Quando o Twitter deu errado

Por @luiz_a_lima

No simpático filme “Do que as mulheres gostam”, do longínquo ano 2000, há uma cena emblemática na qual Mel Gibson, subitamente capaz de ouvir o pensamento das representantes do sexo oposto, quase enlouquece ao tomar ciência de tantas coisas ao mesmo tempo. Ele está em uma loja de departamentos, cercado por mulheres com o pensamento a mil.

Às vezes o Twitter produz o mesmo efeito, pelo menos no autor deste post. É muito opinião (e informações, vá lá) para pouco assunto.

E, é claro, os intolerantes. Os reacionários do teclado, o tipo de ser mais perigoso desta era de redes sociais.

Porque essa era é também a da crise econômica e do desemprego na Europa. E continua sendo a era da pouca educação e muito preconceito em países como o Brasil. E todos com um mínimo de cultura sabem que tipo de gente e de pensamento surge em tal cenário. E o perigo que é quanto tal pensamento ganha eco e se espalha por aí.

Em três dias de Jogos Olímpicos, já temos dois atletas expulsos por comentários preconceituosos no Twitter. Na mão dessa gente, esta ferramenta é uma merda.

Primeiro a saltadora grega Paraskevi Papachristou, que na prática reclamou do fato seu país receber muitos africanos e torceu para eles virarem comida de mosquitos contaminados. Soube-se depois que Papachristou é simpática ao Aurora Dourada, partido de neonazistas que anda fortalecido em meio à grave crise grega.

Já o jogador de futebol Michel Morganella, como bom perdedor, orgulho de Coubertin, tuitou: “Quero bater em todos os sul-coreanos. Todos eles são retardados.”

Estes atletas mereceram ser expulsos.

Nada a ver com politicamente correto. É algo maior do que isso. A intolerância está à espreita, e o bem e a liberdade precisam ser protegidos. Blogueiros devem pensar nisso ao moderarem seus comentários. Os jornais devem pensar nisso ao editarem sua seção de cartas.

E que tipo de gente perde tempo escrevendo essa merda após uma atleta perder uma luta? “Passa anos se preparando para ser eliminada por uma burrice dessas. Merece voltar nadando de lá.”

Ok, a judoca Rafaela Silva, alvo do comentário imbecil, também errou ao responder e discutir com essa gente, mas haja saco. Ninguém merece…

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Jornalista, 37 anos. Já teve a ilusão de que seria um Dustin Hoffman. Hoje está feliz como um Cigano Igor.
Twitter: @luiz_a_lima
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Um palpite

  1. Concordo com praticamente tudo, Luiz. Só discordo em um ponto: não acho ruim que o twitter tenha permitido aos babacas racistas e similares, especialmente os considerados “figuras públicas”, proferir essas besteiras. De que outra forma saberíamos que essas figuras pensam o que pensam? Isso nos ajuda a saber quem são, e quantos são, os imbecis. O twitter – a internet, de modo geral – dá voz a muita gente detestável, mas acredito que isso tenha um aspecto positivo. Evidencia a nós o quão extensa ainda é a tragédia da imbecilidade humana, o quão profunda ainda é nossa cretinice, apesar de tantos e tão bem intencionados esforços em contrário. Acredito que tudo aquilo que nos ajude a enxergar a real face das coisas seja sempre bem vindo.

    Resposta: Oi, brother Chicão. Você tem razão, realmente por este aspecto as redes sociais são bem-vindas. Por outro lado, elas proliferam este tipo de pensamento, que antes teria de ficar restrito a panfletos, reuniões partidárias etc. Mas concordo que é melhor mostrar do que fingir que não existe… Enfim, vale o debate. Eu fico um pouco cansado, mas isso é algo particular. Abraços!

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