
Por @zeantoniolima
Determinar se uma campanha esportiva é um sucesso ou um fracasso exige, inevitavelmente, uma comparação. Para realizá-la, você mede o resultado final e o compara ao que era esperado antes da competição começar. Na busca pela conclusão, então, é de importância máxima o paradigma com o qual você vai comparar o resultado. O “fracasso” do Brasil em Jogos Olímpicos começa ao estabelecer este paradigma.
O brasileiro é, apesar das constantes menções à síndrome de vira-latas, um prepotente, um ser com mania de grandeza. Para muitos, qualquer brasileiro que representa o país em competições internacionais tem a obrigação de vencer, não importando qual é a qualidade dos adversários. Este não é um fenômeno novo. Nas Copas do Mundo de 1950 e 1954, a seleção brasileira, até então de pouca expressão, era tratada como favorita inquestionável aqui dentro.
Se na década de 1950 era difícil para os jornalistas mostrarem a realidade do esporte para a população e, assim, colocar no contexto a força esportiva do Brasil, este não é mais o caso. No que diz respeito aos esportes olímpicos, a imprensa esportiva atua hoje, em sua maioria, abastecendo a burrice coletiva. Raros são os veículos que investem em esportes olímpicos. Raros são os jornalistas que acompanham esportes olímpicos. Quando os Jogos chegam, procura-se tirar o atraso para determinar quem é ou não favorito e, muitas vezes, a “análise” é equivocada. Poucos explicam que o judô é um esporte no qual o favoritismo deve ser muito ponderado, que os rivais dos “nossos” velejadores e nadadores são tão favoritos quanto eles, que a seleção feminina de basquete decaiu muito e não tem chances de medalha.
A falta de jornalistas especialistas abre portas para os comentaristas-atletas. Estes são, muitas vezes, recém-aposentados, com amigos competindo. Se explicam regras com precisão, às vezes evitam ao máximo fazer críticas aos brasileiros e dizer quais suas reais chances. Ao lado de narradores muitas vezes ufanistas, chega-se à conclusão – igual à dos anos 1950 – de que os brasileiros são favoritos em tudo.
O fracasso continua quando vem a derrota. É aí que surge a esquizofrenia. O narrador, incrédulo, culpa erros de arbitragem ou a “catimba” adversária. O comentarista tenta explicar que o adversário era melhor e que o esporte é uma “caixinha de surpresas”. O torcedor, ignorante, não se importa se a derrota foi motivada por nervosismo, incompetência ou superioridade do rival. Todos viram “amarelões”. Há até quem reaja como em 1950 e 1954, culpando os negros e mestiços, como fizeram com a judoca Rafaela Silva. A realidade, que o Brasil está agora dando os primeiros passos para se tornar a potência que é capaz, e que muitos dos competidores que vão aos Jogos não são tão bons assim, fica fora da equação.

Ao mesmo tempo, ninguém parece entender que a derrota faz parte do esporte, mesmo para atletas de alto nível, como Cesar Cielo e Leandro Guilheiro. O incrível Michael Phelps ficou em quarto e segundo lugares em provas que ganhara em 2004 e 2008. Os saltadores Tom Daley e Peter Waterfield perderam a medalha diante de sua torcida por um único salto errado. Os judocas japoneses, os melhores do mundo, tiveram resultados muito abaixo do esperado. É, e sempre será assim.
Para um país ganhar, digamos, dez ouros nas Olimpíadas, é preciso ter uma massa crítica (chutando) de pelo menos 16 atletas com chances reais de serem campões e outros tantos que estejam chegando ao auge durante os Jogos ou possam aproveitar bobeiras de rivais. Cerca de um terço dos favoritos vai perder por nervosismo, incompetência ou surpreendido por adversários melhores, e outros vão se superar. No fim, o objetivo será alcançado.
Os fatos de o torcedor brasileiro achar que entende de esportes e ser mal orientado pelos jornalistas são suficientemente ruins. O fato de o torcedor ser, como sempre enfatizamos aqui no Esporte Fino, um sujeito que não gosta de esportes, mas de vencedores, piora as coisas. Assim, numa orgia de previsões erradas e críticas imbecis, o país chega à conclusão de que é um fracasso retumbante, quando na verdade o erro original foi criar uma expectativa falsa.
Com o novo ciclo olímpico que se inicia após Londres tendo como fim o Rio de Janeiro, quem sabe torcedores e jornalistas tenham um pé um pouco mais fincado na realidade.
Foto: Divulgação / Alaor Filho/AGIF/COB
Compartilhe!
Tweet




O quê? “Pé mais fincado na realidade”?? Sinceramente, José Antônio, acho que, no Rio a coisa só tende a piorar. Aliás, tende a voltar ao patamar da Copa de 1950. Sem contar que a transmissão volta pra Globo… nossa… vai ser de gorfar.
Difícil, hein? Ainda mais na área jornalística. O que se vê são mais profissionais-celebridades do que competência. E quando esta existe, é pra falar de futebol, a “paixão nacional”. Muitos veículos esportivos gastam minutos/horas ou páginas para destrinchar este esporte até onde não poder mais, dando espaço ridículos às centenas de outros. Fora que para escrever de futebol, parece que você não precisa de muita bagagem, se quiser ser um profissional razoável. Nos outros esportes, isso é necessário. Mas você recebe pouco espaço e importância. Dizem que o jornalismo esportivo sofre grande preconceito perto das outras editorias num centro de produção jornalística. Dentro do jornalismo esportivo, o futebol faz o papel das outras editorias e os outros esportes o de toda seção esportiva.
Excelente texto. Infelizmente, a maior parte dos torcedores brasileiros só acompanha esportes, com exceção feita ao futebol, a cada 4 anos nas Olimpíadas. E mesmo assim, se acham especialista ao ponto de avaliar que o 10º lugar histórico de um ginasta brasileiro numa final olímpica é um resultado medíocre e sem expressão. Precisamos de mais apoio ao esporte olímpico sim, mas precisamos de torcedores que aprendam qual o significado dos verbos “competir” e “torcer”. Parabéns pelo texto.
Bom dia,
Ah, a coisa é muito mais simples… a mídia é um produto, precisa vender Olimpíadas e a maneira que eles tentam manter o interesse é considerar a maioria dos atletas favoritos para deixar o produto mais interessante. Senão, a audiência seria mais pífia… simples assim!!
é muita inocência da sua parte achar que os jornalistas não sabem do nível dos atletas, que os comentarias são amigos e acabam torcendo. Hj me dia, com tanta informação, eles abem exatamente onde cada atleta pode chegar…
1-Comparações individuais são só um consolo.
2-Comparar com olimpíadas anteriores é válido e estamos cada vez melhores, ok!
Agora se compararmos com outros países, somos fracos (não entenda fracassados). E temos muito a melhorar. Não podemos ficar atrás no quadro geral de medalhas de países como Quênia, Nova Zelândia, Turquia. Eu acho que é daí que surge esse movimento de cobrança.
Excelente texto amigo.
Dificil é imaginar que em 2016 seremos mais serenos e realistas.
O obaoba sera maior ainda, e mesmo que o resultado seja excelente, ficara abaixo do esperado pelos sabidoes que acham que devemos ganhar tudo.
Se no Brasil é assim, imagina na China como é, clica aí e veja: http://www.mundogump.com.br/quadro-de-medalhas-das-olimpiadas-2012/
A medição de resultados por medalhas também deturpa as conquistas. No quadro de medalhas, só entram os primeiros três. Mas conquistas relevantes de posições a partir do quarto colocado, como o ginasta brasileiro que ontem conseguiu a melhor colocação brasileira com um décimo no individual geral, não ficam pro futuro.
E outra coisa: as medalhas no quadro têm o mesmo peso, mas deveriam ter? Um nadador entra duas vezes na piscina e ganha uma medalha. O time feminino de futebol está jogando 90 minutos a cada dois dias desde antes da Olimpíada pela mesma medalha.
Ainda que todos esportes olímpicos sejam praticados em todo mundo, qual o número de praticantes mundiais de esgrima, comparado com corredores ou jogadores de futebol, basquete? Mesmo o badminton, que costuma despertar reações como WTF?!, e é um dos esportes mais praticados no mundo, ainda que seja nulo no Brasil.
Texto soberbo. Parabéns, Zé. Resumir tanta estupidez num só post não é para qualquer um!
abs
Diogo
Muito bom o texto… só esqueceu de mencionar que ainda tendem a mostrar que o Brasil é um país que realmente investe noS esporteS.
Ps.: Tenho uma teoria que o que piora tudo isso são os malditos Panamericanos, onde de maneira mascarada nos da falsas esperanças e crenças para algo muito maior… A expectativa é a mãe da m…
Excelente explanação. Realmente esta é a mais pura realidade.
Confesso que antes de ler seu artigo, não tinha esta visão.
Parabens
Texto perfeito, sem mais.