Por Eduardo Bispo *
Era meu aniversário quando o Detroit Lions enfrentou o New Orleans Saints na disputa do Wild Card, na temporada passada. E o pessoal se reuniu lá em casa para comemorar a data e para me dar as boas-vindas. Há menos de uma semana, havia retornado da minha ‘estadia’ de três anos em Michigan. Ninguém entendeu direito a minha animação naquela noite. Nem o capacete prateado ao lado da TV. Muito menos a comemoração de touchdown no meio do parabéns-pra-você. Todos pareciam indiferentes aos meus clamores de “são os playoffs gente!”, ou “desde 1999 não disputávamos o Wild Card!”, muito menos de “0-16! Há três temporadas atrás, perdemos todos os jogos! E agora, estamos nos playoffs. Isso é incrível!”.
Estava muito mal-acostumado. A 15 mil quilômetros dali, em Michigan, milhões de pessoas discutiam, com embasamento, a remota possibilidade de avançarmos. Milhões confiavam na improvável superioridade de Matthew Stafford sobre o recém-lendário Drew Brees. Milhões esperavam ansiosos por mais uma atuação impecável de Calvin Johnson, o melhor wide receiver da liga. Milhões. Mas ali, no calor do verão de São Paulo, estava sozinho na minha expectativa. Mais que o peso da distância e do fuso-horário, precisava urgentemente me readaptar a mudança repentina de esporte nacional.
No começo do segundo tempo, todos já haviam ido embora. Continuava assistindo sozinho à momentânea vitória de Detroit no Mercedes-Benz Superdome. Foi quando minha irmã, já de pijama, sentou no sofá. E entre um down e outro, começou a fazer perguntas. “Mas se ele pisar fora do campo com a bola na mão, o passe é completo?”, “Se ganharmos, vamos jogar o Super Bowl?”, “Mas por que o relógio às vezes para e às vezes não?”.
A Bia já tinha uma noção das regras principais do jogo. Lembro que um dia, após um jogo de flag na escola, ela havia me pedido para explicar como se jogava. “Eu derrubei aquele cara que joga a bola pra frente e todo mundo aplaudiu. Eu não faço ideia do porquê.” Me coube explicar as principais regras do futebol americano para a menina que deu um sack, sem saber, no futuro quarterback da Michigan State University.

“Bom, ela disse que entendeu…”
E quando o ataque de New Orleans começou a massacrar a defesa dos Lions como um rolo compressor, eu não estava mais sozinho. Minha irmã torcia como nunca para o time da cidade que, por três anos, foi tão importante nas nossas vidas. E mesmo com o jogo inevitavelmente perdido, continuou ali comigo, assistindo o jogo até o último snap.
Ao final da partida, meu silêncio revelou a decepção de ver os Lions fora dos playoffs. Não que o revés fosse uma surpresa, uma zebra. Mas senti que, com aquela derrota, Detroit estava ainda mais longe de mim.
Foi quando a Bia levantou, me abraçou, e disse: “Não fica assim. Ano que vem, vamos pro Super Bowl.” E foi dormir. Foi naquele momento que percebi: o que eu tinha de mais importante em Michigan havia voltado comigo.

Bia e eu no Ford Field
Temporada 2012 – Lendas mudando de endereço
Não creio que a previsão da minha irmã se realize ainda nessa temporada. Detroit ainda não tem um time competitivo o bastante para chegar ao Super Bowl. Mas nunca estivemos tão perto de, quem sabe, chegar à final da conferência nacional (NFC). Seria impossível ultrapassar o Green Bay Packers na liderança da divisão. Porém, o segundo lugar e a vaga na disputa de wild card são uma realidade. A escolha dos Lions no draft foi genial. O jovem offensive tackle Riley Riff deve dar ao quarterback Mathew Stafford a confiança que lhe falta para figurar entre os melhores quarterbacks da liga.
* Eduardo Bispo tem 22 anos e é formado em jornalismo pela Oakland University. Divide seu amor pelo esporte entre o Santos F.C. e o Detroit Lions em, respectivamente, 60% e 40%.
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Muito legal a história, bom texto.
Belíssimo texto.
Cade vc no time? Mto bom o texto!
Edu
Muito legal a historia e a participacao da Bia! Vc trsnamitiu bem o que eh o esporte para nos….que nao estamos tao acostumados assim e pouco sabemos o que isso tudo movimenta na verdade. Enaquanto estivermos acompanhando o futebol americano, vamos torcer tambem para que voce continue fazendo mais touch downs como neste texto!
Parabéns !!!