por @FChiorino
1998
Nunca tínhamos ido a uma final. Meu pai foi taxativo: “Nem pensar”. Só que ele e minha mãe foram viajar no final de semana. Assim que deixaram o apartamento da Mooca, eu e meu irmão sentenciamos: “Vamos nessa porra”. A porra entendia-se por Palmeiras x Cruzeiro, final da Copa do Brasil.
Existe uma enorme vantagem de ter um irmão gêmeo, mesmo que bivitelino. Por muito tempo, vivemos e respiramos os mesmos ares e a cumplicidade tornou-se obrigatória. Pois bem. Meu irmão se matou na fila e conseguiu os ingressos. Fomos até o Anhangabaú, rumo ao Morumbi. No caminho, o ônibus foi apedrejado por um grupo de rivais. Ficamos assustados, mas seguimos em frente.
Ao chegar ao estádio, como éramos menores de idade, pedimos para um desconhecido fazer o papel de nosso pai. Ele topou e entramos. Eu pouco me lembro daquele jogo. O gol espírita do Oséas praticamente apagou todas as outras imagens. Mas uma cena também jamais esquecerei: eu sacudindo o meu irmão na arquibancada, que, atônito, custava acreditar no apito final. “É campeão, mano. É campeão, porra”. Tentando equilibrar as moedas nas mãos, percorremos metade do trajeto de volta a pé. Abraçados num só sorriso.
2012
Eu simplesmente não consigo acompanhar futebol desprovido de superstições. Camisa do Palmeiras sobre a cama da Maria Eduarda, minha filha. Camisa social verde para ir ao trabalho. Prometi a mim mesmo que o título viria se eu localizasse na rua pelo menos 5 pessoas com o uniforme palestrino.
Só que dias antes, teimei que precisava deixar o bigode, símbolo da superação desse time na Copa do Brasil. O problema é que ficou ridículo e eu tinha uma reunião de trabalho no dia seguinte. Tirei o bigode, cônscio de que a desistência seria responsável por uma derrota contundente na quarta-feira. Na véspera, um sono de apenas 3 horas. Passei o dia da decisão tomando, ou melhor, mordendo o café, tamanha ansiedade.
Quando saiu o gol do Coritiba, esmurrei o sofá e me lembrei do bigode. Mas minutos depois, Betinho, o improvável herói, sepultou qualquer chance de uma nova tragédia, algo tão comum aos palmeirenses na última década. O alviverde imponente ressurgia. Ignorando sequestros, apendicites e febres de 39 graus.
São quatro horas da manhã. Uma, duas, seis latas de cerveja. Mulher e filha foram dormir assustadas com as minhas reações durante a partida. A noite passada me trouxe novamente a lembrança de um diálogo primoroso do filme argentino “O Segredo dos Seus Olhos”. Algo sobre o homem que muda de cara, de casa, de família, de noiva, de religião, de deus, mas incapaz de mudar de paixão. Encontro-me em estado atônito, como o meu irmão gêmeo, 13 anos atrás. Não se muda de paixão, meus amigos. Jamais.
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É Fabinho…
O tempo passa, os títulos vão ficando cada vez mais espaçados, mas a paixão não passa, pelo contrário, cada dia aumenta mais! Só nós, os verdadeiros apaixonados esmeraldinos é que entendemos…
Quem sabe um dia a Duda entenderá. Aqui em casa, a Rafa está “quase” entendendo. Ainda falta muito.
E dá-lhe VERDÃO!!!!!!!!!