Uma vergonha monumental

A desfaçatez, jeito bonito de dizer cara de pau, é uma característica que acompanha o homem público em qualquer parte do mundo, mas que no Brasil tem uma insistente constância. No dirigente de futebol, e aqui os brasileiros se destacam, ela é ainda maior. Quando se misturam política e futebol as coisas pioram bastante, como mostra a incrível tentativa do presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, de negar que o estádio do clube será erguido com dinheiro público. É preciso debater esta questão para que, de uma vez por todas, fique clara e não haja tentativas de recontar a história no futuro.

Para garantir a organização da Copa, o governo federal abriu uma linha de crédito a juros baixos no BNDES. São empréstimos, que devem ser pagos por aquelas entidades, públicas ou privadas, que os tomaram. A intenção aqui é fomentar a construção dos estádios e, assim, ajudar o país a organizar o evento, o que ao menos na teoria pode ajudar cada cidade e a economia do país como um todo.

Outra forma de os governos ajudarem é por meio da isenção fiscal. O agente público, Estado e/ou prefeitura, renuncia a uma certa quantidade de impostos que seriam cobrados das empresas que participarão da reforma ou construção. Em Minas Gerais, por exemplo, é o que está ocorrendo. Com menos impostos, as empresas atuam de forma mais fácil e, no fim da Copa, o governo de MG tem um patrimônio de alto nível para abrigar futebol e outros eventos geradores de lucro.

É aqui que entra a negação de Andrés Sanchez e de muitos corintianos (não todos, como Guilherme Pinheiro mostrou aqui na segunda-feira). A isenção fiscal de R$ 420 milhões que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, deu ao clube, é renúncia de dinheiro público em troca da construção de um bem privado. A justificativa de Andrés, e de Kassab também, é que o estádio levará dinheiro para São Paulo. É uma verdade óbvia, que será analisada mais para frente.

Quando se fala dos R$ 70 milhões que o governador Geraldo Alckmin (PSDB) vai investir em uma arquibancada móvel no estádio do Corinthians, Andrés dá de ombros, e alega que nunca pretendeu que Itaquerão fosse sede da Copa. Se nunca teve essa intenção, de onde Andrés pretendia tirar os R$ 490 milhões em dinheiro público que serão usados na obra, que junto com os R$ 400 milhões que a Odebrecht vai investir deixariam o clube com uma dívida de cerca de R$ 1 bilhão? Ele não tiraria de lugar algum, porque Andrés sabia desde o início que, para ter seu estádio, precisaria impedir que o Morumbi, do São Paulo, o Palestra Itália, do Palmeiras, e o Pacaembu, público, fossem usados na Copa do Mundo.

Esse objetivo foi alcançado de duas formas. Garantindo que o governo estadual, a prefeitura de São Paulo e a Fifa tivessem uma enorme má vontade com os outros estádios, má vontade esta que, de repente, esvaneceu. Com o passar o tempo, a cidade se viu acuada, chantageada e perto de ficar sem a Copa do Mundo. Foi aí que, bruscamente, as coisas mudaram. Kassab e Alckmin injetaram dinheiro público em uma obra privada (o que poderiam ter feito com qualquer outro estádio), a Fifa esticou o prazo até meses antes do mundial começar (o que poderia ter feito com qualquer outro estádio) e Andrés Sanchez (como poderia ter feito qualquer outro dirigente, é verdade) posa como se o Corinthians fosse o salvador de São Paulo, que impediu a cidade de passar o vexame de ficar fora da Copa.

É possível chamar a definição do estádio de São Paulo de política. É possível falar em imoralidade. Há quem diga que, conhecendo os bastidores, seja possível invocar o Código Penal para encontrar os substantivos corretos. Seja como for, é uma vergonha monumental.

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30 anos, jornalista. Gostaria de viver em um mundo em que as SUVs não existissem, especialmente as brancas.
Twitter: @zeantoniolima
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7 Palpites

  1. Fantástico! Falou tudo Zé!
    Agora é aguentar os corinthianos que vão vir babando para xingar muito por aqui. heheheh
    Abs

  2. Nilton

    Mas e os outros estádios vão ser construídos com o dinheiro de quem?
    O de Brasília só vai servir pra Copa, dinheiro jogado fora.
    E esse negócio de que com 400 milhões poderia construir escolas, hospitais… é de políticos que querem aproveitar pra aparecer, porque mesmo com esse dinheiro eles não fariam nada, só encheriam os bolsos, cuecas e meias.

  3. O que acho lamentável são os jornalistas/jornais não mostrarem que efetivamente o goverso de São Paulo vai botar dinheiro, e muito, nesse estádio do Corinthians. Isenção fiscal da na mesma, no final das contas.

  4. Jorge Roberto Alves Pereira @jorgekart59

    Sou corintiano fanático, porém não concordo com a maneira como está sendo conduzida esta obra. Tem coisas muito mais importantes para a Prefeitura de SP, o Governo de SP, o BNDS e afins, se preocuparem e investirem dinheiro.

  5. Alexandre Rodrigues Alves

    Estádios constrídos em Manaus e Cuiabá para serem elefantes brancos, estádio em Recife sendo que existem pelo menos 2 em condição de serem sede da Copa, atraso nas obras em BH fazendo com que a cidade fique sem futebol por 2 anos, ou seja, a vergonha é nacional.

    Sobre o estádio em SP nada contra o Corinthians ter estádio, mas a forma como foi conduzida a coisa é algo deplorável, para que acontecesse um lucro na construção de uma nova arena já para a Copa.

  6. Bandeira

    Me solidarizo com vocês, jornalistas, por terem que encarar tudo isso, escrever escrever escrever, expor os podres mesmo sabendo que tudo vai ser como todos nós sabíamos desde ’07. A vontade que eu tenho é de entrar em coma induzido e só sair lá por ’17, pra perder também os Jogos Olímpicos.

  7. Renato Mazzola

    Acho que deveriamos fazer uma caminhada contra essa distribuicao do dinheiro publico a um unico clube. Dinheiro publico e para bem publico e estadio de futebol de um clube nao e bem publico. o governo de SP da isencao fiscal, o BNDES financia e o corinthians?? Recebe tudo de presente? Quer fazer estadio faca como o Palmeiras, va atras do dinheiro. a proposito, nao sou palmeirense, mas o estadio da copa de SP deveria ser o Palestra.

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