Por @zeantoniolima
Não me lembro exatamente do ano, só do local. Era a rua Madre Cabrini, na Vila Mariana, bairro da zona sul de São Paulo. Lá ficava a sede antiga da Cultura Inglesa, escola de inglês na qual eu estudava.
Naquele dia, minha aula acabou cedo e, como sempre, eu deixei a mansão que abrigava a escola o mais rápido possível, afinal eu odiava estudar inglês (sorte minha que minha mãe não se interessava pelo fato de eu gostar ou não). Entrei no carro, no qual minha mãe, dirigindo, e meu pai, no banco do carona, esperavam. Raramente era possível achar uma vaga ali, então eles estavam em fila dupla.
Agora nós três esperávamos minha irmã mais velha. Ela devia estar fazendo prova ou um social pós-aula com as amigas. Ela demorou e, do banco de trás do nosso carro, eu observava meu pai olhando para o senhor que dirigia o carro estacionado ao lado. Meu pai tinha a estranha mania de ficar olhando para a cara de uma pessoa, às vezes boquiaberto, sem pudor nenhum, o que gerava protestos da minha mãe e da minha irmã. Mas naquele dia o hábito mudou.
Meu pai abriu o vidro do carro e se dirigiu ao senhor de cabelos brancos.
- O senhor não é o Fabio?
- Sim, sim sou eu…
Esse episódio é de algum momento no meio dos anos 1990, então já esqueci o resto do diálogo, mas esse começo me marcou. Com aquela pergunta, meu pai fez brotar um sorriso e um brilho no olhar daquele velhinho que dirigia o outro carro. Só quando minha irmã chegou e nós fomos embora meu pai explicou a situação. O Fabio da porta da Cultura Inglesa era o Fabio Crippa, goleiro do Palmeiras substituto de Oberdan Cattani na reta final da famosa Copa Rio de 1951.
Nos anos 1950, as glórias dos jogadores de futebol não eram recompensadas com dinheiro. Mesmo que fossem, aos 70 e poucos anos, idade que Fabio tinha quando encontrou meu pai, ele provavelmente já estaria naquela fase em que as pessoas costumam ligar menos para seu saldo bancário e mais para o que significaram para familiares, amigos, etc. Para Fabio, ser reconhecido mais de 40 anos depois de seu principal feito profissional, de cabelos brancos e pele enrugada, com certeza valeu muito mais que grandes quantidades de dinheiro. É uma pena que, no futebol atual, os jogadores parecem não ter a menor ideia de quanto significam para o sujeito que está na arquibancada. Eles não estavam lá para ver a alegria do Fabio.
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Cara, que texto lindo! Parabéns!
Valeu, Chicão!
Por uma feliz coincidência, procurando coisas da historia de minha familia, achei esse texto. Estou mto emocionada, pois sou filha do Fabio Crippa. Eram meus filhos q meu pai estava aguardando na porta da Cultura. Em poucas palavras vc retratou o orgulho q meu pai tinha de ter sido jogador, principalmente do Palmeiras. O reconhecimento era com admiração, com respeito e totalmente desinteressado. Totalmente diferente dos valores de hj. Agradeço por ele, essa manifestação de respeito. Obrigada
Fabiola
fabiola,é tao bom qdo nossos pais sao lembrados com respeito.lembro dele muito bem e e´CLARO que sei que ele foi goleiro do Palmeiras;depois lembro do LEÂO.
Beijos colega da escola Eliana.
Como faço p/compartilhar isto com meu irmão Mário(ele é palmeirense muito verde!)