Por que o mundo ama Usain Bolt

Por Danilo Vivan

Se a história seguir seu roteiro e tudo correr como se imagina, o jamaicano Usain Bolt deverá conquistar nesta sexta-feira mais uma medalha de ouro, a segunda nestes jogos de Londres e a quinta de sua carreira.

Embora seja um fora de série, Bolt não é, definitivamente, o atleta mais vitorioso a participar desta Olimpíada. Mas há, nele, um apelo de imagem incomparável, capaz de deixar para trás qualquer um que esteja em Londres, independente da modalidade. Não à toa, domingo, enquanto Bolt detonava o recorde dos 100 metros, o Twitter também batia seu recorde de posts, 105 mil por minuto, quatro vezes mais que na abertura dos jogos.

Bolt pode não ser o incontestável senhor dos jogos. Perde feio, por exemplo, para o nadador Michael Phelps, que em três Olimpíadas conquistou 22 medalhas (ante quatro do jamaicano). Mas, no quesito simpatia, está anos luz à frente do insosso americano. Entre os brasileiros, Neymar, admirado mesmo entre os não-santistas, está longe de ser unanimidade em Londres, como mostram as constantes vaias que recebeu nas partidas da seleção. Restaria Roger Federer, incontestável vencedor de Wimbledon e maior tenista da história, mas incapaz de arrebatar simpatia dos expectadores fora das quadras – coisa que Nadal, por exemplo, faz muito melhor.

Usain Bolt é, hoje, o atleta mais amado do Planeta pelos seguintes motivos:

1) Faz o difícil parecer fácil. Dizem que esse é o diferencial dos deuses do esporte. Ao contrário de seus concorrentes diretos, o jamaicano corre visivelmente mais relaxado – vejam, por exemplo, a final dos 100 metros em Londres: as câmeras mostram Johan Blake e Justin Gatlin (segundo e terceiro lugar, respectivamente) se esfalfando na pista; Bolt vai tranquilo, passadas largas, nada de caretas.

2) É o maior de uma geração de foras de série. Bolt é, guardadas as proporções, o Ayrton Senna de seu tempo. Se destaca entre caras que, em qualquer outra época, seriam os melhores. Senna foi o lider num tempo em que competiam Mansell, Piquet e Prost. Bolt superou atletas do nível do também jamaicano Johan Blake e dos americanos Justin Gatlin e Tyson Gay. Todos fizeram, na final dos 100 metros, tempos que lhes dariam a medalha de ouro há apenas duas olimpíadas em Atenas 2004.

3) A ascensão de Bolt trouxe às provas de velocidade um perfil diferente daquele que se acostumou a ver nas pistas, o de atletas, em geral negros, e invariavelmente bombados e de cara fechada. O jamaicano brinca com as câmeras, sorri e ‘chama o público para correr com ele’. E criou um gesto que virou meme, hoje imitado em todos os cantos do Planeta, que já ganhou até apelido a lightning pose.

4) Bolt é jamaicano. Isso faz toda diferença. Pensem, por exemplo, em Carl Lewis: o americano conquistou nada menos que 10 medalhas, sendo seis em provas de velocidade e quatro no salto em distância. Do ponto de vista técnico, era muito mais completo e versátil que o jamaicano. Mas sua imagem é, de certa forma, um símbolo dos Estados Unidos potência olímpica imperialista da Era da guerra fria. Bolt remete à Jamaica do Caribe, do reggae, de Bob Marley. Aliás, se a imagem do país pesa a favor do atleta, nesse caso o inverso também vale: a presença de um esportista de reconhecimento mundial, tende a dar uma modernizada na imagem do país, desde sempre associada, no imaginário popular, ao consumo cigarros proibidos em outras partes do mundo.

Por essa razões, a Reuters calcula que os contratos de patrocínio rendam a Bolt cerca de US$ 20 milhões por ano. E, a julgar por seu carisma, essas cifras devem aumentar nos próximos anos.

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6 Palpites

  1. Nicolás Rodrigo Baravalle

    Ótimo texto, só não concordo com a parte que diz que Nadal tem mais capacidade de ”arrebatar simpatia fora das quadras” do que o Federer. Uso como argumento que a página do Roger no facebook tem mais fãs do que a do Rafa.
    Abraços!

  2. Andréa

    Bolt é mais “fanfarrão” (no bom sentido) do que o Federer, mas creio que o suíço seja o maior atleta desses Jogos Olímpicos. Mas Bolt tem a seu favor o fator de brilhar intensamente durante as Olimpíadas, na prova mais nobre do atletismo, enquanto Federer “distribui” seu brilhantismo durante o ano inteiro, no circuito mundial – sem contar que o tênis, assim como o futebol, não tem as Olimpíadas como a competição mais importante, diferente dos outros esportes. Mas ambos são gênios!

  3. Valdir

    Também discordo dessa afirmação de que Nadal consegue angariar mais simpatia que Federer fora das quadras. O Suíço é reconhecido até por quem não acompanha tenis.

  4. Texto perfeito, seguindo a rotina excelente do site. Mas Nadal ser mais simpático que Federer é contestável.

  5. André

    entrei para contestar a afirmação em relação ao nadal x federer (acho o djokovic mais carismático que o nadal, inclusive), mas já me sinto contemplado pelos outros comentários.

  6. Guto Neto

    Texto muito bom, mas não entendi o “guardadas as proporções” na comparação com Senna. Bolt é ídolo em um esporte muito mais popular e, por mais que estejamos em uma era bem diferente no que diz repeito à facilidade de comunicação global, a fama do jamaicano chega nos 4 cantos do mundo. Não que o Senna não fosse famoso, mas o endeusamento do piloto acontece apenas no Brasil. Em outros países, Senna é visto como um piloto campeão e muito talentoso, mas não era o Deus que os brasileiros o transformaram. Para os franceses, Prost foi o maior, assim como Mansell para os britânicos. Com uma diferença, eles não morreram precocemente, no auge da carreira. Temos que considerar que essa tragédia ajudou na visão do Senna como um Deus. Em resumo, não concordo em comparar o Senna ao Bolt, acho que o jamaicano é mais popular mundialmente. Seria mais justo comparar o Bolt ao Pelé, ao Maradona, ao Messi, ao Federer, ao Kelly Slater. Além do que, no atletismo e no futebol, no tênis e no surf, por exemplo, você não tem um bom carro pra te ajudar. Pelo amor de Deus, não tô dizendo que o Senna era um piloto fraco, pelo contrário, ele foi o maior, sem dúvidas, mas acho que ele tratado desnecesariamente como um deus no Brasil.

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