ricardinho, cinco anos depois de seu até hoje mal-explicado afastamento, foi uma exceção, uma mistura de atendimento a um clamor popular e uma pequena dose de desespero.
“Fechar o grupo” não é algo de que se possa acusar Zé Roberto. Desde 2003 à frente da seleção feminina, ele usou o ciclo olímpico 2009-2012 para testar uma infinidade de jogadoras, num grupo que, desde o ouro de Pequim, ficou marcado pela instabilidade e pela dificuldade em se achar uma substituta para a levantadora e cérebro Fofão – tanto que a decisão por Dani Lins e Fernandinha saiu às vésperas da viagem a Londres.
A instabilidade foi tamanha que o time foi apenas o quinto colocado na Copa do Mundo, no ano passado, o que o obrigou a jogar um prosaico Pré-Olímpico Sul-Americano, disputado em São Carlos, com seleções que fariam feio em competições escolares no interior paulista. E, mesmo em Londres, as derrotas para Estados Unidos e Coreia do Sul, na primeira fase, deixaram a equipe sob risco real de eliminação antes mesmo das quartas de final – o time passou e, contra a Rússia, num jogo pra cardíaco nenhum botar defeito, salvou seis match points, um deles no ataque, para continuar vivo na briga por medalhas. Além disso, uma renovação também parece necessária, já que, das 12 campeãs, apenas cinco chegarão aos Jogos do Rio com menos de 30 anos: Fernanda Garay, Thaisa, Adenizia, Natália e Tandara.
A meu ver, uma troca dos treinadores faria bem por oxigenar as seleções. Longe de querer desprezar o trabalho feito por Bernardinho e Zé Roberto, mas talvez seja chegada a hora de eles também darem espaço para novos ares. Sugestões? As minhas seriam Giovane Gavio para o masculino e Luizomar de Moura para o feminino. Ambos jovens, mas com currículo vitorioso, com títulos da Superliga e familiaridade com o sistema de trabalho da CBV – Luizomar foi técnico da seleção feminina vice-campeã mundial juvenil em 2011, e Giovane atuou na seleção brasileira por cerca de 15 anos. Os atuais técnicos poderiam ser mantidos como consultores, supervisores ou qualquer outro cargo parecido. Seriam transições sem grande rupturas, prontas para manter os avanços conquistados e, ao mesmo tempo, dar aquela dose de desconforto fundamental para atletas após ciclos vitoriosos.
PS. Este texto foi concluído na noite de segunda-feira, antes da notícia de que Bermardinho ficará no cargo até 2016. Como se trata de uma confirmação apenas da parte da CBV, sem que o técnico a confirme, e como a seleção só volta a jogar em abril do ano que vem, preferi manter o texto original e a opinião de que a saída é a melhor solução, e que a permanência de Bernardinho é um sinal de acomodação, justamente a acomodação que acho que precisa ser varrida da seleção com um novo técnico.
* Fernando Cesarotti tem 34 anos, é jornalista e acompanha vôlei desde o tempo da vantagem, inclusive no quinto set
Foto: Maurício Kaye / CBV
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Bacana a participação do @Cesarotti!
No Brasil sempre a mesma mania de interpretar outros esportes sob o prisma do futebol… LOL
A tal “renovação” é reflexo da síndrome de falta de continuidade do brasileiro.(Incrível como o brasileiro toda vez que muda algo, de presisente a cozinheiro, quer reconstruir o mundo…). Se as coisas não estão dando certo, muda tudo. Não sabem que tudo é cíclico, tem um ritmo? Os jogadores masculinos inevitavelmente serão renovados, pela idade, surgimento de novos nomes etc. O mesmo com as moças. Mas por que os técnicos? Não existem outros melhores, no momento. Transformaram um esporte de audiência eventual em paixão nacional. O cargo de assitente técnico em olímpiadas talvez seja bom aprenizado de gestão de grupo…
A CBV tem méritos por mantê-los. Fora isto, não faz muito. Desenvolve uma boa gestão, limitada por recursos e um modelo consolidado de gestão, com as vantagens e desvantagens que isso acarreta. Nossa liga nacional é ridícula, dois times como base de seleção e o resto coadjuvantes (com todo respeito ao trabalho sério que executam, mas sem poder financeiro para fazer frente aos dois “cabeças de chave” da vez). Sem grade de transmissão decente, sem política de distribuição de ingressos para escolas, programas de assistência ao idosos (nos outros países existe um esforço de capilarização. Por exemplo: professores de “educação física” recebem ingressos para levar os alunos, abrigos para idosos recebem ingressos e assim por diante, tudo simples e sem burocracia ).
Penso que o brasileiro deveria usufruir de seus melhores quadros enquanto estiverem dispostos e motivados (Bernardinho e José Roberto estão entre osmelhores de todos os tempos), pois profissionalismo é artigo raro nessas plagas.
Por fim, uma palavra sobre Giba. O post reporta bem o quadro técnico e o momento do atleta. Mas uma palavra explica o porquê de sua convocação: gratidão. Quem trabalha com dinâmica de grupo sabe que certas peças são responsáveis em maior grau pelo sucesso de empreendimentos. Giba foi a voz de Bernardinho nos melhores e piores momentos, um casamento perfeito. O sucesso de cada deve-se em grande medida ao outro. Na Espanha, Cid Campeador fornece uma bela cena dessa filosofia: certos mortos, pelo seu peso, decidem batalhas…
O Brasil tem um povo sensacional, mas carece por demais de preparo, de quadros qualificados na proporção de suas dimensões e recursos. Como diria Gramsci, o volei brasileiro vive dias em que “o novo ainda não surgiu, e o velho não se foi.”