Sobre Muller e a religião

Aposto que muitos leitores, ao baterem o olho no título deste post, se atiçaram ao imaginar que serei mais um a criticar o ex-jogador Muller, também ex-pastor de igreja evangélica, que recentemente chocou a todos ao tornar público que está falido, morando de favor na casa de amigo. Tudo por conta, segundo o próprio Muller, de gastanças com mulheres, carros…

A notícia do mau momento do ex-craque foi alvo de severas críticas de cidadãos angelicais, que jamais foram pegos nos contrapés da vida, que ajudam velhinhos a atravessar a rua e jamais furam fila ou buzinam logo que o sinal fica verde.

Por trabalhar com internet, li dezenas de mails de leitores revanchistas, criticando Muller impiedosamente por ele ter se metido com assuntos de fé – mesmo com a vida pessoal tão conturbada. São opiniões da mais pura hipocrisia…

Se tem uma coisa que ferra o mundo, em especial as discussões sobre religião, é que um dos preceitos básicos da boa convivência vai logo por água abaixo: a tolerância. Poucos são os cristãos praticantes que carregam no cotidiano os ensinamentos mais básicos de Jesus: “Não julgue para não ser julgado” e “Ame ao próximo como a si mesmo”. Isso é difícil, não? Mais fácil é pregar contra o que quer que seja: camisinha, novela, a vizinha divorciada…

Muller, meu nobre. Eu jamais vou te julgar. Pelo contrário, só tenho a te agradecer pelo domínio malicioso com a perna esquerda, o corte em diagonal para a entrada da área e o chute certeiro com a perna direita.

Lembro da vez que fizemos parte da mesma turma de jornalistas em Santiago, num jogo das Eliminatórias contra o Chile. Você era comentarista do “Sportv” e me chamou a atenção seu jeito calado, tímido, talvez inseguro. Ali desconfiei que havia algo de errado e, de fato, pouco tempo depois soube dos problemas.

O que me importa é que você, camisa 7, foi dos três melhores que vi jogar com a camisa do meu time (e por sorte, muita sorte, vi você de perto, no estádio, algumas boas dezenas de vezes). Três Copas, e tantos títulos que poucos possuem.

Não dê bola para os malas e reconstrua sua vida. Quem distribuiu tantas boas lembranças tem muitos tijolinhos lá em cima.

Veja abaixo um gol de Muller, o único da seleção brasileira na vitória sobre a Costa Rica, na Copa de 90. As imagens são da TV Manchete, com narração de Osmar Santos e comentários de Zagallo e Paulo Roberto Falcão.

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Jornalista, 37 anos. Já teve a ilusão de que seria um Dustin Hoffman. Hoje está feliz como um Cigano Igor.
Twitter: @luiz_a_lima
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7 Palpites

  1. Fabiano Pinto

    Bons tempos esse quando qualquer tv podia passar os jogos do Brasil, vc escolhia a vontade onde queria assistir os jogos…
    Quanto a Muller, apesar de ter sito um grande jogador em praticamente todos os clubes que jogou, acho que a melhor fase da carreira dele aconteceu no Palmeiras e Santos, o racicinio tatico dele evoluiu muito depois que voltou da Europa e tinha na época como treinador o Luxa que na época era um dos melhores técnicos de futebol do planeta, o problema é que o Madri pegou ele atrasado.
    Quanto aos problemas do Muller, ninguem tem que falar nada, não foi golpe, foram situaçoes que ele provocou, como vc disse é hipocrisia.

    Resposta: Obrigado, Fabiano. O Muller de fato jogou demais no Palmeiras e no Cruzeiro, mas, na minha opinião, o grande momento dele foi mesmo no São Paulo, entre 1991 e 93. Abraços!

  2. Ana

    PQP, perfeito.
    Ainda agora estava falando desse assunto. Não relativo a futebol, mas àquela manifestação dos “crentes” ontem em Brasília. Eu sou cristã. Antes eu dizia que era evangélica, mas decidi parar de falar isso, porque hoje em dia, os evangélicos já não evangelizam. Eles só criticam. Já não falam do amor de Deus.

    Faz pouco menos de um ano que entrevistei o Muller. Gente boa, palavras medidas. Falei com ele sobre o São Paulo e sobre religião. Ele me parece bem coerente. O problema é que o povo acha que só porque o cara é evangélico, é puritano. Pelo contrário. Todos nós somos falhos. Mas ninguém pode apontar o dedo a ninguém.

    Um salve pra você!

    Resposta:
    Salve! Obrigado, Ana, legal ler suas palavras. Pois é, não se pode trocar a bela função que é evangelizar com perseguição e intolerância. Mas isso é uma armadilha na qual muitas religiões caem. Abraços!

  3. Muito bom!

  4. Que belo texto, Luiz. Puta carga sentimental (especialmente pra um cara que vem de uma geração quase inteira que se formou tricolor vendo os gols do Muller) e uma análise na mosca sobre religião. Breve e certeira, pq de fato, também sou cristão e infelizmente o que vejo é uma disputa entre religiões. Como se cada uma quisesse ter a “transmissão exclusiva” de Deus, o que acho um absurdo.

    E que maravilha ver uma época em que a Manchete estava no auge, passava grandes eventos esportivos e tinha o sensacional Osmar Santos narrando, ainda…

    Enfim, meu caro, vc conseguiu abordar dois dos temas mais polêmicos de sempre usando um cara igualmente polêmico como foco e construiu um texto impecável. Meus parabéns!

    Resposta: Poxa vida, Hugo, muito obrigado! Fico feliz que você tenha gostado. E, sim, também tenho saudades da Manchete! Abraço.

  5. Concordo com tudo exceto a parte dos três melhores atacantes. O Miller era inferior a vários caras marromeno da geração dele como Romário, Careca, Bebeto e Renato Gaúcho.

    No São Paulo bicampeão mundial ele era um dos melhores mesmo. O time campeão em 2005 não tinha um atacante como ele.

    Grande jogador.

    Resposta: Oi, Tiago, valeu pelo comentário. Seguinte, na verdade eu me confundi. Minha intenção era escrever que o Muller era dos três melhores atacantes do meu time que vi jogar. No geral, acho que ele fica entre cinco! Obrigado pelo toque. Só uma coisa: o Muller jogou mais do que o Renato Gaúcho. Mas aí é questão de opinião. Abraços!

  6. Alan

    Luiz Augusto faz um texto legal abordando religião sem polemicas e lasca que Muller foi melhor do que o Renato Gaucho? Affff… Brincando ae… rs

    A intolerancia por causa da religião me entristece muito pois o que Jesus ensinou não foi isso.

    Quanto as dificuldades do Muller torço para ele reconstruir sua vida.

  7. Beleza, Luiz. Discordo, mas respeito. :)

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